Ética e Educação – 2ªParte (12)

Educação no tratamento dos problemas éticos ligados à esfera da saúde. Considerações sobre a necessidade de integração de conhecimentos ligados à saúde no âmbito da educação escolar e social

 

Muitos médicos, por incompetência, rotina, falta de senso, exigência ignorante por parte dos próprios doentes e por brutal pressão e persuasão da indústria, não passam de meros prescritores de remédios. Por outro lado transformam-se em inventores de falsas doenças e executores de controversas intervenções impostas de forma irreflectida pelos resultados dos abusivos exames subsidiários que se requisitam sem qualquer critério. Falsas doenças muitas vezes criadas pela má execução e interpretação desses exames, desnecessários e duvidosos, ou pela incapacidade de distinguir o essencial do secundário, valorizando achados que, no contexto global, não têm grande significado patológico, e menosprezando situações graves. Todos nós, médicos, agentes de saúde e doentes, de uma forma ou de outra, somos fautores e vítimas deste comportamento inglório, criadores de um desenvolvimento mal definido, mal identificado, mal planificado, mal conduzido pelo pseudo-progresso que o dinheiro e o poder impõem como dogmático.

 

Em todas as áreas a fasquia do homem pode ser muito baixa. Quem ensina e educa, seja o que for, tem de ter dentro de si o mundo, a solidária sensação da paisagem humana, o valor do Homem e da Terra. Não pode limitar os seus horizontes a pequenos mundos de frágil cosmética. Todos sabemos que há pessoas incompetentes, sem escrúpulos e sem carácter que proliferam em todas as esferas educativas. Há profissionais que não passam de aprendizes, há professores a precisarem de ser alunos, há directores do que quer que seja a ocupar lugares ditos de competência, há os pregadores de disparates que, pelo facto de terem conseguido algum aval, lograram um púlpito do cimo do qual obrigam as pessoas a ouvi-los. Por isso, não há verdadeira educação se as coisas não forem ditas, não há verdadeira educação se as denúncias não forem feitas.

 

A visão universal da finalidade do Homem aponta para o núcleo activo das interacções multifactoriais da existência, o qual exige a presença de uma sã política humana, base indispensável da Ética e da Educação no caminho do verdadeiro progresso.

 

(Fim)

 

 

Ética e Educação – 2ª Parte (11)

Educação no tratamento dos problemas éticos ligados à esfera da saúde. Considerações sobre a necessidade de integração de conhecimentos ligados à saúde no âmbito da educação escolar e social

 

A nossa sociedade vive triturada por uma poderosíssima máquina de mentir a verdade. A esta máquina não é poupada a assistência médica e a medicina, que sofre também as consequências deste “soro universal da mentira” que, cada vez mais, induz as pessoas a precisarem da medicina, dentro de um movimento de mercado que não olha a meios para criar a riqueza de alguns à custa da pobreza da muitos. Na ânsia desmedida do lucro, há uma imposição de falsas necessidades de saúde, saúde vendida na especulação de duvidosos benefícios, na escamoteação das consequências e no escuro das consciências, fortemente sustentada no privilégio que o beneplácito público oferece à coligação de interesses que funde medicina, indústria e comércio. A assistência média actual apresenta uma coreografia difícil de captar, mesmo pelas pessoas mais cultas. Hoje em dia, a saúde da humanidade não é um fim em si mesma ou uma meta, mas apenas um pretexto para atingir muitos outros fins.

 

 

 

O consumo exagerado e indiscriminado de medicamentos, como já aqui disse por mais de uma vez, constitui um grave problema não só nacional como internacional. Interesses de toda a ordem convenceram as pessoas de que a saúde está metida em caixinhas e frasquinhos, originando uma autêntica obsessão pelos remédios, não só por parte dos doentes mas também dos médicos. Todos sabemos que há medicamentos úteis, indispensáveis, alguns quase milagrosos. Mas há muitos que são inúteis, por vezes prejudiciais e perigosos. Mas, potencialmente mais perigosos do que os remédios inúteis são, tantas vezes, os bons remédios, os remédios eficazes, quando prescritos por rotina, sem critério nem critérios, sem precisão diagnóstica ou terapêutica, com desconhecimento das verdadeiras indicações e dos efeitos adversos, das contra-indicações, das interacções medicamentosas e da co-morbilidade presente. Presume-se que a terceira causa de morte no mundo industrializado de hoje esteja no uso dos medicamentos. Em particular, o consumo de remédios pelo doente idoso é um problema actual e de importância crescente. Intencionalmente foi-se criando a ideia de que a terceira idade é uma doença, o que não é totalmente verdade. A terceira idade é uma fase da vida carecendo de atenção específica e de cuidados sociais, humanos e diferenciados. Não pode, de forma alguma ser uma mina, a explorar pelos vendedores de falsa saúde, como está a acontecer. Raro será o idoso que não deixa na farmácia quase toda a sua magra reforma, a troco de pouco ou de nada ou, pior ainda, a troco de graves prejuízos. Pensa-se que cerca de 25% dos internamentos da terceira idade, nos países industrializados, se devem ao uso de remédios, e destes, 8% morrem.

 

(Continua)

 

Ética e Educação – 2ª Parte (10)

Ética e Educação – Parte 2 (10)

 

Educação no tratamento dos problemas éticos ligados à esfera da saúde. Considerações sobre a necessidade de integração de conhecimentos ligados à saúde no âmbito da educação escolar e social

 

Uma pessoa que não entenda o mundo, que não compreenda a razão das razões, que não agarre a essência e a substância dos complicados fenómenos com que tem de lidar, que não saiba o valor da humildade, que não reconheça o mal da presunção e da arrogância, que não aceite a indispensabilidade do bom-senso, que não seja capaz da linguagem falada, escrita, gestual e psicológica, não pode ser bom prestador de cuidados assistenciais, e não veicula, nem de longe nem de perto, os elementos indipensáveis à criação de uma boa relação com o doente. A relação médico-doente, profundamente pedagógica, não se deve pôr, contudo, em termos de educador e educando. A relação médico-doente é um fenómeno bem mais complexo e profundo, implicando a criação de uma confiança mútua, base indispensável do sucesso terapêutico.

 

Perante um doente, o primeiro e mais sagrado mandamento da medicina é não o prejudicar, seja de que forma for – Primum non nocere -. O segundo mandamento impõe o empenho, a vontade e a sabedoria dos agentes de saúde não só na procura esclarecida de uma solução que satisfaça o doente e dignifique o acto médico, mas também na aceitação e compreensão de doentes agressivos e difíceis, bem como na descoberta do seu lado positivo. Tem vindo a registar-se um aumento de agressões a médicos, cada vez mais graves, transformando-os no bode expiatório de tudo o que corre mal na saúde. Isto acontece porque o doente ou familiar se sente justificado na sua fúria. A retirada dos direitos de assistência no SNS a estes agressores, sugerido pela OM, se bem que tentadora, poderá não ser justa, dado que a grande culpa não é do utente mas do sistema, cujas insuficiências, negligências e incompetências se tornam difíceis de suportar. Mais uma vez penso que a atitude humanizante do agente de saúde pode ter um importante efeito profilático neste campo.

 

 

Para falar de saúde e, sobretudo, de ética na saúde, é necessário retirar o nevoeiro da frente dos olhos, tome esse nevoeiro a forma que tomar, irreflexiva, conformista, acomodatícia ou acrítica. O homem tem de se habituar a pensar. Só pelo pensamento se entende que o tempo presente vive uma intrincada teia de paradoxos e contradições que, sem regras ético-morais, levam o homem a tornar-se permeável ao irracional.

 

 

A avaliação médica e assistencial é uma tarefa eminentemente política que requer profunda lucidez. Exige do não-médico um esforço de investigação pessoal e exige do médico a redescoberta de uma medicina autêntica, ainda que desenvolvida e apoiada nas novas ciências. De outra forma, a medicina moderna corre o risco de perder a sua independência, a sua pureza original e a sua eficácia humana. As novas tecnologias, e eu falo com conhecimento de causa porque com elas sempre tenho trabalhado, tanto aumentam a possibilidade de progredir como aumentam a possibilidade de perverter se não forem acompanhadas de uma séria defesa da consciência ética e moral do médico e dos agentes de saúde.

 

 

A medicina de hoje trsansformou-se num monumental negócio, e numa oficina de reparação e manutenção do homem gasto por uma vida desumana. O universo de uma boa parte dos nossos políticos e agentes de saúde tem para eles a grande vantagem de uma conjuntura sem expressão, de um quadro sem cores, de um mar sem ondas de moral e de escrúpulos em que a desonestidade e a corrupção apagam a dignidade, fundindo princípios, meios e fins numa amálgama argentária sem qualquer tipo de pudor. (Continua)