Quem não for trans, ponha o dedo no ar

Numa certa ordem do dia, está a recusa de Miguel Sousa Tavares em casar com a vencedora do concurso de Miss Portugal, recusa essa secundada por José Alberto Carvalho. Não sei, aliás, se podemos falar em recusa, porque, que se saiba, nenhum dos dois foi pedido em casamento pela pessoa com quem não querem casar. No mundo tantas vezes incerto das relações amorosas ou conjugais, ter uma recusa como antecipadamente certa não deixa de ser refrescante. Deste modo, Marina Machete já sabe que não vale a pena insistir com estes dois senhores e assim não se perde tempo.

Segundo Miguel Sousa Tavares, Marina é o resultado de uma operação e não propriamente uma mulher. Devo dizer que penso muito pouco sobre essências, por ser um relativista empedernido, sempre na dúvida do que é isso de ser e de não ser. A biologia é um facto, mas isto de ser humano não é só biologia. Os órgãos sexuais existem, como existe o cérebro, como existe a sociedade, com todos os seus fechamentos e aberturas.

Somos o que somos e somos, muitas vezes, o que queremos ou pensamos ou sentimos. Nem sempre temos a certeza de quem somos, dizemos mentiras em público e verdades em privado ou vice-versa.

Para além disso, ninguém é completo, ninguém tem tudo o que deseja ter ou é o que gostaria de ser. O máximo que conseguimos são aproximações, seja qual for o tema: amor, dinheiro, profissão. Resta-nos, na vida, procurar chegar o mais perto possível. Nunca estaremos bem no nosso corpo ou na nossa alma.

Chegado aqui, cabe perguntar: quando alguém vive no corpo errado, estará mais perto de se sentir completo no corpo com que nasceu ou no corpo que escolheu? Diria que são problemas pessoais. Ou soluções pessoais.

Muito pior do que isso são aquelas pessoas que vivem num corpo e num fatinho de gente séria e, na verdade, são o contrário – alguns chegam ao governo e tudo. Talvez Miguel Sousa Tavares queira pedir uma dessas pessoas em casamento. Espero que sejam todos muito felizes.

Comments

  1. Acho estranho ainda não ter chegado cá a ideia das inspeções genitais infantis, já que copiamos tudo das duas democracias degradantes.

  2. João Santos says:

    Situação lamentável em que o José Alberto Carvalho foi levado a uma situação extremamente desagradável para a qual não teve tempo de arranjar na altura uma saída airosa. Pode-se dizer que o Miguel Sousa Tavares lhe passou uma rasteira ou lhe lançou uma armadilha, da qual ele se conseguiu safar em diferido passados uns dias. Posto isto, não obstante terem os dois um pedido de desculpa a apresentar a Marina Machete (que eu espero que tenham feito), estão ambos no seu direito, tal como a vasta maioria dos homens, parece-me, de não quererem casar com alguém que, nascendo no sexo errado, fez uma mudança de género, com a aproximação possível no sexo. Posso estar errado, obviamente, mas também me parece que eu não o faria. Isso não impede que eu concorde, a 120%, que alguém que nasceu no corpo errado tome todas as providências ao seu alcance para corrigir a situação. Já que esse “truque” sirva para passar para o campo oposto e competir em desigualdade (quer biológica, quer social) no campo do desporto ou no campo da beleza (pelo menos), tenho sérias dúvidas. O mantra dos grupos “woke”: “uma mulher trans é uma mulher, um homem trans é um homem”, ainda está para ser demonstrado. Quando muito, sabe-se apenas que “uma mulher trans é uma mulher trans, um homem trans é um homem trans”, independentemente de terem o direito de alterar o género no registo civil.

    • Anonimo says:

      Continuo sem perceber o que é isso de “ser homem”, excluindo a definição biológica.
      Andar à porrada, montar armários, arrastar coisas pesadas, ver a bola e arrotar no sofá? Ganhar o sustento da casa, não aparecer na cozinha (excepto para ir abrir uns frascos)?

      • João Santos says:

        O problema desta polémica está justamente aí. Na confusão entre o que é ser um homem e uma mulher. A resposta não é linear e as definições dependem daquilo que se está a considarar: género/sexo, social/biologia. Uma mulher trans é uma mulher (socialmente) mas não é uma mulher (biologicamente). Em conversa com o ChatGPT, que sabe muitas coisas e até parece que pensa, obtive esta resposta a uma pergunta:

        Eu: Imaginando que uma mulher trans é completamente aceite e integrada na sociedade, sendo considerada uma mulher socialmente, não achas que é prejudicial para todas as mulheres trans, e para a forma como a sociedade as aceita, começarem a forçar o conceito de serem biologicamente iguais às mulheres cis?

        Máquina: Sim, insistir que não há diferenças biológicas entre mulheres trans e mulheres cis pode ser contraproducente. A aceitação e integração plena das mulheres trans na sociedade não deveriam depender da negação de diferenças biológicas, mas sim do reconhecimento e respeito pela sua identidade de gênero. A afirmação de igualdade biológica absoluta pode gerar debates e resistências, especialmente em contextos onde as diferenças biológicas têm implicações práticas, como no esporte. A inclusão de mulheres trans na sociedade pode e deve ser feita sem necessidade de redefinir ou negar as realidades biológicas. O mais importante é que todas as pessoas, independentemente da identidade de gênero, sejam tratadas com respeito e tenham seus direitos garantidos.

        Tenho tendência a dar-lhe razão.

    • E se as organizações desportivas tiverem já estabelecido critérios aos quais têm que ter cuidado de não excluir mulheres cis fora do normal, qual é o problema?

  3. Anonimo says:

    Eu vivo no corpo errado, o Brad Pitt roubou o meu à nascença.
    Cada um tem o seu direito de mudar o corpo consoante a sua felicidade pessoal, podem ser colorações no cabelo, bandas gástricas, ou implantes variados.
    o problema é quando se aplica o gosto pessoal a um conjunto de normas sociais que essas sim, são “construções sociais”. Desporto dividido por sexo, ou quotas de emprego, obedecem a certas regras criadas pelo Homem. E essa regras são, ou deviam ser, objectivas. A questão é mesmo quando estes dois mundos chocam. Ninguém deve ficar demasiado chateado com o Zé querer ser Josefina (é lá com eles), mas quando o Zé compete com as mulheres por um lugar que devia ser ocupado por uma mulher, por imposição social, se calhar deixa de o ser.

    • Em termos sociais, também são descriminados como mulheres se “passarem”, e em termos desportivos, as regras já estão escritas e vão sendo actualizadas, tendo o cuidado de não excluir mais mulheres cis que trans.

      • Anonimo says:

        Vão sendo discriminados (descriminados acho wur não são) apenas pelos transfóbicos cis. Como aquelas cis que não as querem nos wc e balneários. Mas chegarão à igualdade total.

      • Anonimo says:

        Ou seja, é justo um alguém do sexo masculino que se identica como mulher candidatar-se a uma vaga com quota feminina, mesmo que não tenha as “desvantagens” biológicas que alguns patrões receiam, como gravidez
        Se isto realmente é fluido, e género não faz sentido, quotas de género deviam terminar.

  4. Carlos Almeida says:

    O que querem que seja aceite a fraude de um ser humano que nasceu homem com as características morfológicas que “Deus” ou a natureza lhe deu, que tenha a possibilidade de fazer uma prova de atletismo em que os outros concorrentes são mulheres nascidas fêmeas biológicas.

    Na minha opinião isso é uma fraude e os promotores dessas fraudes deveriam ter vergonha e as outras concorrentes deveriam recusar-se a concorrer nessas condições

    Isso é o equivalente a um eventual concurso de beleza de fêmeas de pavão, permitissem que um macho de pavão pudesse entrar no concurso, que evidentemente iria ganhar.

    Dirão os defensores da aberração trans. Mas isso são coisas diferente, estamos a falar de animais e os trans são pessoas.
    Esquecem-se que cães, papagaios, pavões ou seres humanos, sejam homens, mulheres ou essa coisa de trans, são igualmente animais com leis da natureza que deveriam ser respeitadas.

    Não sendo respeitadas as leis da natureza, na minha opinião estamos a falar de fraude.

    Evidentemente que estou a falar em igualdade de condições numa competição, não nos gostos mais ou menos aberrantes que cada um possa ter

    • Não sei o que são leis da natureza, mas as competições têm exames.
      E também têm o caso curioso de homens trans passaram a ganhar as competições femininas quando querem ser “pro natura”.

      • Carlos Almeida says:

        “Não sei o que são leis da natureza, ”

        Já me tinha apercebido disso antes, sim.

        • Também não passo um atestado de incompetência desportiva às mulheres onde a testosterona é irrelevante, e a diferença não é biológica.

          • Nortenho says:

            ” onde a testosterona é irrelevante,”

            Mas a falta dela e´que é relevante, para um jogo serio e não para uma fraude

  5. José Ferreira says:

    Quando não sabemos o que dizer abrimos o cu e apanhamos moscas…
    Quem não sabe quem é, que é que anda cá a fazer?
    Eu também queria ser gaja para andar por aí a foder a torto e a direito tipos como tu!

    • António Fernando Nabais says:

      Ó José, seu sedutor! Com tanto elogio, até corei, querido. Ou querida, já não sei.

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  1. […] suma, quem não for trans, ponha o dedo no ar. E no entretanto sejam livres para expurgar os medos que os cabelos brancos vos […]

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