Stop aos trans: os grisalhos estão subitamente interessados

Ouvi dizer que há pessoas preocupadas porque o Miguel Sousa Tavares disse não-sei-quê sobre não-sei-quem que é transexual e que venceu não-sei-qual prémio de beleza.

Dizia o Miguel que não-sei-quem que é trans não merecia ter vencido não-sei-qual prémio de beleza porque aquele prémio estava a premiar um não-sei-quê de operações e não um não-sei-quê com mamas e vulva. É uma opinião. E para mim não levanta qualquer celeuma. O Miguel, um espanto de homem, do alto da sua beleza arrebatadora, carão de escroto suado, não gosta de operações plásticas. Pronto. Qual é o mal? E não casaria com não-sei-quem que é trans por essa razão, porque não gosta de operações. E qual é o mal? Não casaria com não-sei-quem que é trans, como de certeza não casaria com Megan Fox, Cindy Crawford ou Nichole Kidman. Pela mesma razão, obviamente. O Miguel é um gajo coerente, quero acreditar.

Não é a opinião do Miguel que me causa estranheza. Com a opinião do filho de Sophia de Mello Breyner posso eu bem. O que me causou realmente estranheza foi aferir o ódio, a raiva e repulsa com que alguns, maioritariamente homens 50+, se manifestaram tão a favor da opinião do Miguel, quando o Miguel foi mais brincalhão, jocoso e, digamos, pacóvio, do que propriamente odioso e raivoso. Afinal, o Miguel foi casado com a Teresa Caeiro que, sabemos, não sendo um poço de beleza, não fez, certamente, nenhuma operação. Nem sequer para retirar um quisto! Pelo que, dito isto, sabe o Miguel do que fala. Mas saberão do que falam os odiosos e raivosos idosos que, desde que o Miguel expressou a sua opinião sobre cirurgias estéticas, tão solenemente se apresentaram como a guarda pretoriana da opinião do Miguel? Sabem, pois.

Esses, os grisalhos supracitados, sabem que os seus bons anos já passaram faz tempo. E não estão de bem com isso. Nem com isso, nem com o progresso, seja ele qual for. E não estão de bem com isso porque, sabendo que uma das únicas pulsões sexuais que lhes restam – para lá da acessível pornografia – é o olhar e apreciar, têm medo de, com isto, virem a olhar para uma mulher trans, sem saberem que esta é trans, e acharem-na bonita. No fundo, nada mais têm do que medo de virem a achar deslumbrante uma cirurgia estética. E eu percebo. Há 30/40/50 anos, não se falava destas coisas. Mulheres a viajar sem autorização do marido? Nada disso. Mulheres a votar? Nada disso. Mulheres que nasceram em corpo de homem e querem mudar? Muito menos. Como tal, é natural que os 50+, especialmente os mais conservadores, se vejam castrados na sua liberdade de apreciar, depois de já terem visto ser-lhes castrada a pujança de outrora. Resumindo, não aceitam nem uma coisa, nem a outra.

Empatizo com estes homens. Empatizo porque sei que são conservadores e, por tal, agarrados ao passado. Não os censuro nem condeno. Percebo o sítio onde se encontram, quer seja fisicamente, quer seja politicamente. Por isso, empatizo com eles.

Em suma, quem não for trans, ponha o dedo no ar. E no entretanto sejam livres para expurgar os medos que os cabelos brancos vos trazem.

Imagem: Facebook @alexandremartins

Comments

  1. JgMenos says:

    A parvoeira progressista sempre se assanha com quem não vá nas suas extraordinárias inovações conceptuais, que são o seguro caminho de um qualquer saloio, ignorante e inculto se sentir e proclamar um rematado intelectual.
    Que isto do que ‘se sente’ é que é determinante.
    Se o são ou se as suas acções o confirmam é o acessório!
    Conhecíamos o conceito de pato-bravo para reconhecer o rápido ascendente financeiro, temos o corretês para impor o rápido ascendente intelectual.
    Quando for reconhecido a um robô ‘que se sinta’ mulher ou homem e que às provetas seja cometida a reprodução… lá se vai a violência doméstica.

    • João L. Maio says:

      Pronto, mais um que já mija para os pés e tem inveja.

      • Carlos Almeida says:

        Nunca me passou pela cabeça respaldar um Salazarento, mas como a tua resposta baixou de nível, cabe-me a mim perguntar-te se mijas sentado

        • João L. Maio says:

          Sim, por vezes. É que ainda vivo com a minha mãe e como é ela que por norma limpa, faço de tudo para lhe facilitar o trabalho.

          E você, facilita o trabalho à sua mãe e/ou esposa?

        • João L. Maio says:

          Já agora, eu não disse que o Menos mija de pé. Mija PARA OS PÉS. O que é diferente. Mijando para os pés, com a idade dele, mais valia mijar mesmo sentado.

          Mas pronto, feri um de direita e um de esquerda. Haja pontos que nos liguem! Mesmo que esses pontos sejam mijar os sapatos.

    • E qual é uma acção que confirme o género?

  2. Anonimo says:

    E mulheres, nenhuma mostrou ódio e rancor?

    O que vale é que daqui a uns anos será outro Maio a cascar nos 50+, nos quais se inclui o Maio actual. Mas não posso gozar, estou quase a chegar ao grupo de ódio. Pode ser que uns campos de reeducação ainda me coloquem no Caminho.

    • João L. Maio says:

      Também as há. É da secura.

      Casquem em mim quando tiver 50+ na boa. Espero ser tão velho como a generalidade dos velhos 50+ de hoje. É para cumprir a tradição.

      Nada contra os 50+. Também tenho pais. Só que esses, por norma, estão-se mais a marimbar para se és homem ou mulher, trans ou cis, se fores boa pessoa os meus 50+ dão-te um abraço.

    • Há tanto homem de 50+ que não está a ser gozado… e tanto 50- que está.

  3. marsupilami says:

    Impressiona ver as pessoas darem mais importância ao aspecto visual do que àquilo que há para aprender sobre o mundo: artes, ciência ou desporto. Nascer homem ou mulher era, ou deveria ser, secundário e basicamente indiferente. É-se o que se é, segue em frente. Agora, suponhamos que uma fulana ou um fulano nascem com o “sexo/género trocados” e que isso é algo que incomoda muito. O meu conselho é: “resolvam o problema” o mais depressa possível e nunca mais voltem a pensar no assunto. Para poderem dedicar-se a actividades que vos apaixonem. Sonhem alto. Deixem de lado as trivialidades que a vida é curta. Este é um pensamento de um velhadas que, como tantos outros, já viu muito.

    • Certamente, mas era bom que isso fosse simples, interna ou externamente, que raramente é. É quase como se a binariedade fosse arbitrária!

      • marsupilami says:

        É, sobretudo, que o mundo que nos rodeia é mais interessante do que nós próprios. Mais do que isso é difícil dizer pois cada qual tem as suas razões (Jean Renoir já o sabia há quase um século, “La règle du jeu”) e isso, manifestamente, de pouco nos serve.

  4. Num mundo em que a ordem que impuseram colapsa por mérito próprio, resta subhumanizar uns quaisquer outros. Onde é que já vi isto?

  5. José says:

    Não percebi aquela do “quisto da Teresa Caeiro”…

  6. 50++++++ says:

    “Mulheres a viajar sem autorização do marido? Nada disso. Mulheres a votar? Nada disso? Mulheres que nasceram em corpo de homem e querem mudar? Muito menos. ”

    “Mulheres a viajar sem autorização do marido? Nada disso. Mulheres a votar?

    Mulheres que nasceram em corpo de homem e querem mudar? Muito menos. ”

    Misturar alhos com bugalhos

    A habitual desonestidade intelectual da geração cocó, porque a merda ainda serve para fazer estrume na agricultura

    • João L. Maio says:

      Sem querer parecer mau, se a minha é a geração cocó, a geração 50+ que não deixa esta bela herança é o quê? A geração diarreia?

      Então, ser cocó já não é mau, endurecemos em relação à sua geração!

      • 50+++++++ says:

        Repito, podes ter percebido mal

        “Mulheres a viajar sem autorização do marido? Nada disso. Mulheres a votar?

        Mulheres que nasceram em corpo de homem e querem mudar? Muito menos. ”

        Misturar alhos com bugalhos

        Diarreia sim, mas não mental como a vossa, onde misturam coisas importantes com aberrações da moda

        Isso chama-se desonestidade intelectual, se sabes o que isso é. Se não sabes pergunta a algum adulto

        • João L. Maio says:

          Sim, claro. Todos sabemos que há liberdades individuais mais liberdades e mais individuais do que outras. Por isso, quando não gostamos de alguma dessas liberdades, chamamo-lhes “alhos e bugalhos” e menosprezamos o mensageiro.

          A sua diarreia não será mental, mas será certamente crónica.

          • 50+++++ says:

            Fala com um adulto sobre o assunto e volta depois à conversa.

    • Se não é, é dos fascistas barulhentos a quem se aliaram.

  7. Albano says:

    João L. Maio , sou 1 grisalho recente e gostava de esclarece-lo sobre o q eu fiquei súbitamente interessado, para evitar confusões, misturas e diluições gratuitas.
    Concordo em absoluto c/ o MST , e pelo q tenho lido,os comments da vox populi em inúmeras notícias/publicações, sou apenas + 1 da esmagadora maioria q apoia o MST e JAC.
    Sobre as insinuações veladas, soezes e rasteiras ,no q à sexualidade dos grisalhos diz respeito , c/ pornografia à mistura , foi de uma elegância e cultura digna de 1 Talibã !
    Pelos outros não posso óbviamente falar , porém , pessoalmente como 100% hetero grisalho , tmb não casava c/ o miss Portugal.
    Mas veja , João L. Maio , pa si até lhe é favorável q assim seja, q os grisalhos não aceitem e não gramem esta fraude nem c/ ketchup. Sem concorrência vc tem todas as hipóteses de ser o futuro marido.
    Pela minha parte, é tdo seu e felicidades pró casal !!

  8. JgMenos says:

    Enfim, tivemos o Malo em todo o seu esplendor chunga!
    Já se adivinhava…

    • Não, também não te querem, podes voltar à caverna.

      • Salgueiros says:

        Por falar em caverna.

        Podes voltar para para a toca do Dragão.

        O teu querido padrinho esta a precisar do teu apoio moral

        • Nem vou lá há uma década, nem tenho prestado grande atenção à competição da palhaçada, coisa que não deve mudar enquanto não houver um “penalty justo”.

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