A Beleza dos Dias: a primavera

A primavera parece ter acordado de repente e o país encheu-se de sol. Com o regresso do sol as pessoas despem-se de atavios e ficam mais bonitas. Os seus sorrisos ficam mais bonitos e até os olhos sorriem mais.

Gosto da primavera, do súbito regresso das folhas, do verde jovem das plantas, da erupção de flores e insectos. Daqui a pouco voltam as andorinhas e outras aves cujo nome desconheço. Algumas cantam nas árvores perto de minha casa, há uma que me fascina mais que todas – será um rouxinol? –, eu desligo a música dentro de casa e fico quieto a ouvi-la, esperando que não venha ninguém perturbar aquele canto.

Gosto da primavera, das camisas finas, dos calções dos outros, do azul do céu, da despreocupação de alguns. Gosto dos petiscos de primavera com os amigos, de me sentar numa esplanada e ficar a ver passar pessoas, cães, bicicletas e gaivotas.

Ou então de ser visto a passar e ser chamado por um amigo sentado numa esplanada, como ontem me aconteceu.

Elogiámos a primavera, o fim de tarde, a beleza do dia e ficámos ali a falar de tudo e de nada, do seu próximo livro – trata-se de um escritor -, de caracóis, que já apetecem e começam a aparecer, da atenção das crianças – trata-se de um professor -,  de termos que nos encontrar mais vezes.

À nossa volta, na esplanada, as pessoas estavam todas com cara de primavera e elogiavam a primavera, o fim de tarde e a beleza do dia. Suponho que também falavam sobre tudo e sobre nada. Eis mais uma boa razão para eu gostar da primavera.

Comments


  1. Belos os dias, belas as estações, belos os pensamentos em dias ensolarados!

    Por vezes é um verdadeiro corrupio
    Quando me ponho a pensar;
    Não que eu queira, que nem sempre quero,
    Mas o pensamento desabrido,
    Qual mero vento de Inverno, repentino e arredio,
    Leva-me p’ra longe, muito p’r’álem do ser e do estar!

    Então penso um pensar viçoso, vivo, colorido,
    Com aquela qualidade fresca e renovada
    Que tem uma folha nova, na Primavera, logo depois de ter nascido!
    Inebriada vou ao sabor do vento
    Que de sopro em rajada me leva céu adentro!

    Parece então que deixo de respirar
    Tal é a pressa que o vento tem de cavalgar, endiabrado,
    Nas nuvens e nas ondas de um mar não mapeado;
    É como se fosse uma tarde de Verão este pensamento,
    Daquelas que, quentes e possantes, nos deixam lassos;
    Não há como resistir: fecho os olhos, abro-lhe os braços
    E a ele me entrego de coração!

    Mas a páginas tantas enruga-se-me o pensamento:
    Parece que fica sem vida, descolorido, inútil, amarelento,
    Tão sem sentido como uma folha no Outono
    Depois de ter caído.
    Por terra, ali fico numa inércia sem fim…

    Mas eis que então, como se fosse um alerta,
    Sopra ligeiro um vento que me desperta e me faz voar…
    E quando dou por mim, queira ou não queira,
    Lá estou eu de novo a pensar!

  2. maria celeste ramos says:

    Que belo texto ——- ou pensamento

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