O tabu do tabu

Fazer uma reportagem com um ângulo definido e não procurar o outro lado é mau jornalismo. O Público este domingo, com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, estreia a “Série Especial: Racismo em português” com a reportagem “Ser em africano em Cabo Verde é um tabu”. Não porque seja mentira que Cabo Verde, na generalidade, não quer ser África. É verdade. Mas a identidade cabo-verdiana existe e está bem vincada, nas nove ilhas habitadas. A generalização de África, enquanto continente, a uma única cultura (a dita “africanidade”) é a típica visão ocidental. Mas agora os ocidentais querem quebrar o tabu. E caíram no perigo da história única, que Chimamanda Ngozi Adchie explica tão bem. Entramos, portanto, na era do tabu do tabu. [Read more…]

Não se trata de Saudade

Mas, onde é que anda o sr. Silva? Estava com alguma expectativa de o ver na reportagem sobre o BPN.

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Carmen Souza: crioulo, morna e jazz

À excepção de alguns eventos associados à minha vida pessoal e familiar em Portugal, África foi o continente onde, anos a fio, vivi as emoções mais intensas da minha vida. Umas tristes, testemunhando sofrimentos e miséria intoleráveis; outras, marcadas por momentos mágicos de espiritualidade e prazer, difíceis de descrever por palavras, mas que a pulsão dos sentidos torna arrebatadores.

Com ‘sodade’ dessa terra Cabo Verde, lembro as noites quentes de S.Vicente, rememorando também os sons de crioulo, ritmados e quase chorados, saídos da garganta da mestiça de pele de ébano e olhos verdes. Saravá Mizé!

Distante no tempo e no espaço, dou hoje um salto imaginário até lá, através voz de Carmen Souza. Uma lisboeta, filha de cabo-verdianos, hoje praticamente radicada em Londres e correndo mundo. Instrumentista e cantora de criativo talento, proporciona-me reviver o crioulo, a morna e o jazz. Uma simbiose que me delicia.

Proibido gostar de políticos

Gostar de políticos em geral é uma actividade para parvos. Ter gostado muito de Obama parece ter sido um pecado universal que, mesmo entre vómitos e o nojo das descrições de brutalidades praticadas pelos soldados dos States no Iraque e pelo mundo fora, parece difícil renegar. Gostar de políticos é uma actividade que deveria ser banida e ensinada como prejudicial nas escolinhas das terrinhas. Alias, gostar de políticos deveria ser algo declarado ostensivamente de “mau gosto”. As velhinhas dos comícios e os seus bonés panfletários deveriam ser inconstitucionais e neste tempo de crise os jantares/ encontro com militantes deveriam ser regulamentados por decreto. Um por ano no máximo. Haveria menos palhaçada e menos gaffes para alimentar a imprensa. [Read more…]

Sodadi bô Cize!

Quem era Cesária Évora? Quem vai ao Google ou ao wikipedia ganha logo uma colectânea de informações básicas sobre a  “Diva dos pés descalços” em textinhos com ar de retalho…mas fica definitivamente sem saber quem é Cesária Évora.

Para se saber quem é Cesária Évora teremos de ter ouvido pelo menos uma vez na vida a Morna Mar Azul e sentir aquele arrepio triste na espinha, para se saber quem é Cesária Évora tem-se de ter tido pelo menos uma vez na vida a vontade de abrir um mapa ou o Google e pesquisar duas palavras: “Cabo Verde”. Para se saber quem é Cesária Évora é obrigatório ter-se andado, pelo menos mentalmente, pelas ruas da cidade do Mindelo e sentir-se em casa. Para se conhecer Cesária Évora é fundamental entender a filosofia atrás da palavra simplicidade, a matemática da expressão ALMA, a secreta química cerebral que qualquer cabo-verdiano sente ao cantar/escutar a morna Sodade. Para se gostar de Cesária não é preciso nem se ser cabo-verdiano nem entender crioulo. Cesária resume a palavra tempo e estende até ao limite do infinito a dimensão irónica de dez pequenas ilhas no atlântico. Hoje muitos pedem que o seu nome seja dado ao aeroporto internacional da ilha de S. Vicente. Para mim isso seria o serviço mínimo, pois o nome: “Cabo Verde”, já há muito tempo foi traduzido para: “Cesária Évora”. Há quem nunca tenha vindo a Cabo Verde, mas já esteve na terra da Cesária Évora. O que farão as memórias por nós, o que significam os teus pés descalços? Se calhar que os nossos reinos são imaginários e somos todos meros reizinhos patéticos andando nus pela Disneylândia. Ou nada. Podem não significar absolutamente nada…se calhar apenas que sabias sentir a terra por debaixo dos teus pés.

Cada um sente a dor que mais lhe dói e este país a que eu pertenço, esta geração que não conhece Cabo Verde sem Cesária Évora, hoje sente a dor que mais lhe dói. Seu legado serve-nos ao menos para desmascarar uma mentira: os grandes nunca partem, só morre quem nada partilhou com o mundo.

A tal prisão com ilhas à volta

O que faz a nossa democracia pobre? Coisas simples como a falta de coragem politica dos principais agentes políticos nacionais e dos sindicatos, a hipocrisia e o cinismo dos nossos quadros e experts melhor cotados, sempre prontos a curvar perante cheques e estudos encomendados, a promoção da malandragem intelectual e doutrinação dos nossos principais académicos. Como se isso não bastasse temos ainda o amadorismo generalizado da opinião sobre a política, da crítica especializada e a total inexistência do jornalismo de investigação. Falo de Cabo Verde senhores…aquela prisão com ilhas à volta.

Pois é, por cá também a mesma “estória” da carochinha: não há crise mas congela-se o aumento salarial, não há crise mas o FMI recomenda uma diminuição do endividamento do país para níveis inferiores a 50%. Não fosse Sócrates a filosofar metido num sofá design em Paris, isto estava muito pior.

Na crise também se pode falar de uns tais valores que se perderam, ouvir da boca do excelentíssimo senhor Adriano Moreira que nada tem a reabertura do campo de concentração do Tarrafal é prova não só da demência do mundo como também, neste caso muito particular, do sumo pontífice reitor da Universidade de Mindelo que em boa hora resolveu dar um “Honoris Causa” ao homem. “Dementis Causa” da qual nem a Portaria nº 18 539 nos salvou. 7 bilhões e tal de seres humanos no mundo e o primeiro honoris cabo-verdiano vai exactamente para um santo homem ligado a Salazar e ao campo de concentração à volta de qual foi construída a nossa identidade nacional. Não fosse este o meu primeiro post no Aventar ia logo um palavrão de bónus. Mas sejamos meninos bem comportados, que o natal vem aí, o Sócrates cá da banda ainda fala em competitividade e o nosso Passos Coelho por enquanto não saiu da cartola. …e se for mesmo igualzinho a Passos Coelho que fique lá bem quentinho.

Nosso consolo é que num golpe de mágica a ditadura em África foi banida de uma vez e por “todos os tempos e sempre” num acto de dúvida filosófica. Assim chegamos lá depressa e sem necessidade de andar às cavalitas.

Lagos-Cidade Velha da Ribeira Grande de Santiago, cidades irmãs

Com a presença dos presidentes das respectivas Câmaras Municipais e de outras entidades, entre as quais se incluía o embaixador da República de Cabo Verde em Portugal, procedeu-se hoje, em Lagos, à assinatura do Acordo de Geminação entre o Munícipio de Lagos e o Município de Ribeira Grande de Santiago, cuja capital é a conhecida Cidade Velha.

Por estar consciente da importância do facto e do significado que tem para ambos os concelhos este acordo, por conhecer o esforço que a Cidade Velha tem feito no sentido da sua própria revitalização e da afirmação dos seus cinco séculos e meio de História e de miscegenação, por conhecer a importância da mesma no desenho de um mundo diferente após o seu achamento, por lá ter amigos que trabalharam para este fim, regozijo-me com esta geminação e não quero deixar de a assinalar aqui no Aventar.

Nos últimos anos a Cidade Velha tem colecionado uma série de distinções e geminações que a devem orgulhar, entre as quais a sua classificação como Cidade Património Mundial pela Unesco. No próximo dia 1 de Maio ter-se-ão passado 550 anos exactos sobre o seu achamento, sendo que a viagem de António da Noli e Diogo Gomes se iniciou precisamente no cais de Lagos, cidade com quem agora se gemina.

550 anos depois, à luz das actuais realidades pós-coloniais, uma fraternidade que se saúda. Um círculo que se fecha e um novo ciclo que se abre. Um grande  abraço Cidadi.

Orlando Pantera, o cometa

Na sequência da morte trágica de Vadú, prometi um poste sobre Orlando Pantera, desaparecido em 2001, três dias antes partir para Portugal e para França, onde iria gravar o seu primeiro disco. Como é possível que um músico que nunca chegou a gravar um único disco seja considerado um mito no concorrido panorama musical de Cabo Verde, e um dos seus maiores criadores de sempre?

Ninguém sabe quantas canções compôs Orlando Pantera, quantas ofereceu, quantas existiam apenas na sua cabeça, sem suporte escrito ou apontamentos que permitam hoje reproduzi-las.

Grande parte dos nossos leitores nunca terá ouvido o seu nome, mas poucos haverá que não tenham já escutado algumas das suas canções, interpretadas por nomes como Tubarões, onde pontificava Ildo Lobo, Mayra Andrade, Lura, Vadú, Arlinda Santos, etc.

 

 Numa breve visita à sua página no Myspace, criada cinco anos após a sua morte, encontramos entre os seus  seguidores, por exemplo, Deolinda, Tom Zé, Lila Dows, Sara Tavares ou Oumou Sangare.

Atento a ritmos como o Batuko e o Funaná, Orlando Pantera voltou a mergulhar nos ritmos africanos para modernizar e renovar a música em Cabo Verde, marcando toda uma geração de jovens músicos, a, hoje chamada, Geração Pantera: Vadú, Tcheka, Djingo, Princezito, Lura , Mayra Andrade, entre outros. Morreu com 33 anos. 

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Vadú morreu, Cabo Verde empobreceu

Entre as maiores estrelas da nova geração de músicos cabo-verdeanos, existem os que se afirmaram fora de Cabo Verde e que são, tantas vezes, resultado, eles próprios, da imensa diáspora das ilhas, e os que começaram por se afirmar no país, aí residindo, sendo, porventura, mais conhecidos dentro do que fora de fronteiras. Entre esses, os meus favoritos são Princezito, Vadú e, em alguns momentos, Tcheka, nomes quase desconhecidos entre nós.

Soube agora, repentinamente, da morte de Vadú.

Imagino, porque conheço o amor que Cabo-Verde lhe dedicava, a consternação sentida pela sua morte. Depois de Orlando Pantera, outra grande promessa da música cabo-verdeana desaparece precocemente.

Aquando da minha última estadia em Cabo Verde recusei, um pouco por falta de disponibilidade, um convite para o  ver actuar, creio que no 5tal da Música (Quintal da Música), se bem me lembro. A vida pode ser demasiado curta para desperdiçar certas oportunidades.

Nota: Não pus ligações nos nomes acima referidos porque, sobre eles, farei proximamente alguns postes.  Hoje, pelos piores motivos, este espaço é dedicado apenas a Vadú.

A máquina do tempo: Batuko Tabanka – ponte entre Cabo Verde e a Galiza

Tenho aqui dedicado alguns textos, quer a Cabo Verde, quer à Galiza, dois países irmãos, duas culturas intimamente ligadas a Portugal – a galega a montante, nos alvores da nossa identidade, a cabo-verdiana a jusante, consequência das nossas navegações e do povoamento que fizemos das terras que nelas achámos. Ligações entre essas duas culturas? Não parecia fácil. Mas existem e não são poucas.

Há uma colónia de cabo-verdianos na Galiza, maioritariamente constituída por homens do mar e suas famílias. Um grupo de doze mulheres de Cabo Verde, residentes em Burela (Lugo), ensaia desde há cerca de uma dezena de anos, recuperando ritmos ancestrais como a «Batuka» que escutámos no vídeo acima. Amigos do Aventar, vou hoje falar destas corajosas mulheres que não querem que a memória e a voz da sua cultura se percam.O grupo nasceu durante um jantar em Burela. Uma das actuais componentes do grupo, perguntou: por que não batucamos como as velhas da nossa terra? E a pergunta, como uma semente, germinou e floresceu, resultando no «Batuko Tabanka». [Read more…]

Porto Madeira – Cabo Verde

Este post tem muitos links mas são mesmo necessários.

Faz agora exactamente um ano -as coincidências existem- estava eu a jantar com a minha amiga Misá, a viver as últimas duas ou três horas de uma estadia de um mês e meio em Cabo Verde. Nesse dia estava bastante desgostoso (lembras-te, Misá?) com uma maldade que me fizeram na sequência desta notícia. A baixa política lá como cá.

Estive em Cabo Verde, a convite da Misá, para cooperar com os rabelados  de Espinhu Branku (ver algumas imagens aqui), com o projecto Porto Madeira e no âmbito da geminação Lagos/Cidade Velha e Lagos/S. Miguel.

Ora, a Misá pediu-me que divulgasse o seu último projecto (mais legível aqui).

Trata-se de um convite internacional, dirigido a pessoas de todo o mundo, mas especialmente a artistas plásticos, professores de educação visual, grupos de alunos e, enfim, cultores da lusofonia.

Informações podem ser pedidas para misacv@gmail.com . Colaborem, as gentes de Porto Madeira agradecem.

 

 

A máquina do tempo: ainda as origens do fado

 

 

Nesta bela gravura de Rugendas (1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares,  vemos escravos dançando o lundum. Há cerca de duas semanas atrás, publiquei aqui um texto sobre o fenómeno da canção urbana, falando das similitudes entre o fado e o tango. Quando recordava o pouco que se sabe sobre as obscuras origens da chamada «canção nacional», aventei entre as hipóteses que os especialistas têm vindo a explorar, aquela que é a mais comummente aceite – a de que o fado nos chegou nos barcos de torna-viagem que trouxeram de regresso a corte de D. João VI que, durante as invasões francesas, esteve refugiada no Rio de Janeiro, para ali tendo transferido a capital do reino.

 

Segundo essa teoria, o fado teria sido criado a partir de uma dança muito popular no Brasil (no início do século XIX), dança em que se misturavam elementos de danças populares portuguesas e de outras trazidas de Angola pelos escravos. Era um bailado que podia ser acompanhado de canto e a que as gentes chamavam «fado». Já em Portugal, este fado brasileiro e o lundum, foram-se mutuamente influenciando até se fundirem, dando lugar àquilo que veio a ser a canção nacional.

Foi um fenómeno explosivo, rápido que, como um incêndio de Verão, viajou da corte aos bairros populares e a partir destes se espalhou por todo o País. Hoje, o fado já não é lisboeta, canta-se, e muito bem, no Porto (de onde têm vindo excelentes intérpretes, como a magnífica Maria da Fé), no Ribatejo, onde adquiriu ritmo e sonoridade própria. Terá desencadeado o fenómeno do fado coimbrão, mais ligado à música beirã. É a canção nacional. Chama-se fado, fatum, destino… Começou nos saraus do Palácio de Queluz, viajou para as alfurjas, lupanares e tabernas da Mouraria, e agora com uma nova estirpe de cantores e cantoras aristocratas parece querer voltar aos salões.

 

O curioso é que já no princípio do século XX, antes de ter completado cem anos, já o fado era considerado uma canção tradicional. A estúpida «tradição» dos touros de morte em Barrancos tem cerca de oitenta anos e essa barbaridade é defendida nessa base – é uma herança cultural do povo barranquenho. Estranho país o nosso, fundado há quase nove séculos e onde as falsas tradições pegam de estaca em duas ou três gerações.

 

Mas, enfim, voltemos às origens do fado. Estava a falar do lundum, ou lundu. Há quem defenda que a sua proveniência é da África Ocidental e que teria chegado a Portugal, vindo de Cabo Verde, com as primeiras levas de escravos, ainda no século XV. Há a tal tese, mais difundida, da proveniência angolana. Indiscutível é a mistura de ritmos e cadências africanas e europeias, integrando os ritmos ibéricos, jotas, fandangos, e corridinhos, com o estalar de dedos a marcar compassos.

 

Pergunto se mornas, coladeras, fado, samba, lundum, maxixe, não terão origens comuns. De notar que, nesta matéria, só faço perguntas. Mensagens que meto em garrafas e atiro ao oceano da blogosfera – quem sabe se um especialista, um dia, não dará resposta a estas questões? Desde que, há uns anos atrás, no «Ponto por Ponto», me convidaram para falar sobre o D. Afonso Henriques e depois me fizeram perguntas sobre o fado, fiquei com esta obsessão.

 

Como exemplo, deixo uma excelente interpretação de Edu Miranda e do seu trio na execução de um fado em ritmo tropical. Como podemos apreciar, não existe qualquer espécie de incompatibilidade. Será que o fado original seria (mais ou menos) assim?

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A máquina do tempo: Claridade – uma luz sobre o arquipélago

 

Viajar no tempo é a função desta máquina. Mas viajar no espaço, tal como navegar, também é preciso. Fiz umas viagens a Cabo Verde. Na primeira, há uns 12 anos tive uma grande surpresa. Pela positiva, diga-se. Mesmo os que, como eu, se julgam prevenidos contra os preconceitos, a eles não são completamente imunes.

Para os brasileiros em geral, como vimos pelo recente caso da Maitê Proença, os portugueses são os ridículos heróis de anedotas imbecis – padeiros, comerciantes analfabetos – gente estúpida e ignorante que comete gafes e faz disparatadas confusões. Para os portugueses em geral, os brasileiros são sambistas, jogadores de futebol, traficantes de droga, prostitutas dos bares de alterne, gente alegre, mas sem nível cultural. Sobretudo, pessoas que falam mais depressa do que pensam.

Não nos podemos, por isso, ofender em demasia com as tontices da Maitê. Os brasileiros devem ter herdado de nós o pendor para ridicularizar o que é diferente. Ou, pensando melhor, talvez essa característica seja inerente à condição humana e não pecha exclusiva das gentes da lusofonia.

Relativamente aos cabo-verdianos, sei existir em Portugal o preconceito, a ideia de que dessa comunidade imigrante provém grande parte da marginalidade que nos atormenta. Alguma daí virá, porque entre mais de cem mil pessoas nem todas podem ser santas e sabemos em que condições muitas delas vivem. Por outro lado, muitos portugueses, quando pensam em cabo-verdianos, mesmo não os associando à marginalidade, logo se lembram dos trabalhadores da construção civil, das empregadas de limpeza. E quando aterram no Aeroporto Internacional da Ilha do Sal pela primeira vez, subconscientemente pensarão: como é que será um país de trolhas, pedreiros, e mulheres-a-dias? Pois, quem ali chegar com essa ideia, sofrerá uma profunda surpresa.

 A Ilha do Sal e o Hotel Morabeza, onde estive apenas três ou quatro dias, nada me disseram – a beleza da praia foi o que mais me impressionou. Mas depois vieram Santiago, São Vicente, Boavista – a cidade da Praia e a encantadora cidade do Mindelo (uma cidade portuguesa parada no tempo). Aí começou o maravilhamento e a paixão que desde então me liga ao arquipélago. Cabo Verde é um país lindo. Os cabo-verdianos são, no geral, pessoas amáveis e educadas. Contudo, o meu interesse por Cabo Verde começara muitos anos antes em Portugal.

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No quadro de um projecto institucional de erradicação dos bairros de lata, no período pós-25 de Abril, tive ocasião de contactar núcleos de cabo-verdianos que viviam em bairros da então chamada «cintura industrial de Lisboa» – particularmente na Pedreira dos Húngaros (Algés), nas Marianas (Parede) e no Bairro do Fim do Mundo (Cascais). Fiz muitos amigos cabo-verdianos (e não só) e pude constatar, por um lado o apego que aqueles imigrantes mantinham à sua terra e, por outro, a quase total ausência de instrumentos culturais que alimentassem esse amor.

Com o escritor Manuel Ferreira, do qual fui amigo desde 1964, pois conhecemo-nos durante o II Encontro da Imprensa Cultural, realizado em Cascais, por diversas vezes comentámos essa circunstância que na altura era gritante e que hoje em dia está relativamente superada ou, pelo menos, mitigada. Com ele preparei (na qualidade de director editorial, visto que a direcção científica lhe pertencia), uma História da Literatura Africana de Expressão Portuguesa, destinada a sair na sequência de uma História da Literatura Portuguesa.

Por motivos que ignoro, a obra, que Manuel Ferreira entregou dentro do prazo estabelecido contratualmente, acabou por não ser publicada. Estávamos em 1990. No decurso deste trabalho, falámos por diversas vezes em Cabo-Verde e na sua cultura. Foi incentivado por estas trocas de impressões que visitei pela primeira vez o arquipélago e pude confirmar, não só a ideia com que ficara pelo contacto directo com os imigrantes, como também o que Manuel Ferreira me dizia sobre a singularidade das gentes cabo-verdianas e  sobre o valor ímpar da sua cultura. Entretanto, Manuel Ferreira faleceu e, passados anos, eu saí da editora.

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Pode dizer-se que antes de Eugénio Tavares (1867-1930), não existia, mesmo entre as elites do arquipélago, em Cabo Verde uma consciência explícita da identidade cultural dos cabo-verdianos. Pode também dizer-se que, com a sua luta, criou o conceito, até então inexistente, de caboverdianidade. Este foi o primeiro e importante passo. Assente esse pilar da dignidade nacional, a cultura cabo-verdiano, sobretudo a literatura, divide-se em duas épocas distintas – antes e depois da revista Claridade. Em Março de 1936 surgia o primeiro número; em Dezembro de 1960 publicou-se o último. Foram dez números o que, em 24 anos não parece muito, sobretudo se analisarmos esse facto à luz da realidade actual.

No entanto, não podemos esquecer que, em 1936, ano em que foi desencadeada a Guerra Civil de Espanha, o governo de Salazar tentava limpar o País dos derradeiros resíduos da democracia que, desde o advento do liberalismo, e com breves interregnos, se vivia em Portugal. As colónias não escapavam a essa limpeza metódica que, procurando erradicar tudo o que cheirasse a vestígios de hábitos democráticos, fazia também desaparecer nichos culturais que, à gente do regime e ao ditador, pareciam ser (e, de facto, eram) refúgios das oprimidas ideologias políticas.

Os primeiros «claridosos» foram os escritores Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes. Aos nomes dos três fundadores vieram juntar-se, entre outros, os de Félix, Monteiro, Henrique Teixeira de Sousa, Arnaldo França, Tomaz Martins, Nuno Miranda, Luís Romano, Abílio Duarte, Virgílio Avelino Pires, Onésimo Silveira, Xavier Cruz, Artur Augusto .

O conteúdo dos dez números, algo heterogéneo (ou ecléctico, se preferirmos), permite estabelecer afinidades com o movimento neo-realista que, em Portugal, velejava a todo o pano por esses tempos. Afinidades que também teve com a literatura brasileira. Em todo o caso, mantendo sempre a inclusão de textos em crioulo, poemas sobretudo, apesar de o português ser dominante, a «Claridade» conservou, ao longo da sua existência, um carácter de genuinidade autóctone.

Não pretendo com esta crónica esgotar este tema ou sequer abordá-lo com a profundidade que merece. Aliás, existem sobre o tema estudos de grande qualidade, nomeadamente os de Manuel Ferreira e os de Alfredo Margarido. Quis apenas chamar a atenção para este marco da cultura do povo irmão de Cabo Verde – a revista «Claridade», um farol de cultura de um arquipélago, onde existe agora uma literatura fecunda com nomes como os de Germano Almeida, Aguinaldo Fonseca, Yvone Ramos, Corsino Fortes, Arménio Vieira, Yolanda Morazzo, Gabriel Mariano e tantos outros.

A «Claridade» lançou uma luz intensa e duradoura sobre o arquipélago.

 

 

 

Clube dos Poetas Imortais: Eugénio Tavares (1867-1930)

 

 

 

Alguém já chamou a Eugénio Tavares o Camões de Cabo Verde. Na verdade, a ele se deve a consciência que, a partir de finais do século XIX, os cabo-verdianos foram tomando da existência de uma cultura genuinamente sua. Eugénio Tavares foi um poeta, sim, mas também um agente consciencializador da cabo-verdianidade, actuando no palco político, jornalístico, lutando contra as injustiças de que o seu povo era vítima. Sofrendo as inevitáveis perseguições por parte do poder colonial, foi obrigado a exilar-se. Descendente de europeus, foi dos primeiros a proclamar que as gentes do arquipélago tinham direito a uma cultura diferenciada a uma expressão idiomática distinta, a uma identidade própria.

Pouco conhecido em Portugal ou conhecido sob a forma redutora de «criador de mornas», Eugénio Tavares foi um apreciável escritor, um jornalista e polemista de grande valor.  No ano em que o Prémio Camões, o mais alto galardão literário do mundo lusófono, foi atribuído ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira (1941) e em que a literatura do arquipélago se afirma como uma das mais pujantes do universo lusófono, com nomes como o do romancista Germano Almeida, sem esquecer o grande Daniel Filipe, e o de Arménio Vieira, faz todo o sentido lembrar e homenagear Eugénio Tavares, pioneiro das letras de Cabo Verde.

 

 

Eugénio Tavares, nasceu na ilha Brava a 18 de Outubro de 1867, onde faleceu em Junho de 1930. Autodidacta, adquiriu grande cultura, transformando-se na figura literária e jornalística mais importante de Cabo Verde nas primeiras três décadas do século XX. Com apenas quinze anos, publicou os seus primeiros poemas no «Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiras», deixando uma vasta produção, em português e em crioulo – poemas, narrativas, peças de teatro e, sobretudo, artigos jornalísticos. Quando exilado nos Estados Unidos, fundou o jornal «Alvorada» em New Bedford. Com colaboração intensa na «Revista de Cabo Verde» e no jornal «A Voz de Cabo Verde», foi postumamente publicado um volume com as suas «Mornas». Da sua produção poética escolhi um poema em português, pois neste «Clube» só entram poetas lusófonos – é um poema do exílio:

Exilado

Pensa no que há de mais sombrio e triste;

terás, destes meus dias vaga imagem;

soturnos céus – como tu nunca viste –

nunca os doirou o halo de uma miragem.

O sol – um sol que só de nome existe –

envolto na algidez e na brumagem

dum frio como tu nunca sentiste,

do nosso sol parece a morta imagem

imerge o retransido pensamento

nas noites mais escuras, mais glaciais,

prenhes de raios e vendavais;

verás que anos de dor, esse momento

passado, na saudade e no penar,

longe do sol vital do teu olhar!

(Fairhaven, 1900)