A Arundhati Roy e às mulheres jamais esquecidas de o ser

É Dia Internacional da Mulher. Cumpro o ritual, homenageando sentidamente as mulheres.

Respeito a efeméride em memória das mulheres emanantes das saudades mais longas da minha vida – as minhas quatro bisavós; conheci-as todas. Jamais se evaporarão da memória. Elas e todas as outras com quem urdi diferentes laços familiares ou de amizade. Pesam, sobretudo, os afectos naturais da família, essa célula social elástica. Ora se contrai, ora se dilata, cadenciada pelo ritmo de quem parte e de quem chega.

Às mulheres da minha vida, mas também a todas as outras jamais esquecidas de o ser – algumas, senhoras de poderes de obscena tirania, constituem um terceiro e abjecto grupo que me repugna – presto a minha homenagem através da combatente antiglobalização, Arundhati Roy. Uma mulher de elevado estatuto intelectual e ético. Nascida na Índia, país onde são correntes ignominiosas acções de violência e segregação de mulheres, a luta de Arundhati por um mundo justo adquire maior significado quanto à coragem de combater em meio adverso e que os homens dominam. Eis um trecho do seu livro ‘O Fim da Imaginação’:

Os jovens trocistas e esganiçados que derrubaram o Babri Masjid são os mesmos cujas fotografias apareceram nos jornais nos dias que se seguiram aos testes nucleares. Estavam nas ruas, a celebrar a bomba nuclear indiana ao mesmo tempo que “condenavam a Cultura Ocidental” esvaziando grades de ‘Coca-Cola’ e ‘Pepsi’ nas sarjetas. A sua lógica deixa-me algo perplexa: a ‘Coca-Cola’ é Cultura Ocidental mas a bomba nuclear é uma velha tradição indiana?    [Read more…]

Mulheres, um poema de Manuel Bandeira

Todos os dias homenageio as mulheres da minha vida. Da memória, lembro as que partiram. Da vida, compartilho alegrias e tristezas com as que permanecem e vão chegando – ainda há dias nasceu uma sobrinha.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher; muitas não gostam da efeméride, porque defendem que ‘dia da mulher’ é o dia-a-dia, de todo ano. Ainda assim, atrevo-me a oferecer a todas, sem excepção, um poema de um dos meus poetas preferidos, Manuel Bandeira:

Mulheres
Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido…
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! Fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas…
És linda como uma história da carochinha…
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau)

Manuel Bandeira