Mundivisão

O Ministro dos Negócios Estrangeiros – o mais aristotélico membro deste governo – escreve hoje no jornal PÚBLICO um interessante texto sobre a importância dos pormenores e das coisas “aparentemente laterais” na prossecução da política externa.

Esta intervenção pública foi, aparentemente, suscitada pela recente vitória de um artista português no festival da Eurovisão, mas o seu propósito parece ser o de chamar a nossa atenção para os diferentes planos em que se desenvolve a política externa de um país, sendo alguns deles, necessariamente, de visibilidade reduzida, outros de importância improvável na estratégia político-diplomática portuguesa. Nos tempos recentes têm sido vários os exemplos de sucesso dessa estratégia, mas é de sublinhar – e elogiar – que a Cultura, seja ela “de massas” ou de elites, se afirme como instrumento de diplomacia e, mais ainda, que o faça através de uma disrupção rigorosamente calculada, cujo propósito foi afirmar – e impor –  um paradigma novo. Houve força para isso, o que é de assinalar.

É muito interessante verificar também que, tendo sido meticulosamente preparada a campanha na Eurovisão, com toda a racionalidade positiva e cartesiana que caracteriza um projecto político desta magnitude, o objectivo final tenha sido alcançado por um “agente” improvável, muito mais próximo de Diógenes do que de Aristóteles. Ter ganho foi importante, mas muito mais importante foi ter ganho um novo paradigma, nascido da vontade de influenciar o rumo da civilização, desafio de que Portugal não pode eximir-se.

Guardar coisas

De vez em quando descobre-se um idoso que vivia soterrado na sua própria casa, entre toneladas de lixo de vária ordem, tudo aquilo que foi recolhendo ao longo de décadas e depositando entre quatro paredes. A notícia é sempre recebida com um misto de fascínio e asco, os especialistas explicam que é uma doença, claro, nem podia ser outra coisa, um distúrbio designado como “síndroma de Diógenes”.

O Diógenes que dá nome ao distúrbio viveu cerca de três séculos antes de Cristo e, segundo se conta, tinha como casa um barril e como único bem uma tigela, que usava para lavar a cara. Tendo visto um dia um rapaz lavar a cara no rio colocando as mãos em posição de concha terá atirado a tigela para o lado, dizendo que já não lhe fazia falta. Tortuoso o destino que fez com que o seu nome viesse a designar a psicose dos que acumulam.

Diógenes, em quem os anarquistas quiseram ver um precursor, desprezava qualquer tipo de convenção social e terá defendido ideias tão revolucionárias quanto a igualdade entre sexos (não nos esqueçamos que a democracia grega excluía as mulheres do conceito de “cidadão”), a liberdade sexual ou a supressão das armas. A história mais famosa a seu respeito conta que, estando esparramado ao sol, veio Alexandre O Grande perguntar-lhe o que podia fazer por ele e, que, tendo-se posto numa posição em que fazia sombra a Diógenes, este lhe terá respondido que não lhe tirasse o que não lhe podia dar.

Diógenes e a síndroma homónima vieram-me à mente quando fazia uma intervenção de urgência no caos em que se estava a transformar a minha casa, e me dei conta de como são por vezes incoerentes os critérios que nos fazem guardar coisas cuja relevância é difícil de explicar. Já nem falo de objectos com evidente valor sentimental, como fotos ou cartas, mas de insignificâncias às quais se associam memórias que tememos perder. Fica o objecto como uma espécie de cópia de segurança, carregado de significados que só nós podemos ver. Lamentamos a perda do último laço tangível com algo que só na memória sobrevive… e guardamos.

E quando o bom senso e a falta de espaço nos dizem que está na hora de nos vermos livres de alguma coisa, como escolher? Uma a uma pegamos em cada memória, sorrimos ou afastamos o olhar, perdemos a coragem e voltamos a guardá-la. Acabarei os meus dias a recolher das ruas um parafuso partido, a cabeça de uma boneca, uma caixa de detergente vazia? Virão salvar-me da minha demência com os camiões de lixo preparados à porta? Ou os anos irão trazer-me o despojamento e acabarei abdicando até da tigela, atirando para o lixo tudo quanto se revelar inútil?

Que razões levarão as vítimas da síndroma de Diógenes a acumular tralhas inúteis? Será para sentir algum conforto no vazio? Será o mesmo mecanismo, ainda que a outra escala, que leva tantos a encher as casas com peças de mobiliário, fotos, estatuetas, quadros por todas as paredes, de forma a que não se encontre o vazio em lado nenhum?

Em cada arrumação obrigo-me a abdicar de algo cujo valor se tenha aligeirado e orgulho-me do meu desprendimento. Mas a gaveta dos trastes não se esvazia, e já quase não consigo fechá-la.