Em 2019, aquando da candidatura de André Ventura às presidenciais, do nada surgiram centenas de páginas facebook oficiais e não oficiais do CHEGA. Enquanto as páginas oficiais revelavam uma baixíssima atividade, comparável aos restantes partidos pequenos/novos, já os sites oficiosos do CHEGA pareciam inundados de apoiantes e imensamente profícuos em comentários. Como foi denunciado na altura em reportagem jornalística, o CHEGA teria criado cerca de 20 mil perfis falsos. E era nestas páginas oficiosas do CHEGA que eles faziam o seu trabalho, e aqui sublinho a palavra trabalho, porque era evidente que havia perfis que dedicaram meses de trabalho a tempo inteiro à criação de páginas, de conteúdos, de perfis falsos e à escrita de comentários das 8h às 24h. Um desses perfis, era esta Sophia Vilaverde ou “Vani para os amigos”. Era evidente que a Vani estava a fazer um trabalho remunerado, como é que se pode explicar que geria a página “CHEGA Portugal – Força Nacional” (encerrada entretanto pelo facebook) que produzia conteúdos da manhã à noite e tinha centenas de comentários em cada post. Quanto mais racista fosse o post mais comentários atraía. A Vani passava o dia a responder aos comentários dessa página bem como de outras páginas oficiosas do CHEGA.

Como foi paga a Vani? Quem pagou a Vani?
Esta é a grande questão. Mais do que analisar aqui os milhares de comentários de incitamento ao ódio racial, ao genocídio ou ainda aqueles em que se faziam ameaças explicitas à integridade física de minorias, de mulheres e de portugueses racializados. Quem e como pagou à Vani e às restantes dezenas de gestores de páginas oficiosas do CHEGA que se escondiam por trás de perfis falsos , quem pagou aos criadores de conteúdos e aos gestores dos tais 20 mil perfis falsos, que surgiram do nada de um dia para o outro, num partido pequeno e acabado de criar? Em que modalidade é que este trabalho foi pago a gestores que se escondiam atrás de perfis falsos? Era uma modalidade legal ou ilegal? Foram pagos em Portugal ou na diáspora portuguesa (é evidente que muitos destes perfis falsos eram emigrantes portugueses, tal como a Vani, emigrante no Reino Unido)? Há regras muito rígidas para financiar atividades partidárias: como, quanto e quem pode financiar. Parece óbvio que o CHEGA estava a financiar um trabalho de propaganda partidária nas redes sociais de uma forma certamente oficiosa, violando todas as regras. E aqui não estamos a falar dos financiadores declarados da reportagem do Miguel Carvalho no P2. Estamos a falar dos tais pagamentos sem identificação ou provavelmente outras formas ainda mais oficiosas/ilegais de financiamento.
Algo que considero altamente suspeito é a incidência no Reino Unido dos emigrantes portugueses que participaram neste trabalho de gestão de páginas e perfis falsos. Reino Unido, sublinhe-se, era na altura o país da Cambridge Analytica (que também interferia diretamente em eleições com perfis falsos, para além do trabalho que análise de eleitorados e de apropriação de dados) e país do Londongrado, onde se estavam baseados até 2022 os principais pontas-de-lança de Putin, responsáveis pelos financiamentos das extremas-direitas europeias. Tudo isto merece ser meticulosamente investigado.







De facto o caso deve levar a uma investigação muito proveitosa.
Deve consumar-se em duas únicas conclusões:
– Todo o perfil requer a associação a um cartão de cidadão ou equivalente que o torne único e verificável a nível planetário.
– É proibido o trabalho voluntário usando um perfil que não o próprio, definindo-se os meios de controlo e penalização.
Mais um observatório, uma força-tarefa e uma comissão de acompanhamento integrando a necessária acção diplomática.
Sucesso garantido!
Menos a defender um crime por condenados na justiça? Olha, nunca esperei!