Faz falta pensar devagar

Créditos: Susano Correia

Quantas vezes demos por nós a sentir algum tipo de ansiedade em relação ao mundo? Quantas vezes sentimos que estamos atrasados, que quem nos rodeia sabe mais do que nós, que não vamos conseguir cumprir os prazos, as resoluções, as tarefas, enfim, que andamos constantemente numa corrida contra o tempo?

Essa corrida contra o tempo é, não só um dos maiores males que nos afectam hoje em dia, mas também um paradoxo da humanidade, uma vez que esse tempo, que é uma criação humana, acaba por nos engolir. O humano a ser engolido pela sua criação. Andamos desde há algum tempo com medo da inteligência artificial e da forma como ela poderá, eventualmente, sobrepôr-se aos humanos, enquanto somos já engolidos por essa criação artificial que é o tempo.

E é neste paradigma temporal que nos aflige que o Pensar, enquanto mecanismo de sobrevivência numa era carregada de informação, sofre e fica cristalizado. Não foi assim há muito tempo que a vida parecia ser mais calma. A informação corria, sim, mas a um ritmo que parecia mais natural do que o que temos agora, com a chegada do imediatismo.

As redes sociais são apenas uma consequência (ou causa também?) desse imediatismo que magoa o Pensar. Perdemos a capacidade de pensar devagar e passamos a ser blocos de pensamento instantâneos. O Pensar deixou de ser um prato de comida bem montado e organizado para se tornar uma papa descarregada num prato frágil, uma cena tão comum no nosso imaginário humano.

Porque no fundo é dessa forma que pensamos hoje em dia. O nascimento de termos como trending fazem-nos sentir constantemente a correr atrás de um comboio que nunca pára para que o possamos apanhar. Como se o mundo fosse esse comboio mas as pessoas – nós – corrêssemos ao seu lado e mesmo dentro de si. Anda toda a gente constantemente numa correria infernal sem saber bem para onde.

E realmente não sabemos, porque vivemos presos a um presente contínuo que nunca se transforma em futuro. Como podemos pensar nesse futuro se o presente nos oferece uma mil e uma coisas para reter a nossa preocupação? Como podemos terminar o trabalho que temos em mãos se o telemóvel apita com notificações ou os nossos seguidores precisam de uma actualização, sob pena de perderem o interesse para alguém que os actualize primeiro?

Precisamos das estações de caminhos de ferro antigas. Precisamos delas porque elas tinham o conselho mais importante para os dias de hoje: parar, escutar, olhar. Deixamos de o fazer porque simplesmente corremos atrás do comboio, sem saber para onde ele se dirige. Na verdade, nem queremos saber. Só queremos apanhar esse comboio porque temos a noção ilusória de que ele está cheio e nós estamos de fora. E essa correria tolda-nos o pensamento, perdemos a noção de onde estamos, porque só corremos, corremos, corremos. E, assim, não percebemos que as janelas desse comboio são na verdade espelhos. Talvez se pararmos, o comboio pare também.

Comments

  1. JgMenos says:

    «pare, escute, olhe» eram passagens sem guarda sem probabilidade de aí encontrar um agente do Estado a regulamentar o que quer que fosse.

    • POIS! says:

      Pois…

      Exceto o funcionário salazaresco que ali pôs a passagem e o sinal.

      Por vezes deixava por lá também uma foto do Oliveira da Cerejeira e uma cruz, para que ajudassem as alminhas dos abalroados pelos comboios de mercadorias que passavam fora de horas (porque assim nunca atrasavam, ao contrário dos que tinham tabela).

      Alguns paravam, escutavam, e quando olhavam estranhavam o ambiente. Pudera, já estavam no purgatório!

      Sim, porque no céu seria difícil. O pessoal era apanhado de imprevisto. Não tinha tempo de ver os pecados perdoados.

    • Tuga says:

      Menos

      Os teus colegas da PIDE estavam por todo o lado.
      Onde não existisse um Pide, andava um Legionário ou um bufo informador

  2. Ricardo says:

    Porra, tão verdade!

  3. Paulo Marques says:

    Eu começava por “faz falta pensar”.

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