Mi primo Carlitos

Charles Romuald, está-se mesmo a ver, era meu primo, e já nem perco tempo a discutir com os incrédulos. Não tive a sorte de conhecer o Charles, o Carlitos, “el Morocho”, nem sequer ninguém que o tivesse conhecido, ele pertencia a um ramo da família que partiu para a América do Sul e já não voltou de lá. Mas reconheço-lhe certos traços de família, uma proximidade genética que vai muito além da cor dos olhos ou de um sinal no rosto. Não nos restaram provas dos laços de sangue que nos unem aos Romuald, daí a impossibilidade de calar os cépticos, e bem as procurei, a essas provas que eu não sabia de que forma poderiam revestir-se, por Buenos Aires, não tanto naquela que havia sido a sua casa, mas sobretudo nos alfarrabistas, entre volumes picados pela humidade, empilhados pelo chão, enfiados em caixotes, cobertos de pó em estantes carunchosas, sabendo da improbabilidade estatística mas acreditando no poderoso feitiço do acaso. Não poderia ter estado um documento ali, à minha espera, todos esses anos? E não seria eu impelida para esse livro, sem saber ao que ia, cumprindo o inevitável, destinado encontro?

Não deve haver cidade no mundo com mais livrarias do que Buenos Aires. Em cada esquina, no que talvez fosse uma garagem, uma antiga arrecadação, abre uma livraria, por vezes não mais do que um armazém de livros e caixotes, vigiados por um livreiro envelhecido e sagaz, que fixa o preço do livro pelo interesse que nele temos. Estes livreiros vigiam-nos com dissimulação enquanto cirandamos pela livraria, estão sentados com um livro no regaço, como se lhes tivessem pedido que vigiassem uma loja pela qual não têm nenhum interesse em particular, e quando os abordamos parecem incomodados com a interrupção. Mas basta que lhes perguntemos o preço de um livro para vê-los fazer cálculos, sopesar o livro nas mãos, folheá-lo, como se lhes custasse muito desprender-se dele e tivéssemos de compensá-los bem por essa separação. Se nos pedem 500 pesos pelo que não valeria mais de 100 é preciso ser firme e voltar costas. Ainda que desejemos muito esse livro, temos de saber voltar costas e mostrar desprendimento. Pode ser que o convençamos. Tudo é bluff, tudo é teatro.

Quando saem da oficina, da loja, da escola, da fábrica, os porteños detêm-se na livraria ou na librería de viejo, o alfarrabista, e por isso elas estão abertas até tarde, noite dentro, como bares. Há livrarias belas mas muitas são descuidadas, improvisadas, como se não fossem mais do que a colecção privada de que alguém tem de despedir-se e para isso habilitou  os arrumos de casa.

Não encontrei, afinal, nada sobre o primo Carlos que já não conhecesse e, além dos contos de Lugones e de um dicionário de lunfardo, vim de mãos vazias. Na verdade, esperava que assim fosse.

O tango, é sabido, não é drama a sério. Pode ser dilacerante mas requer que o ouvinte já esteja na frequência certa para sofrer, uma frequência que todos sabemos sintonizar mas nem sempre no-lo permitimos. O Carlitos não enganava ninguém, as canções eram melancólicas, até pungentes, mas havia sempre nele uma teatralidade que era, toda ela, artifício com engrenagens à vista, limpo, honestíssimo. O Carlitos era um grande actor e viveu como quem está permanentemente sobre o palco. Morreu estupidamente cedo, num acidente de avião, mas também isso foi condizente com a vida e com o mito.

Mais não me restava senão tomar um copo no Abasto, a zona do antigo mercado, em Balvanera, onde a carreira dele começara, e esquecer parentescos improváveis. Cansa muito perseguir fantasmas, espreitar de fora as janelas das casas onde ardemos de vontade de entrar e nunca poderemos fazê-lo, porque estas janelas só existiam no passado e já ninguém poderia franquear-me a entrada. No último dia, caminhava eu sem ânimo pela avenida Corrientes, a chegar ao Obelisco, quando senti alguém tocar no fecho da minha mochila. Tinham-me avisado que os carteiristas atacavam naquela zona. Virei-me para trás e deparei-me com um homem alto, de cara redonda e olhos negros. Trazia uma rosa branca, e ofereceu-ma.

– De parte de Carlitos, señorita.

Não conheço ninguém em Buenos Aires e, sendo certo que já me apontaram sósias em várias paragens, não tive dúvidas de que só podiam ser dele, Charles Romuald Gardés, el primo Carlitos. O homem acenou cortesmente com a cabeça e desapareceu na multidão de Corrientes.

Não havia bilhete, claro. Esta história não é para desconfiados, é preciso acreditar sem provas.

Comments


  1. Quem caminha sem ânimo pela Avenida Corrientes? A Avenida Corrientes é uma das avenidas porteñas mais conceituadas da Argentina. Quem visita Buenos Aires não se esquece das suas ruelas, bares, cafés e outros locais encantadores, tendo em conta que a cidade, tem perto o bairro de San Telmo, um dos bairros mais emblemáticos…onde a Mafaldita faz o deleite dos grandes e pequenos.. claro, que não terá as luzes e as lojas de compras tão afamadas de New Yorque, a cidade de predileção da maioria dos portugueses… mas não perdia de voltar a visitar essa maravilhosa cidade … gostos são gostos…

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