Mi primo Carlitos

Charles Romuald, está-se mesmo a ver, era meu primo, e já nem perco tempo a discutir com os incrédulos. Não tive a sorte de conhecer o Charles, o Carlitos, “el Morocho”, nem sequer ninguém que o tivesse conhecido, ele pertencia a um ramo da família que partiu para a América do Sul e já não voltou de lá. Mas reconheço-lhe certos traços de família, uma proximidade genética que vai muito além da cor dos olhos ou de um sinal no rosto. Não nos restaram provas dos laços de sangue que nos unem aos Romuald, daí a impossibilidade de calar os cépticos, e bem as procurei, a essas provas que eu não sabia de que forma poderiam revestir-se, por Buenos Aires, não tanto naquela que havia sido a sua casa, mas sobretudo nos alfarrabistas, entre volumes picados pela humidade, empilhados pelo chão, enfiados em caixotes, cobertos de pó em estantes carunchosas, sabendo da improbabilidade estatística mas acreditando no poderoso feitiço do acaso. Não poderia ter estado um documento ali, à minha espera, todos esses anos? E não seria eu impelida para esse livro, sem saber ao que ia, cumprindo o inevitável, destinado encontro? [Read more…]

Poesia & etc. – Gira, gira…

Às vezes não vejo os vídeos que acompanham os textos e, portanto, compreendo que, relativamente aos vídeos que coloco, haja leitores que façam o mesmo. No caso de hoje, peço o favor de escutarem esta interpretação do tango «Yira, Yira» por Carlos Gardel, pois é importante ouvi-lo para compreender o que quero dizer:

Num texto de uma outra série, contei-vos os trabalhos que passei para traduzir um livro do grande escritor argentino Ernesto Sábato, («Heróis e Túmulos»). Estudara língua e literatura castelhana, mas a cada passo surgiam vocábulos que desconhecia e que os dicionários, incluindo o da Real Academia, não registavam. Escrevi então ao Sábato dando-lhe conta da minha dificuldade e ele, muito amavelmente, enviou-me um extenso glossário com termos argentinos e, inclusivamente com modismos «porteños», ou seja, bueno-airenses.

Na letra do tango cantado pelo Gardel, existem casos desses. A começar pelo título, Yira, Yira (pronunciado de forma semelhante á do português) – em castelhano dir-se-ia «Gira, gira», pronunciando-se como fonema fricativo velar surdo – velar, por ser articulado junto do véu palatino (os portugueses quando querem falar portunhol, resolvem o problema, transformando o «g» ou o «j» em «r» – exemplo – rúlio iglésias). [Read more…]