Seguidismo

seguidismo – substantivo masculino, qualidade de quem segue ou é defensor incondicional de alguma ideia, teoria ou partido, sem nunca se questionar ou fazer juízos de valor (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

 

Eu, finalmente, consegui perceber. E foi mais uma vez a voz avisada da Directora-Geral da Saúde, pessoa de elevada perspicácia, coerência e assertividade, que me mostrou a “luz”. A justificação para se poder comemorar o 25 de Abril nos moldes em que vai ser comemorado na AR, está na própria configuração do Parlamento. É a forma arquitectónica, o amplo espaço interior e o desenho avançado do hemiciclo que garante as condições sanitárias para que a comemoração se possa fazer tranquilamente. Eu, limitado como sou, apesar de ainda não precisar de um manual de instruções para cantar o que quer que seja à janela, principalmente quando me permitem desafinar e fazer “lyp sinc” (não faço a mínima ideia do que seja, mas como está em servo-croata, deve ser coisa modernaça), pensava que era o estatuto das pessoas ou a própria data. Mas não. Aliás, nem podia ser de outra maneira. Não se iria, obviamente, comemorar uma data que prometeu acabar com os privilégios das castas políticas e com a desigualdade de direitos que o Povo experimentava, fazendo EXACTAMENTE a mesma coisa. Obrigado, Graça Freitas.

Pois, mas, infelizmente, a verdade é que o sofisma acima, nada mais é que isso mesmo, um sofisma. Aliás na tradição deste governo cujo lema é perante uma garrafa a meio, e podendo escolher entre o meio cheia ou o meio vazia, opta sempre por dizer que está completa, intacta e por abrir e que tem muitas mais em stock e que já comprou mais uns milhares. Mas também é apenas isto e só isto que a esquerda quer escutar, mais ou menos como “cartilheiro” André faz com a direita “chega”. O governo mente? Claro que sim. Todos os dias e a propósito de qualquer tema. De forma, fácil e factualmente, comprovável. Isso interessa alguma coisa? Claro que não. O importante é passar a ideia, mesmo que irreal, que os caminhos de esquerda ainda são viáveis. E a audiência ajuda porque não quer ouvir verdades nem factos. A realidade que se trame. O que querem ouvir é que o seu mundo continua inabalável e as suas crenças actuais. Discutir política com a esquerda é mais ou menos como seria discutir teologia ou religião com um padre do século XII.

São completamente surdos e cegos a qualquer coisa que possa arranhar as estruturas do edifício ideológico que construíram, não percebendo que essa construção faz lembrar os “coelhinhos da Páscoa” de chocolate: é oca, completamente oca. E é essa percepção não assumida nem permitida, mas pressentida que lhes veda a mais ínfima possibilidade de auto-crítica ou de aceitação de qualquer reparo. Não podem. Porque esse vislumbre de lucidez levaria a fissuras naquela estrutura que de tão frágil, se desmoronaria num ápice. Por isso comemoram o aniversário de um dos maiores assassinos que a humanidade já conheceu, Vladimir Ilyich Ulianov, mais conhecido por Lenin, criador, mentor e principal mandante do “Terror Vermelho”. Por isso, juram “a pés juntos” que a Coreia do Norte é uma democracia, que o Maduro é quase um liberal e que a não concessão do Prémio Nobel da Paz ao Che, foi uma das maiores injustiças que a Academia Sueca pôde cometer.

E a propósito da “Sessão Solene Comemorativa do 46.º Aniversário do 25 de abril de 1974”, as premissas são exactamente as mesmas. Não adianta, rigorosamente nada, demonstrar factual, documental e jornalisticamente que todos, mesmo todos sem excepção, argumentos que utilizam ou são falsos ou são deturpações da realidade ou “clichés” sem significado. O argumento absoluto e definitivo (como se fosse a suprema estocada da lógica e da argúcia) acaba por surgir “25 de Abril sempre e fascismo nunca mais”. Obviamente que no decurso deste processo já rosnaram várias vezes o eterno epíteto “faxista” (expressão que, claramente perdeu qualquer sentido ideológico efectivo e que, agora, só quer dizer “cabrões que não concordam bovinamente connosco”) dirigido a quem ouse discutir com eles o que quer que seja.

É claro que no meio daquela sequência, vieram a lume as expressões “liberdade”, “democracia” ou “vontade do Povo” nem percebendo que esses importantes argumentos só legitimavam a posição de quem se sente profundamente indignado com a forma como se vai comemorar, na AR, o 25 de Abril. Pior o que não perceberam é que ao insultarem um Povo inteiro (eu sei que a esquerda não se sente insultada, mas devia, pior, eram os Portugueses que mais insultados se deviam sentir por causa do atentado que este tipo de celebração perpetra ao espírito de Abril que trazem sempre na boca), estão a “fazer a cama onde se hão de deitar”. O eleitorado português perdoa muito. Perdoa crimes, perdoa corrupções, perdoa erros, etc. Perdoa e esquece. Mas não indulta a traição. Se há algo que pode caracterizar a memória de quem vota é a aquela expressão “Roma não paga a traidores”. E esta vai ser uma das maiores traições alguma vez feita ao Povo Português.

No meio desse estigma que, inapelavelmente, resultará desta situação, emerge, também, um rosto. Um chefe de quadrilha. Alguém que nem as atenuantes possíveis (carisma, inteligência, credibilidade, dignidade, etc.) tem para mitigar a incriminação. Falo, obviamente do Presidente da Assembleia da República, Ferr… o coiso.

Mais, como a esquerda não conseguiu perceber o óbvio (quer a ofensa quer a inversão de valores, quer o facto de não ser a data que estava a ser colocada em causa, mas sim, a forma de celebração em si), conseguiu fazer respingar a polémica para cima da revolução. Reparem, as pessoas insurgiram-se apenas contra a forma da comemoração. E foi a própria esquerda, imbecilmente, que chamou a data à colação. Na sequência da ausência de todo e qualquer vestígio de lucidez, utilizou o que achavam ser o derradeiro, mas absoluto, recurso, a data em si. O que não perceberam foi que a discussão, teoricamente, poderia passar ao lado do que estava a ser comemorado, até porque a indignação não era com a celebração (de per si) mas com a sua forma. Se o Parlamento decidisse comemorar outra coisa qualquer desta forma, a indignação seria exactamente a mesma. E por isso, o tabu “25 de Abril” caiu. O que antes era considerado um crime de lesa-república quase alta traição, ou seja, argumentar algo que pudesse manchar a santidade da data, agora vai ser o “pão nosso de cada dia”. Vai ser possível discutir o que Abril prometeu e o que (não) cumpriu. Vai ser possível dissecar o período de terror que se viveu a seguir à revolução. Vai ser possível comprovar, para além de qualquer dúvida, as reais tentativas de instauração de um regime totalitário comunista em Portugal. E ainda bem que tal vai ser, finalmente, permitido. Nem que não seja em tributo de Nuno Manuel Polido Dionísio.

Ah, e não, não sou fascista. Nem de perto nem de longe.

 

 

 

 

Comments

  1. Albino manuel says:

    Tanta léria para a mesma conversa. Tratem mas é de serem limpos. Há dias que andam nisto. Deve ser falta de tema ou a vergonha de o Douro Litoral ser a capital da porcalhice. A seguir vai ser o primeiro de Maio. Se o bicho ainda andar por aí pelo S. João vai set ima limpeza. Culpa de quem? Lisboa, claro.

    • Dragartomaspouco says:

      A bimbalhada anda assanhada aqui no Aventar.
      De resto este blog é praticamente 99% dos bimbos, que ficam muito incomodados com a incidência ou melhor que se divulgue a incidência dos casos

      • POIS! says:

        Pois já tinhamos notado.

        Que V. Exa. anda assanhado aqui. Não era preciso avisar-nos.

      • Paulo Marques says:

        Olhe que não. Ainda esta semana o New York Times revelou os casos e quem se chateou foi o regime.

    • Paulo Marques says:

      Ou isso ou porque onde se produz invés de fazer chamadas é no norte.
      Na, pode lá ser.

  2. POIS! says:

    Pois só espero uma coisa.

    Que depois de tanto peroranço pela não realização da sessão na AR, que terá certamente como consequência imediata a abertura dos sete selos que irão dar início ao Apocalipse, não venham os mesmos exigir amanhã que se concluam os campeonatos de futebóis e outras coisas que tóis. Mesmo que seja á porta fechada ou com adeptos nas bancadas, mas dentro de jaulas individuais.

    É que um bigodinho irerresponsável já vê os Gloriosos Adeptos no Marquês. Outro já imagina macacões e outros murcões nos Aliados. Irresponsáveis!

    Não foi para isto que o país foi fechado, se fizeram tantos sacrifícios, há tanta gente no desemprego, há tantos idosos, coitadinhos, em risco de vida, os nossos profissionais de saúde a lutar por todos nós e, ao mesmo tempo, outros a berrar. contra os árbitros sem máscara a encher os ares de covides, a deitar a perder tudo o que se ganhou até agora e a por em risco dez milhões de portugueses por causa de meia duzia de pontapés numa bola que, aliás, até pode estar infetada por covides que se conservam mais de vinte semanas na borracha e só sai mergulhado em ácido sulfúrico traçado com água rás!

    Os futebóis que sejam patriotas e esperem pela vacina!

  3. Paulo Marques says:

    Tantas palavras para não dizer muita coisa. O sumo que se tira é que quer tratamento igual, e que portanto vai passar a trabalhar ao sábado? É isso?
    Fico à espera das tais provas, para juntar ali à austeridade regeneradora, ao relatório Delors, às previsões dos défices e desempregos estruturais, à curva de Phillips, às previsões de falência dos EUA e Japão, ao discurso do Blanchard em 2007 a dizer que o estado da macro era bom, das vantagens da abertura à China, da desindustrialização do país, do grande negócio da venda da EDP e CTT, da grande salvação do BES, da desregulação financeira, da união bancária, e demais evidências bem documentadas do bem que faz a direita liberal.

  4. Filipe Bastos says:

    Sendo ou não de direita, mais ou menos assanhada, grande parte do que o Sr. Carlos Osório escreveu é verdade.

    Haja quem o diga: a parolada do 25 Abril enjoa há muito tempo.

    Ainda que a lenda abrileira fosse verdade, e não mera fantasia para glorificar uma golpada corporativa de militares, enjoava na mesma. Após quase 50 anos, que raio estamos a celebrar?

    É como a bola: com ou sem covidas, passávamos bem sem futebol profissional, melhor, sem desporto profissional. Para sempre.

    E é como a esquerda tuga, a torresmo e sobretudo a caviar: o Berloque, sempre histérico e condescendente, até faz manuais para pôr a carneirada a balir à janela! Nojo.

    Mas o mais absurdo é a festarola no Paralamento. Afinal qual a queixa? Que a classe pulhítica se exclui do que impõe aos demais? Olha que novidade. Mas desde quando ir a uma cerimónia oficial, fazer número e ouvir discursos, é um privilégio?

    Com tanta regalia absurda desta canalha, a malta insurge-se contra um frete destes? Ir aturar a parolada mais chata do ano, ainda por cima borrados de medo de apanhar o covidas?

    • Jaime Neves says:

      Eu compreendo-te cachopo. As palavritas da ordem – parolada, lenda abrileira, golpada corporativa, classe pulhítica, canalha – para esconder o teu desdém e aquilo que este dia verdadeiramente significa e significou para muita gente: liberdade.

      A mesma que te permite escrever baboseiras e não teres a PIDE à porta de casa, a tua vida devassada, ou seres enviado para o Tarrafal ou para uma guerra com a qual não concordavas e que não era mais do que um estertor de um ditador moribundo e de um regime em decadência onde existiam os integrados no regime.

      Entretanto aprendias a fazer contas. A revolução foi a 25 de Abril de 1974.

      Protege-te e recupera a tabuada.

    • Filipe Bastos says:

      Duvida que me compreenda, Jaime: está morto desde 2013.

      Se há coisa que não escondo é meu desdém; exibo-o, como os parolos cravos que alguns usam na lapela, para todos verem. A diferença é que não uso o meu desdém só uma vez por ano.

      A ‘liberdade’ com que carneiros como o Jaime enchem a boca também não me impressiona: já nasci com ela, considero-a natural. Já veio foi tarde. Se o país não estivesse cheio de carneiros como o Jaime, tê-la-íamos há muito mais tempo.

      Entretanto aprendia a ler: eu escrevi «quase 50 anos». E ia tutear quem lhe fez as orelhas.

    • Paulo Marques says:

      Estamos a celebrar poderes dizer o que te apetece, nem que seja para dizer que está tudo mal e mais valia fechar a luz, sem mexer o cú do sofá. Nisso estamos bem acompanhados.

  5. vai lá vai... says:

    O Passos Coelho bem avisou, que vinha aí o Diabo.

    Não acreditaram…

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