Todos os dias, sem excepção, ouço o Extremamente Desagradável.
E raro é o dia que, terminadas as gargalhadas, não fico perplexo com o país em que vivo.
Um país onde charlatões declarados são tratados como autoridades em programas da manhã, onde gold diggers se apresentam como empreendedores de sucesso e onde milhares de pessoas são diariamente aldrabadas com bolas de cristal, amigos imaginários e pirâmides de autoajuda.
Se esta corja de trafulhas fosse sujeita a um décimo do escrutínio a que estão sujeitos os políticos, metade já estaria na cadeia. Ao invés disso, são credibilizados por estações de televisão, alegadamente sérias.
Vem isto a propósito de um episódio da passada semana, em que Joana Marques expôs um dos maiores delírios televisivos de que tenho memória.
Num estúdio da TVI, Cristina Ferreira, Manuel Luís Goucha e Suzana Garcia – que Rui Rio achou em tempos ser uma candidata válida para liderar a CM da Amadora – uniram-se em torno de uma ideia bizarra: a de que a detenção de José Castelo Branco foi acelerada para evitar que fosse entrevistado no programa da manhã da TVI.
Suzana Garcia chegou mesmo a defender que as autoridades deviam ter permitido que Castelo Branco fosse ao programa, esperando por ele à porta do estúdio para o deter em seguida.
Mas o mais extraordinário era o sentimento reinante naquele estúdio. Parece-me evidente que aquelas pessoas se sentem e acham acima do comum dos mortais. Sobretudo Cristina Ferreira. Recebe no seu programa charlatões que garantem possuir todo o tipo de poderes paranormais, contribuindo para credibilizar a mentira, mas defendia, à data, que as pessoas que acusavam José Castelo Branco de ter um comportamento agressivo deviam ser proibidas de falar. Por um juiz.
Isto vindo de alguém que, há vários anos, promove a venda de falsas esperanças a idosos, dando palco a aldrabões que garantem curar doenças com poderes sobrenaturais ou falar com pessoas que já morreram.
Enfim, o degredo total.
E uma excelente radiografia do país atrasado que temos.
E é também por isso que vale a pena ouvir o Extremamente Desagradável. Porque a Joana Marques desmascara, quase todos os dias, sanguessugas e aldrabões.
Faz serviço público.
E ainda nos faz rir.
Não é para todos.







Curiosamente, o pai da Joana Marques também “desmascara quase todos os dias […] aldrabões”. Sai aos seus, a rapariga. Pena pararem o “desmascaramento” ao passar a Ponte da Arrábida, mas ninguém é perfeito.
Quem é o pai da Joana Marques? Que faz ele?
O historiador João Pedro Marques.
Obrigado.
“o degredo total”
Degredo ou degradação? São coisas diferentes.
a proposito de degradação das estações de TV veja-se a porcaria dos comentários em rodapé, supostamente engraçados – mas uma nódoa na lingua portuguesa-, nos programas de futebolês da CMTV. Um nojo. E não há ali director que diga ao engraçadinho que devemos promover o saber escrever bem em vez de escrever parvoices de largo calibre. Incluindo quando incluem a palavra DEUS, o que é desde logo uma ofensa para quem tem crença religiosa.
“Só neste país” nunca é só neste país, nem pouco mais ou menos. De resto, apontar casos e casinhos tem a sua piada, mas se o objectivo é simplesmente rir dos outros vão-se continuar a reproduzir as condições que causam as formas que têm de lidar com a realidade.
Se a justiça e a comunicação sobre a justiça não fosse um caos de interesses, a ideia não sobrevivia à primeira vez que fosse expressa. Se houvesse vontade de abordar a saúde física e mental, e de forma humanista, a crendice caia a pico. Mas estamos na fase de premiar o empreendedorismo da banha da cobra, pois bem que ele se reproduz rapidamente, por muito que nos riamos.
E depois há os casos em que percebem que as mudanças são para pior e que outras coisas nunca mudam, mas descambam numa qualquer conspiração inviável invés dos incentivos à frente dos olhos.
A liberdade é para todos?? Podemos criticar e comentar, mas proibir…………
Cristina Ferreira, Manuel Luís Goucha e Suzana Garcia
Quem é essa gente ?
A coscuvilhice e seus acólitos…
A conclusão de que esse é o país (como se as Alemanhas não tivessem altas doses de vips, grunhos e vendedores de patranhas) que temos é tão tuga… isto só aqui… só que não.
Sinceramente, os Gustavos Santos e os youtubers da bitcoine são desprezíveis, mas por outro lado o diabinho no ombro esquerdo diz-me que os pategos que lhes dão o seu só têm o que merecem.
Ps: os episódios dos videntes e programas da manhã são fraquinhos, gosto mesmo é de ouvir a Ronalda a elogiar o Dubai e a gabar-se de ter trabalhado para ter aquilo que tem.
É costume dizer-se, quem não gosta, não come. O direito á liberdade, é isso mesmo.