A melhor arma contra o populismo, o autoritarismo e a demagogia

Provedoria de Justiça pede revisão de candidaturas recusadas no programa  “Edifícios Mais Sustentáveis” - Expresso

No episódio do A Prova dos Factos que tem Mafalda Livermore como protagonista, é na reportagem que não tem nada a ver com o CH que podemos ter um vislumbre da formação do combustível que alimenta a narrativa da extrema-direita.

A investigação conta a história de várias associações de condóminos que submeteram pedidos de obras de beneficiação energética em prédios antigos, ao abrigo do PRR, e que, dada a demora da tutela em despachar os processos, muitas obras aprovadas correm o risco de não avançar devido à validade do apoio que termina a 30 de Junho.

A incompetência da tutela é revoltante. O Fundo Ambiental, que gere os 12 milhões de euros disponíveis, foi incapaz de cumprir os prazos a que estava obrigado. A investigação da RTP revela que as candidaturas submetidas até ao final de 2023 deveriam ter sido analisadas em 60 dias úteis. Algumas demoraram 540 dias. Um ano e meio.

Há também o caso dos pagamentos atrasados, e não são poucos, que colocam em causa a continuidade de obras em curso. A Prova dos Factos entrevistou gestores de alguns projectos que garantem que obras em curso há meses ainda não receberam um cêntimo do Fundo Ambiental. E empreiteiros que ameaçam deixar obras a meio se continuarem sem receber.

Incompetência total.

Mas não são só obras que se perdem. É o dinheiro que aquelas pessoas puseram do seu bolso. São horas de trabalho pós-laboral. São custos com autorizações, licenças, taxas e taxinhas. É a expectativa de uma vida um pouco mais confortável que se perde, em edifícios antigos e, em alguns casos, bastante degradados. Onde faz muito frio no Inverno e demasiado calor no Verão. É o Estado que falha. São as instituições. É o sistema. E a União Europeia também.

Nada mina a democracia como a incompetência, calculada ou não, que tende a prejudicar sempre os mesmos. É terreno fértil para a narrativa da “bandalheira” germinar. Experimenta colocar-te no lugar daquelas pessoas, muitas delas reformadas, com rendimentos pequenos e dificuldades grandes, que passaram os anos 90 a ver tratantes a sacar milhões em fundos europeus para criar empresas que duraram pouco, mas tempo suficiente para sacar um Ferrari, uma mansão, um apartamento na praia e uma reforma dourada. Quem os pode condenar por acreditar que o “sistema” só beneficia a elite e não lhes serve para nada?

As melhores armas contra o populismo, o autoritarismo e a demagogia são boas políticas públicas, pessoas competentes e geri-las e justiça social. Quando estão presentes, a democracia é mais forte e o bom senso prevalece. Não é assim tão difícil. Ou pelo menos não devia ser.

Comments

  1. POIS! says:

    E o caso não é único!

    Muita gente substituiu as caixilharias antigas por novas, eficientes, com isolamento térmico, melhorando muito a sustentabilidade de casas já com bastantes anos, com a promessa de que seriam reembolsados numa boa percentagem e o que aconteceu?

    Do primeiro programa, muitas candidaturas ainda não tiveram resposta. Dos seguintes…quais seguintes? O Matos Fernandes, com o maior dos descaramentos, disse um dia que as classes médias podiam bem adiantar o valor e receber depois.

    Pois foi! Ficaram com os recibos na mão e bem os podem colocar no WC. Nem para os impostos serviram!

    E o programa de substituição dos aparelhos a gás por elétricos arrisca-se a ser um “flop”. Os vales apenas pagam parte dos valor dos eletrodomésticos eficientes. Nenhuma ajuda é dada para as necessárias transformações das cozinhas, e canalizações, que são necessárias sejam estas recentes ou antigas, pelo que muitos desistem logo à partida.

  2. Julio santos says:

    As pessoas já deviam saber que estas “benesses” anunciadas pelos governantes, não passam disso mesmo, promessas, “e depois não se queixem” como diz o ilustre juiz do programa “Sentença” que passa diariamente num canal de televisão.

  3. Não é incompetência, o regime foi desenhado, com a autoridade de tratos internacionais, para facilitar a destruição da capacidade do estado e aumentar a vulnerabilidade a interesses económicos, interesses esses que facilmente controlam também a imprensa “livre”. Que a válvula de escape seja o fascismo é só natural.

    • Sintoma do mesmo também é o oposto, visto na Marinha Grande, onde não há burocracia nenhuma e cada um vai buscar o material doado que quiser, porque o pouco estado que sobra já está ocupado a preencher formulários para os fundos europeus.

  4. António Manuel Rodrigues Dias says:

    A culpa não e do Estado, é dos partidos que governam o Estado e se governam á custa do Estado…

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading