AMINATU HAIDAR

aminetu

Escrevo-te deste lugar onde as árvores estão doentes.

Queria a tua força para me saber invencível.

Queria as tuas mãos e a tua fome para fazer um país.

Queria um deserto para descobrir

a flor.

Diz aos teus filhos

que a tua terra está um pouco por toda a parte.

Aí. Aqui.

As tuas cidades não são cidadelas. São caminhos errantes

como todos os caminhos. E a tua pátria estrelas inseguras

como todas as estrelas.

Porto, 24 de Dezembro de 2009

Juntar forças pelo Porto

Juntar forças: abrir caminhos com a diferença da diversidade que, longe de nos prejudicar, aumenta-nos. Congregar activismos de índole diversa, experiências de vida e de combate pela cidade e pela cidadania. Gerar discussão, crítica e polémica. Encontrar plataformas de entendimento, compromissos de trabalho e avançar.
Juntar forças: para além do sectarismo ou de qualquer outro fechamento, pugnando pela qualidade da democracia local, a transparência, a prestação de contas, o fim das negociatas ou da política de biombos, em que a face visível dos assuntos nunca corresponde à dimensão oculta. Querer e desejar a democracia toda e só a democracia toda, sem concessões e sem mediocridade.
Juntar forças pelos mais desfavorecidos, pelas vítimas das várias crises, optar, saber de que lado se está, definir prioridades pelo social, não esquecer que é ao nível do local e da proximidade que acontecem as mais brutais opressões, as mais abusadoras violações dos Direitos Humanos, mas também a possibilidade de envolvimento e de emancipação.
Juntar forças: saber que, numa cidade, a reabilitação urbana, as políticas sociais de habitação, os usos do solo, os serviços públicos, a sustentabilidade e a mobilidade são um todo interdependente e em permanente tensão. Da tensão pode nascer a intervenção nova à escala certa e não necessariamente a entropia. Desenvolver as tensões e as contradições, desocultá-las, não ter medo da dinâmica.
Juntar forças: em vez do bonapartismo municipal e do culto da personalidade, a acção colectiva organizada, os movimentos, os espaços públicos.
Pelo Porto: cidade de cidades; ícone e existência; punho erguido no granito; lugar onde a liberdade se reencontra.

Poder

A Direita e o PS em coro anunciam aos sete ventos a chegada da «ingovernabilidade», com a expressiva votação que a esquerda alcançou nas Europeias, particularmente o Bloco. Esquecem-se de falar do caos que a «governabilidade» causou na vida de tantos e tantas. A Direita dos intelectuais orgânicos e do capital financeiro, tão bem representada por este Governo e até pelo Exmo. Senhor Governador do Banco de Portugal, acentua ainda mais os presságios, qual Cassandra ideologicamente manietada: «vêm aí os socialistas» (os autênticos, claro…); «imaginem o Bloco no Governo» ou até, na prosa jactante do inefável Director do Jornal de Notícias e indisfarçado «compagnon de route» do PS, o «Bloco de Esquerda só atinge orgasmos políticos na oposição».

Enganam-se. A velha táctica da chantagem e do medo é há muito conhecida pelo Bloco de Esquerda, alvo preferencial de quem teme a força da mudança. Porque o Bloco tem poder, cada vez mais poder: poder de influenciar; poder de propor e ser apoiado por vastas camadas da população; poder de desocultar, desmistificar e dizer quando o Rei vai nu; poder de mudar as estruturas mais atávicas da sociedade portuguesa. É um poder enorme que usamos com responsabilidade e competência. Sabemos que os votos se ganham a cada eleição. Que cada ciclo político é para nós um estimulante começar de novo. Aprendemos a aprender e, por isso, estamos muito melhor preparados para ser…poder.

O poder significa uma intencionalidade definida assente em recursos que permitem a concretização dessa intenção. Nenhum português ou portuguesa desconhece o que pretendemos para o país e o mundo. A clareza distingue-nos da sombra e do pântano. Por isso nos dão cada vez mais recursos: confiança, motivação, cumplicidade, aliança. Em suma: poder.