“E o trono é do charlatão”

chopra
Charlatães e charlatonas que discutem seus assuntos, na travessa dos defuntos, instalados em poltronas. Foram logo estes versos que me ocorreram quando li hoje, na imprensa nacional, um artigo sobre o guru Deepak Chopra. A este, conheço-o dos títulos sempre muito bem posicionados nos escaparates das livrarias comerciais. Tanto quanto percebi, é um cozinhado de new age com ecos muito distantes de Katmandu, temperados com física quântica para totós. Vende extraordinariamente bem.

E assim se apresenta perante as audiências, com os seus refulgentes Dolce & Gabanna e os modos seguros de quem está habituado a enfrentar um público que quer acreditar.

E diz, entre outras teorias convenientemente indemonstráveis através do método científico,  que uma das sua pacientes, doente com cancro, se curou seguindo as suas recomendações (é certo que ela não deixou de fazer também quiomioterapia) e que “os pacientes bem-sucedidos aprenderam a motivar a sua própria cura” e ainda que “a razão pela qual nem todos conseguimos levar o processo de cura até ao seu limite tem a ver com o facto de nos mobilizarmos de formas drasticamente diferentes”. O que poderá ser lido, como o faz o repórter David Marçal, que assina a peça, “se morrer de cancro, para Chopra a culpa é sua porque não se mobiliza”. [Read more…]

Asa de morcego, pata de aranha

Conheço uma astróloga / taróloga / quiromante/ numeróloga/ aromoterapeuta/  maga holística/ reflexóloga/ conselheira espiritual, a quem eu, para simplificar, chamo a bruxa. Ao que parece, o negócio nunca lhe correu tão bem, coisa que não pode causar espanto em épocas de crise, porque é justamente da crise que vivem os videntes do futuro. As pessoas felizes não consultam os bruxos, nem lhes ocorreria desperdiçar meia hora de felicidade para saber como será um futuro que pode bem ser pior do que o presente. São sempre os infelizes, os derrotados, aqueles que não temem a previsão porque acham que as coisas não podem piorar (e nisso enganam-se, porque enquanto estivermos vivos tudo pode sempre piorar) os que querem saber como será o futuro, e que procuram o conforto de uma previsão vaga, nebulosa e alentadora.

“Vejo um homem estrangeiro”. “Pressinto a chegada de uma boa notícia”. “Vai conhecer uma mulher de cabelo negro, não fuja dela”. “A sua sorte vai mudar numa terça-feira.” [Read more…]