Memórias do Cerco do Porto

Os professores Sérgio Peixoto e Manuel Pires Ribeiro, ambos já aposentados, lançaram um livro sobre a escola secundária do Cerco do Porto, situada na zona oriental da cidade e nas imediações de um bairro social, e na qual leccionaram durante décadas. “Escola Secundária do Cerco – 1980-2007 – História e Contextualização no Sistema Educativo” é o título da obra.

Quanto aos autores… bem, podia começar por contar-vos um episódio que se passou há muito tempo, teria eu 15 ou 16 anos e naquele dia não me apetecia saber mais nada sobre absolutistas e liberais. Havia um café novo onde toda a gente parava, podíamos ir, a Cláudia tem o disco novo dos U2, pode ser que esteja lá aquele rapaz que vimos da outra vez, vá lá, toda a gente vai… No dia seguinte, entrei discretamente na aula de História, e enquanto tirava o livro da mochila vi, para meu horror, que o professor Ribeiro se aproximava.

Inventei uma história patética sobre uma indisposição no dia anterior, e ele, com a sua voz pausada, sempre tranquila, fez-me uma síntese, e só para mim, do que tinha sido visto na aula anterior. Tomei notas a toda a velocidade, sem me atrever a levantar os olhos para ele, e fiquei o resto da aula a sentir-me culpada e agradecida. Claro que nunca mais faltei à aula de História.

O professor Peixoto gostava de ler e, sobretudo, de nos ouvir ler. Acredito que ele estava convencido de que se nos deixasse ler páginas e páginas dos Maias, como fazíamos, haveríamos de ser tomados pela mesma paixão, haveríamos de sucumbir ao mesmo feitiço. Recordo-me daquelas aulas de duas horas em que eu lia em voz alta durante muito, muito tempo, ao ponto de pensar que o professor talvez tivesse adormecido. Mas quando o olhava de soslaio ele estava bem acordado, à escuta, e às vezes era como se ouvisse pela primeira vez aquilo que ensinava há décadas.

Recordo-me das suas gargalhadas naquela passagem delirante em que o Carlos Eduardo apanha o Eusebiozinho vestido de anjinho para entrar na procissão e esfrangalha o enfezadito. Ou da fúria do João da Ega quando regressa do baile em casa dos Cohen, ainda vestido de Mefistófeles, humilhado pelo marido da sua amante…. Ainda hoje é-me impossível ler essas passagens sem recordar o professor Peixoto.

Também o recordo a separar uma rixa muito feia, a meter o corpo no meio de dois adolescentes enfurecidos, e de pensar que a sua atitude, firme mas não autoritária, tinha acalmado os ânimos de imediato e era muito diferente daquilo que estávamos habituados a ver.

As minhas memórias da escola secundária não são particularmente luminosas, mas recordo estes dois homens com afecto e gratidão. Alegro-me por saber que escreveram este livro a quatro mãos e que continuam, mesmo após a aposentação, a ser pedagogos. A resgatar o mais positivo na nossa memória comum e a celebrar cada um dos miúdos que passaram por aquela escola.