Mi primo Carlitos

Charles Romuald, está-se mesmo a ver, era meu primo, e já nem perco tempo a discutir com os incrédulos. Não tive a sorte de conhecer o Charles, o Carlitos, “el Morocho”, nem sequer ninguém que o tivesse conhecido, ele pertencia a um ramo da família que partiu para a América do Sul e já não voltou de lá. Mas reconheço-lhe certos traços de família, uma proximidade genética que vai muito além da cor dos olhos ou de um sinal no rosto. Não nos restaram provas dos laços de sangue que nos unem aos Romuald, daí a impossibilidade de calar os cépticos, e bem as procurei, a essas provas que eu não sabia de que forma poderiam revestir-se, por Buenos Aires, não tanto naquela que havia sido a sua casa, mas sobretudo nos alfarrabistas, entre volumes picados pela humidade, empilhados pelo chão, enfiados em caixotes, cobertos de pó em estantes carunchosas, sabendo da improbabilidade estatística mas acreditando no poderoso feitiço do acaso. Não poderia ter estado um documento ali, à minha espera, todos esses anos? E não seria eu impelida para esse livro, sem saber ao que ia, cumprindo o inevitável, destinado encontro? [Read more…]