Guardar coisas

De vez em quando descobre-se um idoso que vivia soterrado na sua própria casa, entre toneladas de lixo de vária ordem, tudo aquilo que foi recolhendo ao longo de décadas e depositando entre quatro paredes. A notícia é sempre recebida com um misto de fascínio e asco, os especialistas explicam que é uma doença, claro, nem podia ser outra coisa, um distúrbio designado como “síndroma de Diógenes”.

O Diógenes que dá nome ao distúrbio viveu cerca de três séculos antes de Cristo e, segundo se conta, tinha como casa um barril e como único bem uma tigela, que usava para lavar a cara. Tendo visto um dia um rapaz lavar a cara no rio colocando as mãos em posição de concha terá atirado a tigela para o lado, dizendo que já não lhe fazia falta. Tortuoso o destino que fez com que o seu nome viesse a designar a psicose dos que acumulam.

Diógenes, em quem os anarquistas quiseram ver um precursor, desprezava qualquer tipo de convenção social e terá defendido ideias tão revolucionárias quanto a igualdade entre sexos (não nos esqueçamos que a democracia grega excluía as mulheres do conceito de “cidadão”), a liberdade sexual ou a supressão das armas. A história mais famosa a seu respeito conta que, estando esparramado ao sol, veio Alexandre O Grande perguntar-lhe o que podia fazer por ele e, que, tendo-se posto numa posição em que fazia sombra a Diógenes, este lhe terá respondido que não lhe tirasse o que não lhe podia dar.

Diógenes e a síndroma homónima vieram-me à mente quando fazia uma intervenção de urgência no caos em que se estava a transformar a minha casa, e me dei conta de como são por vezes incoerentes os critérios que nos fazem guardar coisas cuja relevância é difícil de explicar. Já nem falo de objectos com evidente valor sentimental, como fotos ou cartas, mas de insignificâncias às quais se associam memórias que tememos perder. Fica o objecto como uma espécie de cópia de segurança, carregado de significados que só nós podemos ver. Lamentamos a perda do último laço tangível com algo que só na memória sobrevive… e guardamos.

E quando o bom senso e a falta de espaço nos dizem que está na hora de nos vermos livres de alguma coisa, como escolher? Uma a uma pegamos em cada memória, sorrimos ou afastamos o olhar, perdemos a coragem e voltamos a guardá-la. Acabarei os meus dias a recolher das ruas um parafuso partido, a cabeça de uma boneca, uma caixa de detergente vazia? Virão salvar-me da minha demência com os camiões de lixo preparados à porta? Ou os anos irão trazer-me o despojamento e acabarei abdicando até da tigela, atirando para o lixo tudo quanto se revelar inútil?

Que razões levarão as vítimas da síndroma de Diógenes a acumular tralhas inúteis? Será para sentir algum conforto no vazio? Será o mesmo mecanismo, ainda que a outra escala, que leva tantos a encher as casas com peças de mobiliário, fotos, estatuetas, quadros por todas as paredes, de forma a que não se encontre o vazio em lado nenhum?

Em cada arrumação obrigo-me a abdicar de algo cujo valor se tenha aligeirado e orgulho-me do meu desprendimento. Mas a gaveta dos trastes não se esvazia, e já quase não consigo fechá-la.