A quem serve o Estádio Nacional?

À beira de completar 80 anos, o Estádio Nacional, obra inspirada no estádio olímpico de Berlim, foi inaugurado com pompa e circunstância pelo Estado Novo no dia da raça 10 de Junho de 1944, servindo os propósitos do regime.

Desde 1946, salvo alguns anos que são excepção à regra, acolhe a final da Taça de Portugal, durante muitos anos recebeu jogos da selecção nacional e até a final da Taça dos Campeões Europeus em 1967.

Com o passar dos anos tornou-se obsoleto, a selecção passou a jogar em estádios de clubes, mais modernos, vai para 10 anos que nem um sequer um jogo de preparação é ali disputado pela equipa das quinas. Clubes de Lisboa ou arredores, como B’Sad ou Casa Pia utilizaram-no por diferentes razões num passado recente e ano após ano, apenas a final da Taça de Portugal se mantém por ali.

É frequente compararem a final da Taça de Portugal no Jamor à final da Taça de Inglaterra em Wembley, recorrendo à lógica que o futebol é uma festa. Nada mais falso, porque comparar o Jamor a Wembley, equivale a comparar a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras. Wembley não recebe apenas a final da Taça de Inglaterra, mas também o jogo inaugural da época, Community Shield (Supertaça), EFL Cup (Taça da Liga) e jogos da selecção nacional. A Inglaterra organizou o Euro 96, com Wembley a receber os jogos de abertura e final do torneio. Portugal organizou o Euro 2004, mas o Estádio Nacional não recebeu um único jogo. Apesar do dinheiro dos portugueses ter sido utilizado com elevados custos para os contribuintes, para construir novos estádios, propriedade de clubes ou municípios, o Estádio Nacional propositadamente ficou esquecido. Porque obscuros interesses de clubes, FPF, LPF e vários agentes que gravitam o futebol assim o determinaram.

Não estou contra a manutenção da final da Taça no Estádio Nacional, mas não aprecio a hipocrisia que reina no futebol português. Que se discuta a manutenção e estatuto do complexo e se retirem daí as consequências. Ou bem que temos um Estádio Nacional ou dele prescindimos. Lembrarmo-nos que existe uma vez por ano e esquece-lo logo de seguida é que não. Mas há quem lucre com o status quo.

 

Comments

  1. Carlos Almeida says:

    Caríssimo António Almeida

    Tem toda a razão, mas a máfia do futebol controla grande parte da vida e da cabeça das pessoas, que não pensam ou não querem pensar no assunto.
    Esse é apenas mais um ponto.
    Mas enquanto forem apenas sempre os mesmos 2 ou 3 clubes ou sociedades anónimas a ganhar todos os anos os campeonatos nacionais e os altos dirigentes desportivos desconhecerem completamente um dos maior crimes por envolver crianças / adolescentes em formação, nada é de admirar.

    • António de Almeida says:

      Os campeonatos serem ganhos por 2 ou 3 dou de barato, na Alemanha ganha quase sempre o mesmo. Mas comparar com Wembley quando dá jeito, esquecendo tudo o resto, é uma monumental hipocrisia. E lembro quando nós venderam o Euro 2004 como desígnio nacional, todos os estádios iriam ter vida própria, mesmo nos fins de semana sem jogos. É que nem os estádios dos clubes grandes o conseguiram, imagine-se os restantes. O estádio nacional, o que pertence ao país, goste-se ou não, ainda não foi vendido, ficou para trás, enquanto o governo de então, sem que a oposição de então se incomodasse ou fizesse disso um caso político, investiu em estádios terceiros, ficando o Estádio Nacional para trás. Com a agravante da UEFA exigir á época 6 a 8 estádios para organizar a prova, mas Portugal apresentar 10. Quatro anos volvidos, numa organização conjunta, Áustria e Suíça, países pobres comparando connosco, realizaram o Euro 2008 em 8 estádios.

  2. POIS! says:

    Pois…palavras para quê?

    Trata-se de um assunto de candente atualidade e relevância na vida nacional e, arrisco mesmo, já que mundial é pouco, solarial, galaxial e mesmo universal!

    Aliás, não fosse a ameaça de deslocalização eminente da Autoeuropa para as Filipinas, muito por culpa das recentes greves selvagens, e outras ainda piores, promovidas pelos sindicalistas esquerdeiros (em que os grevistas eram premiados com estadias à borla na Colónia de Férias da CGTP, algures no Meco), e seria motivo de abertura, comentários de Sérgio Sousa Pinto, debate entre Sérgio Sousa Pinto e Sérgio Sousa Pinto, e fecho.

    É incompreensível o desinteresse pelo tema manifestado pela generalidade dos partidos políticos!

    Isto, se excetuarmos a Impetuosa Liberalesca, que já pôs o Cidade Berço Pinto a tratar do problema (agora que o do selo do carro, que lhe levou mais de 20 anos de trabalho, está finalmente resolvido).

    E já há propostas: privatização do Estádio Nacional (incluindo a Mata dos Churrascos), baixa do IVA sobre as bolas, isenção de IRC para as “Startup” que desenvolvam novos apitos para os árbitros e substituição dos VAR por Inteligência Artificial 5G.

  3. Anonimo says:

    Serviu (e ainda serve) o atletismo, nacional e da AAL.
    No país do futebol de pouco ou nada vale.

    • António de Almeida says:

      Julgo que também serve o rugby. Mas deveríamos discutir a sua função.

  4. Anonimo says:

    O nome técnico é “estádio municipal de Oeiras “.

    • António de Almeida says:

      Poderia ser, mas não é. O orçamento para a manutenção do espaço não sai da CMO.

  5. Luís Lavoura says:

    Além do Estádio Nacional há atualmente também o Estádio do Algarve (que faz as vezes de Estádio Nacional de Gibraltar), o Estádio de Leiria, e o Estádio de Aveiro. Tudo estádios em semi-abandono.

    • António de Almeida says:

      Sem grande conhecimento das contas de exploração dos diferentes estádios, provavelmente o estádio do Algarve não será o mais dispendioso, bem pelo contrário. Muitas equipas fazem estágios no Algarve, incluindo torneios e jogos de preparação. Já os restantes…

      • Anonimo says:

        E podia haver perfeitamente haver estádios novos na Madeira, em Viseu… na altura todo o cacique exigia um. Como tanta estrutura por cá, ninguém pensa no que custará manter no futuro.
        Outro dado é a localização dos novos ditos: fora dos centros urbanos. Acessíveis por rodovia. Também explica o “sucesso”.

        • Luís Lavoura says:

          Bom comentário.
          Como tanta estrutura por cá, ninguém pensa no que custará manter no futuro.
          Exatamente. Em Portugal fazem-se montes de coisas só se pensando nos custos de construção e instalação, e não se pensando nos custos de manutenção.
          a localização dos novos ditos: fora dos centros urbanos. Acessíveis por rodovia.
          Pois. Um caso extremo é o estádio de Aveiro, situado ao lado de uma autoestrada mas sem acesso pedonal fácil a partir da cidade.

  6. JgMenos says:

    Só o ainda o designarem por ‘Nacional’ já arrepia a cambada anti-tudo-que-lembre Nação ou Pátria!
    E pior, é obra que lembra um tempo em que o Estado não era ocupado por uma boiada que da obra pública cuida em particular de encaminhar as revisões de planos e preços.

    • António de Almeida says:

      Não me repugnaria que o cedessem à CMO. Ou que deixasse de ser utilizado para futebol, ficando exclusivamente para o atletismo, ou também para o rugby. Chamarem-lhe Estádio Nacional, colocarem a selecção a jogar noutros palcos e esquecerem de investir neste é que me parece hipocrisia…

    • POIS! says:

      Ora pois!

      Na “Era de Menos” (1), realmente não havia nada disso.

      Veja-se: algum dia se reviram os planos e preços da autoestrada Lisboa-Porto? Nada disso!

      E tudo foi construído a tempo, exceto aquele desviozito entre Vila Franca e os Carvalhos, feito para permitir que os portugueses também pudessem desfrutar do uso da autoestrada a pé, não deixando tudo para os mamões dos automobilistas.

      (1) Também chamada de “Regime Salazaresco” ou “Estado de Novo”, este após a segunda demão, dada em 1933.

    • Paulo Marques says:

      Portanto, pagar rendas eternas à boiada por qualquer coisa que se chame pelo nome certo é bom.
      Bom, lá teremos que mudar a TAP para TA de obra e graça de António Salazar…

    • POIS! says:

      Pois citando Menos…

      “Só o ainda o designarem por ‘Nacional’ já arrepia(…))”.

      O que é perfeitamente incompreensível!

      A quem repugna o esparguete, ainda por cima de boa qualidade? Francamente!

  7. Douriense says:

    Os batas brancas e os batas pretas acham que são intocáveis

    https://sicnoticias.pt/pais/2023-06-19-Advogados-criticam-Governo-Alteracoes-nao-sao-contra-as-Ordens-mas-sim-contra-a-populacao-b578b80f

    Afinal de conta, eles é que são os Srs Doutores, os outros são uns licenciados, uns engenheiros, uns farmaceuticos e outra gentinha sem importância

    Primeiro foram os da mula ruça, agora estes

    Como a gente vos topa ……

    • Paulo Marques says:

      O problema é que são mesmo. Os chefes, isto é, de boas famílias e melhores contactos, o resto vai para a precarização como o resto.

  8. maria mourato monteiro says:

    bem …. serviu, em 2003, para a realização do “Terço Vivo” Estavam lá todos. Crianças e ….
    santospadres