O que a “bolha” não quer que se saiba

Eu sou um consumidor dos canais de informação da cabo (sobretudo SICN e CNN) e sei que pertenço a uma minoria, cerca de 2% é o valor normal de share para qualquer um destes canais. Para se ter uma ideia dos números, o programa do RAP (“Isto é gozar com quem trabalha”) consegue ter qualquer coisa como 1,2 milhões de espectadores (um share na ordem dos 23%) e um bom jogo de futebol facilmente ultrapassa os 1,9 milhões de espectadores (um share de quase 40%) enquanto um noticiário das 20h ronda os 800 a 900 mil espectadores.

Significa isto, de forma sucinta, que a audiência média de uma SICN ou de uma CNN ronda as 50 mil almas, mais coisa menos coisa. Ora, estes números, contrariam uma certa realidade que nos procuram “vender”. O da putativa influência destes canais na formação da opinião pública. Confundindo opinião pública com opinião publicada. Durante muitos anos, por questões profissionais, lidei diariamente com esta realidade: a bolha política. Felizmente, já não toureio mas não deixo de continuar aficionado. E o que é a “bolha” política?

Os políticos e os jornalistas tendem, por força da sua envolvente diária, a confundir a sua realidade com a da maioria dos mortais. E ontem tivemos um bom exemplo. Os diferentes canais de informação da cabo estiveram horas infinitas a cobrir as eleições internas do Partido Socialista. O que é natural dada a natureza dos respectivos órgãos de comunicação social. E eu, que pertenço aos 2% que ainda acompanham estas coisas, idem. E fui saltando entre elas. De repente, um(a) comentador(a) diz o seguinte: “Pedro Nuno Santos esqueceu que o país o estava a ver”. O país? Que país? A coisa foi dita já passava da meia noite e de um sábado, talvez com um pouco de sorte estava eu e mais 49 mil almas (não acredito que a audiência naquela momento fosse, sequer, superior a 25/30 mil almas). Dos 10 milhões de portugueses talvez meio porcento, a correr muito bem, estivessem a ver o respectivo canal. Só que para o comentador(a) esse meio porcento é o seu mundo e sendo-o confunde a ínfima parte com o todo. Não é por mal, atenção. É um misto de ignorância e altivez. É a tal “bolha”. Porque os comentadores, os políticos assim como os jornalistas da área, circulam nesse circuito fechado e todos (ou a grande maioria) dos que estão  à sua volta falam do mesmo, vivem no mesmo, respiram do mesmo e quando assim é, mesmo sem saberem, vivem numa realidade que é a real para eles mas virtual para os outros – o problema é que os outros não são 2% mas 98%. Esse é o drama. Deles? Sim mas igualmente dos outros 98%. É o drama destes últimos na medida em que com o passar do tempo passam de não compreender o porquê dos políticos não “falarem” a sua língua para o se revoltarem contra estes. E é um drama para os primeiros porque por causa da bolha não percebem, entre outras coisas, como António Costa conseguiu uma maioria absoluta ou, no passado, Cavaco Silva mesmo detestado pela bolha venceu com maioria absoluta duas legislativas. Significa isto que a “bolha”, na realidade, não tem influência? É aqui que a coisa se torna mais séria.

Existe um campo onde a influência da bolha é enorme: nos seus, ou seja, nos que estão dentro da bolha e estando os políticos no seu interior (e como actores principais) a coisa torna-se demasiado séria. Porque de repente eles, que circulam nos mesmos corredores e habitam os mesmos espaços, confundem as realidades e tomam como predominante a dos 2%. No caso de ontem, estou em crer que até o novo Secretário Geral do PS quando receber o “clipping” da CISION com a cobertura ao seu discurso dos canais de informação vai ficar a pensar que o país o estava a ouvir. Não estava. Estavam 49.999 almas e eu, a correr muito bem. A esmagadora maioria das almas que estavam a ver televisão naquele momento dividiam-se entre o programa da bola da CMTV e os de entretenimento dos outros canais. E porque raio o senhor José e a dona Maria não “dão para esse campeonato”? Porque os seus interesses e as suas preocupações são diametralmente opostas aos do Miguel e da Catarina da bolha. A dona Maria quer lá saber se o António Costa deu os parabéns ao Pedro ou se este se quer amigar com a Mariana. O que a dona Maria quer saber é se a pensão da sua mãe vai aumentar, se o filho vai conseguir um salário que evite pirar-se para França e se na segunda-feira vai ter a consulta no centro de saúde. E o senhor José, por sua vez, junta mais duas ou três preocupações às da sua Maria que nada, mas absolutamente nada coincidem com as “preocupações” plasmadas nas perguntas dos jornalistas ou nas “opiniões” dos múltiplos comentadores. São mundos e realidades completamente diferentes.

É esta bolha que está a matar o jornalismo político em Portugal. Esta falta de noção da realidade. E como “o asno coça o asno” já nem se apercebem. Pior, quando alguma alma mais afoita ou independente vai aos estúdios dizer que “o Rei vai nu” perde o pio para todo o sempre. A bolha não quer que se saiba. A bem da sua sobrevivência.

Comments

  1. Jaime Neves says:


    https://polldaddy.com/js/rating/rating.jsMas foi essa bolha que o amigo cavalgou com o Dr. Passos Coelho. Aliás, alimentou-a e alguns até se arregimentaram como ministros e depois foram para outros cargos internacionais. Tudo pelo mérito, para que não haja dúvidas!

  2. Anonimo says:

    A bolha do comentarismo é tão real como a das Redes Sociais

  3. Um resumo: as elites na História
    1
    Rei, Clero, Nobreza
    O clero e a nobreza eram grupos sociais privilegiados, porque ocupavam importantes cargos na administração do reino, recebiam terras e não pagavam impostos.
    2
    Burguesia e os outros….
    Costuma entender-se por burguesia uma camada social da Era Moderna, que abrangia tanto banqueiros e ricos comerciantes quanto pequenos comerciantes e jornalistas.
    3
    Academia e os outros……..
    A academia designa, no Ocidente, várias instituições vocacionadas para o ensino, a cultura e a ciência, nomeadamente as artísticas, literárias, científicas e físicas, filosóficas etc.

    Quem quiser elitizar que se mexa…. Poderá também em alternativa, etilizar com o mesmo objetivo……..

    https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/16259.pdf

    • Eu gosto muito do conceito de elite que não tem poder económico, nem judicial, nem policial, nem militar, nem de coisa nenhuma. Muito sui generis.

      • Pimba! says:

        Faz-me lembrar um desses xeganos da vida, a vociferar contra “as elites que tudo controlam na sombra”, o jornalista perguntou “quais elites?”, ao que o grunho responde “os media populares”!!!
        Exacto, “elite=mainstream”!!!
        É mais um daqueles conceitos pós-modernos, onde os oxímoros säo válidos. Tipo “os anti-fascistas säo os verdadeiros fascistas” e imbecilidades similares.

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading