Suzana Garcia e o buraco sem fundo onde Rui Rio enfiou o PSD

Se dúvidas restassem sobre a enrascada em que Rui Rio enfiou o seu partido, no dia em que decidiu romper o cordão sanitário nos Açores – quando nem sequer precisava de o fazer para governar, bastando-lhe ter sido suficientemente estratégico para deixar a batata quente nas mãos de Ventura, obrigando-o a escolher entre a coligação de direita e o PS – a escolha da concelhia do PSD Amadora para o combate autárquico que se avizinha, nada mais, nada menos que Suzana Garcia, é reveladora da condição de refém de Rio e do PSD face ao storytelling da extrema-direita.

Suzana Garcia não é apenas uma comentadora histriónica que apareceu em cena como artista de variedades populistas no programa de Manuel Luís Goucha, conhecido por dar palco aos mais variados entertainers da autocracia, como o neo-nazi Mário Machado ou o próprio André Ventura. É alguém que, com uma agenda política, que agora fica evidente, aposta tudo numa retórica populista e demagoga, repleta de tiradas racistas, xenófobas e extremistas, características da narrativa de ódio, divisionismo e ressentimento que encontramos na cartilha do Chega. O próprio André Ventura aproveitou a deixa para humilhar Rui Rio, uma vez mais, na rede social Twitter:

Mas não é Suzana Garcia quem fica mal na fotografia. É a concelhia de um partido democrático, que a vê como candidata elegível e alinhada com os princípios e valores do partido. Porque Suzana Garcia é livre de dizer as barbaridades que quiser, naquele estilo populista que lhe permitiu sair do anonimato, decalcado da propaganda de Trump ou Bolsonaro. Porque não é ela quem subverte os seus princípios. É a concelhia do PSD Amadora, que subverte as fundações sobre as quais o PSD diz assentar.

Em tom de brincadeira-provocação, aventei há dias, no Twitter, a possibilidade de Suzana Garcia ser uma espécie de Cavalo de Tróia no Chega, com o intuito de desestabilizar o PSD e forçar Rio a recusar a candidata, dando a Ventura a oportunidade de o acusar de submissão ao politicamente correcto, que na novilingua da extrema-direita significa, grosso modo, rejeitar a retórica troll assente no insulto, na meia-verdade e na instigação do ódio e da divisão, que caracteriza não só a comunicação do Chega, mas também as intervenções virais de Suzana Garcia. E, convenhamos, as intervenções da senhora são a cara chapada de André Ventura. E encaixam como uma luva no universo extremista do Chega. Se Rio fizer aquilo que se espera do líder de um partido fundador da democracia, que passa por chumbar o nome de Suzana Garcia, sem hesitações, pode ser que Ventura a repesque. Faria todo o sentido, mas já não livra Rui Rio de mais uma humilhação pública. E António Costa não só agradece, como assiste, embevecido, à guerra civil que vai reduzindo a direita moderada a pó.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Apostar em Suzana Garcia numa qualquer vila do interior até era capaz de dar resultado. Se as velhotas eram capazes de se sentir ameaçadas com aquela “loira desnaturada”, já os velhotes ficariam entesoados, com tão peituda figura. Já na Amadora não me parece que dê grande resultado.
    Com alguns anos de atraso, o PSD numa tentativa de desvalorização do Chega, que foi uma criação sua; uma espécie de talibanismo laranja, onde o monstro se vira contra o criador, em vez de desmascarar e tentar eliminar politicamente o partido de André Ventura, não, resolve competir no mesmo universo sociológico dele, o do racismo e xenofobia. Trumpetizando o PSD, e começando logo por baixo, nas autarquias, onde o caciquismo se encarrega de produzir eleitores servis, Rui Rio pensa ter aí a chave do sucesso eleitoral.
    A História da nossa democracia tem arrastado Portugal para uma série de eventos trágicos, não somos os únicos, mas estes têm pelo menos aberto o olho a muitos néscios e incautos que se dedicam a ver o Big Brother e outras coisas no género, onde pontificam as Suzanas Garcias, em vez de procurarem perceber as razões do seu próprio subdesenvolvimento intelectual e político.
    Após terem despachado Sócrates por indecência e má figura, os portugueses levaram com Passos Coelho e Paulo Portas, naquela enxurrada que a Troica nos preparou para quatro dolorosos anos. Cansados de tanto mau trato e de tanta culpa, là resolveram despachá-los também, ainda que a medo. Descobriram entretanto a Geringonça, mais fruto das circunstâncias políticas da época, do que um qualquer impulso redentor da esquerda. Sem um entusiasmo esfuziante, perceberam ao menos que as maiorias absolutas eram um perigo, e que estas eram um passaporte para o despotismo.
    Veio depois a pandemia, e mais uma vez diante do naufrágio, depois de anos a minimizarem e a comercializarem o SNS, redescobriram então que o Estado, esse famigerado Estado que somos todos nós, o SNS incluído, estará sempre na linha da frente para nos tentar salvar. Se não a todos, por impossibilidade extrema, o maior número de filhos.
    Mais uma vez o PSD não percebendo o tempo histórico em que vivemos, obcecado com o seu neo liberalismo capitalista e de certo modo anti social, vai de novo bater com a cabeça na parede. Ficarão de novo e mais uma vez à espera que uma nova catástrofe lhes possa daqui a alguns anos trazer de novo o poder às mãos.
    Não há aí alguém que lhes consiga fazer um desenho?

    • Filipe Bastos says:

      “Após terem despachado Sócrates … os portugueses levaram com Passos Coelho e Paulo Portas … là resolveram despachá-los também … Descobriram entretanto a Geringonça … perceberam ao menos que as maiorias absolutas eram um perigo”

      Acho graça às análises – a todas, não só as suas – que fazem os eleitores parecer um bloco consciente, que em conjunto analisa, compara e decide coisas. Uma espécie de homo economicus que usa o voto em vez de dinheiro.

      Como se este povo e esta partidocracia escolhesse algo de forma consciente; como se a metade que ainda vota fizesse outra coisa senão ir botar o botinho por hábito, capricho ou qualquer razão fútil, seja a lata ou o sorriso dum candidato, uma frase ao calhas que lhe agradou, a vaga noção de que este roubará menos que aquele, ou o mero totobola de quem aposta no vencedor.

      Como se alguém lesse o programa dos partidos; como se alguém o levasse a sério; como se a metade que não vota em nada desta bandalheira podre pudesse ser simplesmente ignorada.

      Alguns milhares calham a votar neste ou naquele, pronto, lá ‘decidiu’ o eleitorado qualquer coisa.

      Já agora, ninguém despachou a PAF: esta ficou à frente do PS. O Bosta é que usou o PCP/BE para se agarrar ao pote – sem ninguém perguntar nada aos eleitores dele ou do PCP/BE. Tudo decidido nas suas costas. Rica ‘democracia’.

      • Paulo Marques says:

        Sim, podíamos sempre ter um governo que não conseguia passar leis. Uma inovação.

      • Filipe Bastos says:

        Neste triste país – e triste mundo – uma democracia é realmente uma inovação. Quase só há ditaduras e partidocracias.

        Mas não falava das leis: falava da união PS/BE/PCP à revelia dos eleitores. Ninguém validou ou autorizou a Gerimbosta. Não foi a votos.

        Depois temos a sua representatividade – nem 30% do país votou neles. Ou seja, +70% não os queria. Qual maioria?

        • POIS! says:

          Pois estou admiradíssimo!

          “Quase só há ditaduras e partidarocracias?”. Deus seja louvado!

          Se é quase…é porque há pelo menos uma da categoria “Democracias Certificadas por Bastos”!

          Hurrrah! Hurrrrahhhh!

          Ó homem, diga lá quais são! Estamos todos em pulgas para ir visitar!

        • Paulo Marques says:

          Pronto, podíamos ter um governo que não podia governar. Prefere? Tinha mantido todos os cortes e tudo, era uma maravilha que Bruxelas deixava passar sem problemas nem ameaças ou exigências.

        • Daniel says:

          Triste é não saber o que é a democracia, mesmo havendo milhentas “geringonças” pelo mundo fora – principalmente em países mais desenvolvidos!

  2. JgMenos says:

    Os rótulos são um engano.
    O PSD sempre foi mais PPD do que a sopa ideológica que o Rio resolveu instaurar.
    Que pague por isso é o que lhe compete.

    Quanto aos esquerdalhos, que do socialismo o que os atrai é a ideia do saque, vão sacar do cadáver económico que um Estado povoado por oportunistas e imbecis vem promovendo sob um coral de treteiros divididos entre cavernícolas soviéticos e um sortido de fracturadores dando-se ares de ideólogos.
    .
    Divisão é o que se requer.
    Ódio virá se mudança não ocorrer.

    • POIS! says:

      Pois são!

      Ainda noutro dia vi por aí um que dizia “JgMenos, produto 100% humano” e vi logo que era enganoso. Olhe, acredita quem quer!

    • Paulo Marques says:

      De oportunismo sabe o Menos, nunca foge à oportunidade para querer desviar mais dinheiro para o Panamá.

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