Alguém disse “Orwell”?

Com o mundo de olhos postos no Irão, Trump e a sua quadrilha deram mais uma machadada na democracia americana e na livre iniciativa privada, trave-mestra do capitalismo do qual os EUA (ainda) são o poder-director.

Segundo Pete Hegseth, o alcoólico comentador da Fox News que Trump promoveu a ministro da guerra e líder do Pentágono, a Anthropic é uma ameaça à segurança nacional dos EUA.

Para quem não está familiarizado com a Anthropic, trata-se de uma tecnológica do sector da inteligência artificial, conhecida pelo seu LLM Claude, concorrente directo do ChapGPT da empresa OpenAI.

A Anthropic era fornecedora do Pentágono, e aceitou todos os termos impostos por esta administração, excepto dois: recusou que a sua tecnologia fosse usada para vigilância em massa dos norte-americanos ou aplicada ao desenvolvimento de armas autónomas.

Vamos parar um minuto e reflectir sobre o que isto significa: vigilância em massa não me parece levantar grandes dúvidas. É o Grande Irmão do Orwell em esteroides. Como já acontece, por exemplo, na China.

Armas autónomas são, como o próprio nome indica, armas que cumprem a sua função sem intervenção humana. O que levanta um problema, entre muitos outros: e se a AI matar um inocente?

Se isso acontecer, o governo Trump, e qualquer governo do mundo que adira a esta moda, passa a ter o melhor bode expiatório da história das nações: o algoritmo. Ninguém é responsável, ninguém se demite, tudo continua na mesma. A culpa é do algoritmo e morre solteira. E este é só um ângulo do problema. Se parares para pensar alguns minutos sobre isto, vais perceber que esta possibilidade está longe de ser a pior.

A Anthropic recusou prestar estes dois serviços. E a vingança contra o vassalo que não dobrou o joelho não se fez esperar: a empresa foi imediatamente proibida de fornecer qualquer organismo público e declarada ameaça à segurança nacional dos EUA.

Na América pós-capitalista de Donald Trump, o modelo económico é o da Rússia pós-soviética. Uma oligarquia impune e com amplos poderes, mas sempre submetida aos caprichos de Trump, que usa o cargo, o suborno e a corrupção para aumentar a sua fortuna para níveis estratosféricos: só no primeiro ano de mandato, o património do presidente aumentou de 4,3 mil milhões de dólares, no final de 2024, para 7,3 mil milhões no final de 2025. Números da revista Forbes.

Há uma certa ironia em tudo isto. MAGAs de todo o mundo, quais idiotas úteis, garantiam-nos que Trump era diferente.

Que ia impedir que uma Nova Ordem Mundial de vigilância tecnológica.
Que ia revelar integralmente os Ficheiros Epstein.
Que não era um belicista como os neocons.
Que ia baixar o preço do cabaz básico.
Que ia promover o mercado livre.
Que ia acabar com a corrupção.
Que ia ser a América primeiro.

E saiu tudo ao contrário.

Agora, o Estado é ele. E quem não se submete à sua vontade, é destruído. E como já devem ter reparado, o tempo em que os ocidentais estavam a salvo já lá vai. Boa sorte para nós!

 

Comments

  1. A América a ser a América de McCarthy, do PATRIOT Act, dos subsídios aos filmes, à imprensa, às ONGs, às tecnológicas tradicionais, e às Georgias deste mundo, mas pior porque é o homem mau, com a culpa dos regimes malvados que não se submetem como a eurolândia.

    “[E] se a AI matar um inocente” é daquelas perguntas em que a única resposta é: já mata.

  2. Whale project says:

    Agora é que acordaste para a realidade de que nem os ocidentais estão a salvo?
    Que o fascismo que não respeita nada nem ninguém e um perigo para todos nós e só para os fanáticos religiosos e todos os improperios que chamaste a Khamenei?
    Boa bela adormecida me saíste.
    Onde estavas nos anos da miseria troikana?
    A propósito, as vacinas da COVID correram te bem?
    Aquelas da Pfizer?
    E que para estas bandas correram mal. E graças por ainda andar nos mares deste mundo a mexer bem as quatro barbatanas. Sem saber se aquele veneno ainda me pode fazer mal.
    Devo confessar que tinha uma esperança,uma única quanto a Trump que para o resto já sabia que para o Irão e os muçulmanos em geral, bem como todos os que não se curvassem ante os sionistas, ia correr o pior possível.
    Que ia meter na cadeia os vacineiros que quase me mataram, destruíram um familiar meu e me fizeram perder amigos.
    Também falhou. De resto nunca desejei a sua vitória por isso. Sabia que iriam correr rios de sangue e o mundo não gira a minha volta. Nem da minha vida virada do avesso.
    Por isso também não me peçam para insultar as suas vítimas e dizer asneiras como que já foram tarde.
    Quando ele morrer de certeza que vai tarde. Alias, a mãe dele e que não devia ter nascido.
    Vai ver se o mar da choco.

    • Porque é que havia de meter na cadeia quem ele e os compinchas foram os primeiros a querer ter menos riscos de doença grave ou morte? E pelo qual sucesso se congratulou na altura?

  3. separatista-50-50 says:

    É a lógica do império made-in-USA (e é também a lógica dos seus múltiplos boy-toys):
    -> quem não se submete é alvo de extermínio.
    .
    No entanto, os persas não são os índios! Leia-se: ainda não se sabe o que é que a ‘coisa’ vai dar.

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