A Beleza dos Dias: o Conhecimento do Mundo

Às vezes é preciso fechar os olhos para ver o mundo. Uma frase ouvida há muitos anos que ainda vibra dentro de nós, uma rapariga vestida de branco atravessando um dia de verão, uma fruta colhida de uma árvore em frente ao mar cujo sabor inunda a boca pelo tempo fora.

Às vezes é preciso não pensar para compreender o mundo. Uma palavra dita com violência que regressa e dói com o passar dos anos, uma viagem interrompida a meio e apenas completada por dentro, um bebé enrolado numa manta e uma mãe estupefacta a dizer está morto.

Às vezes é preciso não sair de casa para conhecer o mundo. Uma vibração de luz atravessando uma cortina com um gato nas proximidades, o bater de uma janela sob o vento norte, o ranger do soalho subitamente, o medo, o medo, o medo…

Às vezes é preciso nada fazer para que o mundo nos construa. Uma praça de gente passando, um chilreio de pássaros, um frémito durante o sono, uma dor sem causa nem razão, uma injustiça repentina, uma palavra, outra palavra e outra palavra. [Read more…]

A Beleza dos Dias: a primavera

A primavera parece ter acordado de repente e o país encheu-se de sol. Com o regresso do sol as pessoas despem-se de atavios e ficam mais bonitas. Os seus sorrisos ficam mais bonitos e até os olhos sorriem mais.

Gosto da primavera, do súbito regresso das folhas, do verde jovem das plantas, da erupção de flores e insectos. Daqui a pouco voltam as andorinhas e outras aves cujo nome desconheço. Algumas cantam nas árvores perto de minha casa, há uma que me fascina mais que todas – será um rouxinol? –, eu desligo a música dentro de casa e fico quieto a ouvi-la, esperando que não venha ninguém perturbar aquele canto.

Gosto da primavera, das camisas finas, dos calções dos outros, do azul do céu, da despreocupação de alguns. Gosto dos petiscos de primavera com os amigos, de me sentar numa esplanada e ficar a ver passar pessoas, cães, bicicletas e gaivotas.

Ou então de ser visto a passar e ser chamado por um amigo sentado numa esplanada, como ontem me aconteceu.

Elogiámos a primavera, o fim de tarde, a beleza do dia e ficámos ali a falar de tudo e de nada, do seu próximo livro – trata-se de um escritor -, de caracóis, que já apetecem e começam a aparecer, da atenção das crianças – trata-se de um professor -,  de termos que nos encontrar mais vezes. [Read more…]