Somos liberais e não sabemos?

Segundo dados da Eurostat (gráfico em baixo), há cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão social (22,4%). Os números agravam-se quando falamos de idosos. E, se pensarmos que somos dos países mais envelhecidos da União Europeia, ainda pior se torna o cenário. Já a média da UE situa-se nos 21,7%.

As pensões não sobem por aí além, os salários são baixos e tendem a estagnar. Acresce a isto uma carga fiscal desmedida sobre a classe média e uma fraqueza/laissez faire incompreensível com quem lucra milhões com a mão de obra barata. Pagamos a nossa própria pobreza, enquanto uma minoria vai comendo a maior parte do bolo (dica: não são os ciganos do RSI ou os desempregados).

Hoje em dia, e cada vez mais, assistimos a uma distribuição deficiente do bolo económico. Há cada vez mais ricos e, por contraponto, cada vez mais pobres. E só quem for inocente achará que entre uma e outra tendência não existe correlação. Só a título de exemplo, a fortuna dos bilionários cresceu 60% desde 2020 (cerca de 5 triliões de dólares), ao mesmo tempo que aumentou a pobreza no mundo. A isto, acresce a notícia que nos diz que há mais de 50 milhões de escravos espalhados pelo mundo.

Curiosamente, a Letónia e a Lituânia, dois dos países mais usados como exemplo de “liberdade económica” pelos liberais portugueses, estão em pior situação que Portugal. A Estónia, um dos países que é, também, frequentemente usado como exemplo pelos liberais, está em linha com Portugal. Já o Luxemburgo, mais um dos exemplos usados pelos supracitados, vem logo atrás, ficando imediatamente atrás da média da UE. De referir, ainda, que dos 10 primeiros países, 3 deles têm como sistema fiscal a chamada flat tax (tributação do rendimento pessoal com uma única taxa), sendo estes a Roménia, a Bulgária e a Estónia.

Com o custo da inflação a subir cada vez mais, as migalhas que o Governo português decidiu entregar aos cidadãos não chegam para suprir todos os gastos, tendo em conta que tudo subiu menos os salários (que desceram). A teimosia em não taxar lucros excessivos, mesmo quando a neo-liberal União o aconselha e quando outros países, muitos deles, também, com governos de matrizes liberais, o decidiram fazer, acabará por fazer-nos perceber, finalmente, quem realmente tem lucrado (como de costume) com a crise (que, como tudo hoje em dia, é global).

Mas sabendo, agora, destes dados, sabendo também que vivemos sob a égide do neo-liberalismo, é caso para se perguntar: somos liberais e não sabemos? Não. Somos liberais mas mascaramo-nos.

Comments

  1. JgMenos says:

    Eu fico espantado que esta tropilha, que tanto fala em ricos, se recuse a saber o que é um rico!

    Um rico é quem não consegue consumir o seu rendimento.

    Vai daí, como não ficar mais rico em cada ano?
    Só se o roubarem, ou se houver uma desvalorização, falência de negócio ou grave crise económica.
    É claro que a cambada só sonha em como o roubar!

    • Paulo Marques says:

      Então, explica lá como devem gastar os 705€ para ficar mais rico, e não te esqueças das taxas do banco.

    • João L Maio says:

      “a cambada só sonha em como o roubar” – em como roubar *de volta!

      • JgMenos says:

        Pois, esqueci-me da receita ‘De volta’:
        Existo, logo produzo,
        Produzo e não sou patrão,
        Logo, sou explorado,
        Sou explorado, logo tenho direito a roubar,
        Se dá cadeia, voto para que roubem para mim.

    • POIS! says:

      Pois, citando…

      “Um rico é quem não consegue consumir o seu rendimento”.

      Pronto! Está tudo explicado! Um rico é um tipo que não consegue ficar pobre, nem que tente com toda a força.

      O máximo que consegue é esvaziar a tripa na casa de banho. O resto não sai e continua a acumular-se.

      daí a insomismável e douta conclusão de V. Selência: “Vai daí, como não ficar mais rico em cada ano?”.

      No entanto, há algumas doenças que podem ser fatais: a fiscalite aguda, a desvalorite de Lagarde, a falentite fulminante ou a crisiolite insidiosa.

      Não se percebe é a afirmação final:

      “É claro que a cambada só sonha em como o roubar!”.

      “Roubar”? Estava convencido que as intenções fossem outras, muito mais altruístas e, mesmo, de serviço público: as de aliviar os ricos de tamanha carga, qual tralha que não pára de acumular-se desordenadamente, podendo conduzir qualquer um a uma exaustão insuportável.

      Coitadinhos dos ricos! É tão limitativo! Nem podem ter uma vida normal, coitadinhos (*).

      (*) Lembram-se de quando a família Espírito Santo brincava aos pobrezinhos na Comporta? Até tomavam banho no tanque e tudo! Saiam de lá muito mais normais.

      Era uma espécie de SPA contra as doenças fatais dos ricos. Foi por isso que se aguentaram tanto tempo. Até o Ricardo ter sido contaminado por uma crisiolite-falite que arrastou a família toda.

      • POIS! says:

        Errata: no quarto parágrafo, deve ler-se “Daí a insofismável (…)”. E também, onde se lê “V. Selência” deve ler-se “Vó Selência”.

      • Paulo Marques says:

        Tem que acompanhar o raciocínio, o Salgado já é mau porque está ligado a Sócrates; Berardo e Rendeiro é que foram empreendedores injustiçados e roubados.

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