Fernando Alexandre vai à caça

Há muitos anos que é assim: o Ministério da Educação é dirigido por liquidatários do sistema público que despejam sobre as escolas enxurradas de decisões disparatadas que têm como consequência (para não dizer como objectivo) dificultar a vida de quem está no terreno. O sistema público de educação, ainda assim, funciona graças ao trabalho dos que estão nas escolas, que funcionam muito melhor do que a tutela e funcionam apesar da tutela.

Por muitos defeitos individuais e colectivos que os funcionários das escolas (docentes ou não) tenham, a qualidade do seu trabalho é superior, são a almofada que protege as comunidades escolares da avalanche perniciosa que cai aos roldões dos gabinetes ministeriais. Todas as asneiras produzidas pela tutela têm sido ultrapassadas ou atenuadas devido à dedicação e à preocupação de centenas de milhares de malabaristas que mantêm tudo a funcionar.

Este ano, o ministério resolveu impor um novo sistema de classificação de exames. Tudo correu muito mal por manifesta falta de preparação. Como de costume, caiu tudo em cima dos malabaristas, com destaque para os directores, para os professores classificadores, para os secretariados de exames e para os funcionários das secretarias das escolas obrigados a compensar as incertezas amadoras de quem decidiu.

Fernando Alexandre e todos os que o defenderam disseram coisas indefensáveis, ainda que tenha havido pedidos de desculpa, reconhecimento de erros e elogios aos professores. Cosmética.

De repente, o mesmo Fernando Alexandre, o criador do caos, decidiu que era necessário investigar as causas do caos. Para isso, resolveu abrir um inquérito a fim de descobrir culpas entre aqueles que foram disfarçando o caos. Não há nenhuma maneira educada de qualificar esta decisão.

Sebastião Bugalho critica o ministro da Educação

Sebastião Bugalho, em boa hora porta-voz do PSD, fez declarações sobre o problema dos exames nacionais.

Como lídimo representante do povo português, recorreu à técnica da falsa insinuação das comadres, que consiste em dizer mal de alguém fingindo que se está apenas a insinuar a maledicência. Não é uma técnica ao alcance de qualquer um, porque uma falsa insinuação mal aplicada pode atingir o alvo errado ou passar ao largo do pretendido.

A falsa insinuação consubstancia-se em expressões como “certas e determinadas pessoas”, “não é como uns e outros”, “cala-te, boca” ou  “e fico-me por aqui”. Ao invés de dar o dito por não-dito, a falsa insinuação dá o não-dito por dito e o que se finge não dizer fica dito de modo muito claro.

Normalmente, o emissor da falsa insinuação assume uma atitude que mistura superioridade e desprezo. Sebastião Bugalho é um dos grandes especialistas nacionais nessa junção, como cultor da escola passista do descaimento das pontas labiais, que acrescenta à falsa insinuação uma sisudez que é o principal sinal de uma seriedade milenar. O risco ao lado, o fato e a gravata reforçam a imagem.

Não tive oportunidade de ler a notícia, mas a frase destacada é uma inspirada variação da falsa insinuação: Bugalho diz que não quer usar a palavra que efectivamente usa. É, no entanto, lamentável que o porta-voz de um partido venha acusar um ministro de sabotagem, mas percebe-se: para um processo correr tão mal, é difícil pensar noutra possibilidade.

P.S. – estava a brincar, li a notícia. Não vou dizer que Sebastião Bugalho é uma besta. Não é como certas e determinadas pessoas. Cala-te, boca!

Há lugar para os pobres nas residências? E na política pública?

Foto: Leonel de Castro/Global Imagens (arquivo)

A polémica sobre as declarações do ministro da Educação, Fernando Alexandre, teve tudo o que uma boa polémica de redes sociais tem, hoje em dia: péssima habilidade comunicacional, declarações truncadas em vídeo que se tornam virais, e indignação primária, pedindo a cabeça do ministro de imediato.

Posso falar disto com total legitimidade: vi o vídeo cortado, reagi a quente e pedi a cabeça do ministro. Depois vi e ouvi as declarações completas e percebi que o problema em questão era outro.

Vamos a factos: é falso que o ministro tenha declarado que os alunos carenciados são os responsáveis pela degradação das residências. Este foi o ponto essencial da polémica e é factualmente falso.

No entanto, há um problema subjacente às declarações que é importante salientar e dissecar.

Fernando Alexandre defende que as residências não devam ser repositórios de alunos de classes baixas porque, no seu entender, quando um serviço público é usado apenas pelas classes mais baixas, tende à degradação. Poderá ser isto porque essas classes têm menos voz e menos poder reivindicativo (como defende Daniel Oliveira) ou porque, como o usufruto desses serviços é “pelos pobres”, perde-se o incentivo da sua manutenção e boa gestão.

E é neste segundo ponto que está o grande problema. O ministro pode e deve identificar esta ideia como um problema. Não pode é demitir-se das suas responsabilidades enquanto ministro da pasta.
E tenta fazê-lo quando nos apresenta a sua solução: se as residências foram usadas por outros estratos sociais, então será possível garantir que não se degradam.

Isto cria dois problemas. Em primeiro lugar, diz-nos que, na opinião de Fernando Alexandre, o Estado, no qual ele é o representante da tutela, pode “transferir” a sua responsabilidade de gestão e manutenção da “coisa” pública, se esta for apenas usada ou dirigida para as classes mais baixas.

E em segundo lugar, perpetua o papel das classes mais baixas enquanto classe sem papel ou poder reivindicativo. Porque se a condição para a não degradação é a existência da classe média em convivência com a classe baixa, então a classe baixa torna-se figurante do seu próprio direito, empurrada para um papel subalterno.

Nada disto põe em causa o que devem ser ambições em ter um ensino superior de qualidade, com o seu acesso garantido a quem o quiser frequentar.

O Estado pode e deve aspirar a que as residências universitárias se tornem espaços de diversidade social, abertas à comunidade, talvez até em competição com o sector privado, arrefecendo um mercado que configura a maior despesa de um aluno deslocado.

Mas o problema mais urgente a resolver é outro: tendo em conta a falta de residências, a prioridade absoluta deve ser direccioná-las para os alunos mais desfavorecidos, evitando que o acesso ao ensino superior se torne dependente da classe social; e garantindo a sua manutenção e gestão cuidadas e próximas, aplicando mecanismos de responsabilização quer com os utilizadores, quer com os gestores mais directamente envolvidos (as universidades e os seus departamentos de acção social).

Só assim poderemos ter um Estado equilibrado e que garanta a redução de desigualdades de origem, permitindo que o elevador social que o ministro fala possa funcionar, evitando que se criem, pelo caminho, cidadãos de primeira e cidadãos de segunda.

 

Propinai!

O Ministro da Educação, Fernando Alexandre, em entrevista recente, anunciou a intenção de proceder ao descongelamento das propinas no próximo ano lectivo, considerando que o não pagamento de propinas não é o que garante a equidade.

E que tal ainda não foi feito porque o Governo está a “a avaliar o sistema da acção social”.

A sério?! O mesmo Governo que ainda hoje não sabe quantos são, afinal, os alunos do secundário sem aulas?!

É claro que o descongelamento das propinas dificulta o aceso ao ensino superior. E não faltam já obstáculos bastantes para alguém que quer aceder.

A começar pela quantidade de alunos deslocados, cujas famílias não têm meios financeiros para pagar balúrdios pelo alojamento, dada a especulação actual no mercado habitacional.

Passando pela inoperância do apoio social escolar e a sua desadequação em matéria de critérios de análise e de concessão. Acrescida da falta de meios para dar resposta, mas com a perene promessa de que isso vai mudar.

Continuando pelos constantes atrasos e distorções na atribuição de bolsas de estudo.

Não é à toa que este ano foi anunciado um aumento de 11,73% de abandono escolar no primeiro ano de licenciatura. A mais alta em 8 anos. [Read more…]