Stop aos trans: os grisalhos estão subitamente interessados

Ouvi dizer que há pessoas preocupadas porque o Miguel Sousa Tavares disse não-sei-quê sobre não-sei-quem que é transexual e que venceu não-sei-qual prémio de beleza.

Dizia o Miguel que não-sei-quem que é trans não merecia ter vencido não-sei-qual prémio de beleza porque aquele prémio estava a premiar um não-sei-quê de operações e não um não-sei-quê com mamas e vulva. É uma opinião. E para mim não levanta qualquer celeuma. O Miguel, um espanto de homem, do alto da sua beleza arrebatadora, carão de escroto suado, não gosta de operações plásticas. Pronto. Qual é o mal? E não casaria com não-sei-quem que é trans por essa razão, porque não gosta de operações. E qual é o mal? Não casaria com não-sei-quem que é trans, como de certeza não casaria com Megan Fox, Cindy Crawford ou Nichole Kidman. Pela mesma razão, obviamente. O Miguel é um gajo coerente, quero acreditar.

Não é a opinião do Miguel que me causa estranheza. Com a opinião do filho de Sophia de Mello Breyner posso eu bem. O que me causou realmente estranheza foi aferir o ódio, a raiva e repulsa com que alguns, maioritariamente homens 50+, se manifestaram tão a favor da opinião do Miguel, quando o Miguel foi mais brincalhão, jocoso e, digamos, pacóvio, do que propriamente odioso e raivoso. Afinal, o Miguel foi casado com a Teresa Caeiro que, sabemos, não sendo um poço de beleza, não fez, certamente, nenhuma operação. Nem sequer para retirar um quisto! Pelo que, dito isto, sabe o Miguel do que fala. Mas saberão do que falam os odiosos e raivosos idosos que, desde que o Miguel expressou a sua opinião sobre cirurgias estéticas, tão solenemente se apresentaram como a guarda pretoriana da opinião do Miguel? Sabem, pois. [Read more…]

Estratégias de reprodução: direito canónico e casamento numa aldeia portuguesa (1862-1983)

casamento aldeia portuguesa

  1. Introdução

         Nas pesquisas que tenho realizado até ao presente com o objectivo de reconstruir as relações sociais nas sociedades europeias, cometi o erro, em primeiro lugar, de me apoiar demasiadamente na observação de terreno, e em segundo, de apenas correlacionar essas relações com a história económica e com os costumes locais de casamento e herança. Quando estudei a organização do casamento entre os camponeses chilenos, entre os quais se aplicam as ideias acerca do direito e da ordem, não entendi que o casamento sem a presença do padre, entre eles praticado, era tolerado pela Igreja e pelo Direito Canónico. Alguns anos mais tarde, pesquisando em Vilatuxe , na Galiza, pude isolar diferentes práticas de casamento, em função de diferentes tipos de herança, e notei que, em certas condições históricas, um sistema que supostamente favorece o filho mais velho, de facto autoriza a transmissão de terras e bens ao mais capaz dos descendentes. Não me havia apercebido de que a contradição entre o que se diz e o que se faz se inscreve numa continuidade histórica lógica, que a totalidade coexiste no saber das pessoas e que os camponeses retiram desse saber o que lhes é necessário em função das circunstâncias.

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