A máquina do tempo: Claridade – uma luz sobre o arquipélago

 

Viajar no tempo é a função desta máquina. Mas viajar no espaço, tal como navegar, também é preciso. Fiz umas viagens a Cabo Verde. Na primeira, há uns 12 anos tive uma grande surpresa. Pela positiva, diga-se. Mesmo os que, como eu, se julgam prevenidos contra os preconceitos, a eles não são completamente imunes.

Para os brasileiros em geral, como vimos pelo recente caso da Maitê Proença, os portugueses são os ridículos heróis de anedotas imbecis – padeiros, comerciantes analfabetos – gente estúpida e ignorante que comete gafes e faz disparatadas confusões. Para os portugueses em geral, os brasileiros são sambistas, jogadores de futebol, traficantes de droga, prostitutas dos bares de alterne, gente alegre, mas sem nível cultural. Sobretudo, pessoas que falam mais depressa do que pensam.

Não nos podemos, por isso, ofender em demasia com as tontices da Maitê. Os brasileiros devem ter herdado de nós o pendor para ridicularizar o que é diferente. Ou, pensando melhor, talvez essa característica seja inerente à condição humana e não pecha exclusiva das gentes da lusofonia.

Relativamente aos cabo-verdianos, sei existir em Portugal o preconceito, a ideia de que dessa comunidade imigrante provém grande parte da marginalidade que nos atormenta. Alguma daí virá, porque entre mais de cem mil pessoas nem todas podem ser santas e sabemos em que condições muitas delas vivem. Por outro lado, muitos portugueses, quando pensam em cabo-verdianos, mesmo não os associando à marginalidade, logo se lembram dos trabalhadores da construção civil, das empregadas de limpeza. E quando aterram no Aeroporto Internacional da Ilha do Sal pela primeira vez, subconscientemente pensarão: como é que será um país de trolhas, pedreiros, e mulheres-a-dias? Pois, quem ali chegar com essa ideia, sofrerá uma profunda surpresa.

 A Ilha do Sal e o Hotel Morabeza, onde estive apenas três ou quatro dias, nada me disseram – a beleza da praia foi o que mais me impressionou. Mas depois vieram Santiago, São Vicente, Boavista – a cidade da Praia e a encantadora cidade do Mindelo (uma cidade portuguesa parada no tempo). Aí começou o maravilhamento e a paixão que desde então me liga ao arquipélago. Cabo Verde é um país lindo. Os cabo-verdianos são, no geral, pessoas amáveis e educadas. Contudo, o meu interesse por Cabo Verde começara muitos anos antes em Portugal.

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No quadro de um projecto institucional de erradicação dos bairros de lata, no período pós-25 de Abril, tive ocasião de contactar núcleos de cabo-verdianos que viviam em bairros da então chamada «cintura industrial de Lisboa» – particularmente na Pedreira dos Húngaros (Algés), nas Marianas (Parede) e no Bairro do Fim do Mundo (Cascais). Fiz muitos amigos cabo-verdianos (e não só) e pude constatar, por um lado o apego que aqueles imigrantes mantinham à sua terra e, por outro, a quase total ausência de instrumentos culturais que alimentassem esse amor.

Com o escritor Manuel Ferreira, do qual fui amigo desde 1964, pois conhecemo-nos durante o II Encontro da Imprensa Cultural, realizado em Cascais, por diversas vezes comentámos essa circunstância que na altura era gritante e que hoje em dia está relativamente superada ou, pelo menos, mitigada. Com ele preparei (na qualidade de director editorial, visto que a direcção científica lhe pertencia), uma História da Literatura Africana de Expressão Portuguesa, destinada a sair na sequência de uma História da Literatura Portuguesa.

Por motivos que ignoro, a obra, que Manuel Ferreira entregou dentro do prazo estabelecido contratualmente, acabou por não ser publicada. Estávamos em 1990. No decurso deste trabalho, falámos por diversas vezes em Cabo-Verde e na sua cultura. Foi incentivado por estas trocas de impressões que visitei pela primeira vez o arquipélago e pude confirmar, não só a ideia com que ficara pelo contacto directo com os imigrantes, como também o que Manuel Ferreira me dizia sobre a singularidade das gentes cabo-verdianas e  sobre o valor ímpar da sua cultura. Entretanto, Manuel Ferreira faleceu e, passados anos, eu saí da editora.

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Pode dizer-se que antes de Eugénio Tavares (1867-1930), não existia, mesmo entre as elites do arquipélago, em Cabo Verde uma consciência explícita da identidade cultural dos cabo-verdianos. Pode também dizer-se que, com a sua luta, criou o conceito, até então inexistente, de caboverdianidade. Este foi o primeiro e importante passo. Assente esse pilar da dignidade nacional, a cultura cabo-verdiano, sobretudo a literatura, divide-se em duas épocas distintas – antes e depois da revista Claridade. Em Março de 1936 surgia o primeiro número; em Dezembro de 1960 publicou-se o último. Foram dez números o que, em 24 anos não parece muito, sobretudo se analisarmos esse facto à luz da realidade actual.

No entanto, não podemos esquecer que, em 1936, ano em que foi desencadeada a Guerra Civil de Espanha, o governo de Salazar tentava limpar o País dos derradeiros resíduos da democracia que, desde o advento do liberalismo, e com breves interregnos, se vivia em Portugal. As colónias não escapavam a essa limpeza metódica que, procurando erradicar tudo o que cheirasse a vestígios de hábitos democráticos, fazia também desaparecer nichos culturais que, à gente do regime e ao ditador, pareciam ser (e, de facto, eram) refúgios das oprimidas ideologias políticas.

Os primeiros «claridosos» foram os escritores Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes. Aos nomes dos três fundadores vieram juntar-se, entre outros, os de Félix, Monteiro, Henrique Teixeira de Sousa, Arnaldo França, Tomaz Martins, Nuno Miranda, Luís Romano, Abílio Duarte, Virgílio Avelino Pires, Onésimo Silveira, Xavier Cruz, Artur Augusto .

O conteúdo dos dez números, algo heterogéneo (ou ecléctico, se preferirmos), permite estabelecer afinidades com o movimento neo-realista que, em Portugal, velejava a todo o pano por esses tempos. Afinidades que também teve com a literatura brasileira. Em todo o caso, mantendo sempre a inclusão de textos em crioulo, poemas sobretudo, apesar de o português ser dominante, a «Claridade» conservou, ao longo da sua existência, um carácter de genuinidade autóctone.

Não pretendo com esta crónica esgotar este tema ou sequer abordá-lo com a profundidade que merece. Aliás, existem sobre o tema estudos de grande qualidade, nomeadamente os de Manuel Ferreira e os de Alfredo Margarido. Quis apenas chamar a atenção para este marco da cultura do povo irmão de Cabo Verde – a revista «Claridade», um farol de cultura de um arquipélago, onde existe agora uma literatura fecunda com nomes como os de Germano Almeida, Aguinaldo Fonseca, Yvone Ramos, Corsino Fortes, Arménio Vieira, Yolanda Morazzo, Gabriel Mariano e tantos outros.

A «Claridade» lançou uma luz intensa e duradoura sobre o arquipélago.