O padrão Musk

Ninguém votou em Elon Musk.

No entanto, il consigliere tem neste momento mais poder e exposição mediática que JD Vance. E ombreia com Trump.

Aliás, a saudação nazi – sim, foi uma saudação nazi, e foi intencional, mas já lá vamos – roubou claramente o protagonismo a Donald Trump. No dia seguinte ao mais importante da vida do outra vez presidente dos EUA, o maior comeback da história da política americana, o tema não foi Trump. Foi a actuação do Adolfo de Pretoria. E Trump, dono do mais pedante ego à face da Terra, não deve ter ficado nada contente. A Soberba é pecado mortal, mas Donald é muito cristão. Enviado por Deus.

Esta é uma das minhas esperanças: que os gigantescos egos de Trump e Musk colidam. Sem retorno. A seguir abasteço-me de pipocas e vou assistir ao combate entre nativistas e broligharcs no octógono, com Joe Rogan a comentar e Trump a tirar selfies com Dana White na fila da frente. Se tivesse que apostar, apostava nos segundos. In America, cash rules. Ou como muito oportunamente o colocaram os Wu-Tang Clan: C.R.E.A.M. Dolla dolla bill, y’all.

Adiante.

Não é preciso ter a fortuna de Elon Musk para viver rodeado por um pequeno exército de assessores, assistentes, secretários, relações-públicas, community managers, estrategas, psicólogos (e ele bem precisa deles por perto) e outros especialistas mais que agora não me ocorrem. Musk não é um tolinho com ideias doidas. Elon pode ser antissocial, mas não ficou estupidamente rico por ser um idiota qualquer. Musk calcula cada movimento. E tem uma equipa à sua volta para garantir que cada gesto conta.

Isto para vos dizer que me parece que Musk tem um plano pós-Trump.

Um plano de poder libertário levado ao extremo, focado em reduzir o estado abaixo do mínimo tolerável, destruir direitos laborais, desregular ao máximo a economia e, no limite, ilegalizar sindicatos.

Não é por acaso que Trump o colocou no DOGE.

Ou que Musk comprou o lugar com os 277 milhões de dólares que colocou na máquina de campanha.

E os quatro anos que se seguem serão o tubo de ensaio perfeito para testar os limites da população e a resistência do que restará das instituições, que já não estavam particularmente saudáveis. E Biden fez questão de lhes cuspir em cima antes de sair, com os seus vergonhosos perdões, estendendo ainda mais o tapete aos abusos do seu sucessor.

Ironicamente, Musk recebeu milhares de milhões de financiamento público da administração Biden. Em breve saberemos quanto pensa o DOGE cortar aí.

O plano de Musk tem um lado ideológico, apesar da natureza duvidosa das suas convicções, como o provam as muitas bandeiras MAGA que se encontram em profunda contradição com o seu historial: apoio a candidatos democratas (dois deles contra Trump), carros “verdes” que ameaçam o bom velho petróleo, visitas à Ilha de Epstein, família negligenciada, o desejo de abrir portas a mais imigrantes qualificados para cargos de topo em empresas americanas, enfim, não saíamos mais daqui.

Porque a ideologia, para Musk, é uma ferramenta. Isso explica porque apoiou Obama em 2008 e 2012, Hillary – surpresa! – em 2016, Joe Biden em 2020 e Trump em 2024. E mesmo em 2024, apoiou primeiro DeSantis, e só quando este caiu se virou para Trump. Elon está há mais de 15 anos a tentar comprar o acesso directo ao poder. Desta vez conseguiu. 277 milhões bem investidos. Já lucrou bem mais que isso desde a vitória de Trump.

Ainda assim, a ideologia está lá. Não porque crê necessariamente nela, mas por ser o meio mais eficaz para atingir os seus fins. E é possível identificar um padrão. Podemos optar por ignorá-lo, mas ele está lá na mesma.

Conquistada a Casa Branca, Musk decidiu interferir na política europeia. Decidiu ajudar extremistas a chegar ao poder, para depois fazer com eles o que parece estar a fazer com Trump. Musk é como aquele ratinho dos bonecos, o Brain, que quer dominar o mundo. Oxalá tenha o mesmo destino do parceiro do Pinky: falhou sempre e foi descontinuado ao fim de 4 temporadas.

Musk tem inclusive um histórico de favores a regimes de extrema-direita. Quando Erdogan mandou censurar a oposição turca, na recta final da campanha para as eleições de 2023, o “absolutista da liberdade de expressão” bateu continência ao sultão sunita e censurou a oposição secular. O mesmo aconteceu a opositores de Narendra Modi, na Índia. E nos Emirados Árabes Unidos.

O argumento?

Tinha que cumprir a lei.

Mas quando um tribunal australiano condenou o Twitter a remover vídeos de um bispo a ser esfaqueado numa igreja, Musk alegou que a justiça australiana não tinha autoridade para decidir que conteúdos os utilizadores da plataforma podem ver. O que me leva a concluir que o problema de Musk não é com a lei. É com as democracias. Lideres autoritários são infinitamente mais úteis para o atingimento dos seus objectivos.

Agora, porém, king-tech broligharc quer a Europa.

Na Alemanha, que vai a eleições daqui a um mês, e onde existe um partido conservador sólido, Musk defende que só a AfD pode salvar o país. A AfD que alberga nazis legítimos, e que é tão extremista que até Le Pen e Abascal quiseram distância e mudaram de grupo no Parlamento Europeu.

No Reino Unido, a coisa fica mais bizarra. Aparentemente, Nigel Farage, cérebro do Brexit e protótipo mais avançado e competente do populista oportunista sem espinha dorsal, não é facho que chegue para Musk. il consigliere considera o hooligan Tommy Robinson mais adequado. Farage toma chá e é demasiado polido. Facho que é facho bebe álcool e anda à porrada.

Em França, o cenário não é menos insólito. Eric Zemmour foi convidado para a inauguração de Trump e Le Pen parece só ter recebido o convite através do PfE. Foi na comitiva do nosso Ventura. Ficaram a ver ao longe.

A lista continua e isto já vai longo. A minha conclusão é esta: para Musk, partidos de extrema-direita de matriz mais popular não servem. Elon quer a malta hardcore. Quer as coisas à bruta. Portanto se ele aparece em palco, no dia em que festeja o ponto mais alto em que o seu dinheiro o colocou, e faz duas saudações nazis perfeitas, com uma convicção firme e a expressão de quem está a sentir aquilo ao máximo, não me venham com tretas. Até Nick Fuentes, o mais proeminente influencer nazi dos EUA, saudou a perfeição da saudação no seu podcast. Musk pode não ser convictamente nazi, mas usou intencionalmente uma simbologia que vai ao encontro do padrão que define a sua interferência na política europeia. Quem não quiser que não veja. Mas que se prepare para o que vem aí.

Comments

  1. Musk não é nazi, só faz retweet a teorias da conspiração nazis – dos “degenerados” sexuais, da pureza da raça, do façam filhos, do controlo do mundo pelos judeus -, apoia a corporatização da “democracia”, a destruição de sindicatos e outros direitos laborais, os golpes de estado, e agora faz a saudação nazi.
    E não é nazi porque, tal como Hitler com o acordo de Haavara, apoia a colonização da Palestina pelos sionistas.

    Não há nada de irónico ter sido criado, financiado, e levado ao colo pelos democratas liberais, a agenda não varia assim tanto. Só mudou de clube porque lhe ofereciam um alvo para atacar por os filhos o rejeitarem, e pode mais abertamente bater nos trabalhadores.

    • Faltou à lista do primeiro parágrafo o reconhecimento e apoio de quem se auto-intitula nazi, e que, de resto, apreciou a saudação.

    • Asnonimo says:

      Ninguém votou em Elon Musk

      Não? Claro que votaram. Votaram não só em Trump, mas no seu Governo / Entourage. Musk, JFK, White, e Amigos.
      Em comum têm ser “vencedores”, e os americanos adoram vencedores.
      É difícil para um Europeu, mesmo sendo direitolas eurofacho perceber aquela gente, são altamente individualistas e ciosos dos seus preciosos tax dollars. Qualquer badameco que prometa deixar de financiar a Ucrânia e tratamentos trans (porque para muitos a questão nem é cortar as pirocas, mas pagarem) tem meio caminho andado. Isso e gasolina, barata, claro.
      O Trumpet tem agora 2 desafios para gerir. Para a população geral, que os defensores e detractores jamais mudarão as suas opiniões.
      1. Vai ter de fazer coisas. Porque é isso que se espera. Mas ele bem pode assinar ordens executivas, terá de lidar com tribunais, sindicatos,, e lobbies vários, alguns dos quais com bolsos cheios
      2. Gerir os bros e os ideólogos. Imigração será o round #1. Os bros querem imigrantes, os outros não, qualquer que seja o pantone.

  2. Joana Quelhas says:

    Os antiamericanos de que presidente gostavam ? Claro…
    Percebeu bem, gostavam de Biden , gostavam de Kamala.
    Ou seja um comuna (o antiamericano perfeito por definição) quer o mal para a América , logo detesta Trump, Musk em suma tudo o que lhe cheira a liberdade e pelo contrario ama Biden e Kamala.
    Os comunas estão horrorizados pela recuperação da América como Farol da Liberdade, a Terra dos Livres. Podem chorar que o choro também é livre. A vossa sociedade controlada pelas vossas mentes iluminadas vai ter que esperar, esperemos que para sempre…
    E não, esta eleição não foi uma questão de dinheiro ( a campanha de Kamala teve muito mais dinheiro) , foi uma questão de liberdade de expressão do povo americano que reagiu à tentativa ditatorial que está a atacar a América com veemência .
    VIVA MURICA, A TERRA DOS LIVRES

    Joana Quelhas

    • POIS! says:

      Pois claro, ó Qwelllasss!

      Citando: “(…) vai ter que esperar, esperemos que para sempre…”. Colossal! Se isto não der em Nobel, é porque o comité está cheio de comunas que vomitam só de ouvir a palvra Trampa!

      It’s bread, bread, cheese, cheese, a comunada é que não entende amaricano!

      Long live Johanna Alleys, in the land of the free…of any idea!

    • Olha que não, eu estou mais contente que lá esteja esta cambada de completos idiotas em forma de ave de rapina para destruir comer o centro do império por dentro ao invés ir chacinar o resto.
      Agora, liberdade, desde que não diga coisas que chateiem, desde traduzir o hebraico de genocidas deixado pelo antecessor aos campos de detenção, é outra coisa. E as mulheres gŕavidas.

      • E espero que também goste dos mais de 4500€ que lhe competem pagar da factura que nos quer passar só em armas, com o atraso e qualidade conhecidos.

  3. POIS! says:

    Não seja injusto, ó Mendes!

    O Musk estava apenas a arejar o sovaco, ao mesmo tempo que libertava para toda a comunidade trampista um novo perfume highhighhightech especialmente desenvolvido para os astronautas que vão a Marte e que não vão poder tomar banho durante dois anos.

    O Musk começou a ficar incomodado com o intenso cheiro a suor que se sentia na fila dos milionários, grande parte dos quais tinham vindo diretamente do trabalho para a cerimónia, alguns ainda estavam de fato-macaco (atualmente designados por fato-trump, após mais uma ordem executiva) por debaixo dos “dark suits”.

  4. jose valeriano says:

    Para esta gente uma pessoa que seja Nacionalista é puramente fascista.
    A democracia que se apregoa na Europa é meramente fantasiosa.

    • Claro que não, agora por imitarem, citarem, plagiarem, aplaudirem, copiarem as acções, e retweetarem fascistas são agora fascistas, isso são só más línguas. Razão tem, não a AFD, mas a Alemanha quase toda em achar que só tem a arrepender-se de ter confiado numas dúzias, absolutamente mais nada de mau se passou.

    • Pimba! says:

      PSI, o Musk é sul-africano.
      E sim, todos os fascistas e nazis säo nacionalistas, embora nem todos os nacionalistas sejam fascistas ou nazis.
      Mas um nacionalista que defende ideias nazis, propagandeia, defende e apoia Trump, Farage, e AfD, …
      Se näo gosta de ser associado à escumalha, näo seja escumalha!

  5. luckymysteriously3d5d43bcd8 says:

    Resta-me a esperança de que, no meio de toda esta palhaçada americana existam uns quantos militares com cabeça que a seu tempo digam aos ditadorezinhos que as coisas não são assim!

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