O Hospital de Gaia

O caos e a degradação dos serviços de saúde em Vila Nova de Gaia não se limitam, infelizmente, ao Centro Hospitalar Gaia/Espinho, onde se demitiram ontem 52 directores e chefes de serviço, em protesto contra o que classificaram como condições degradantes e indignas daquele equipamento hospitalar. Num comum centro de saúde da cidade de Gaia, uma consulta com o médico de família – para quem o tem – está a demorar mais de dois meses e meio. É uma situação totalmente deplorável, que a alguns fará lembrar, eventualmente, certos discursos comoventes proferidos nas exéquias fúnebres de António Arnaut.

“Cenário de guerra” no hospital de Gaia

A 20 de Outubro de 2016, o Jornal de Notícias garantia que as obras do Hospital de Gaia iriam finalmente avançar. Na mesma notícia ficava a saber-se, pela voz do presidente da Câmara, que essas obras não apenas iriam avançar, como já estariam em curso “em meados do próximo ano”, ou seja, Junho do ano passado. Vítor Rodrigues garantia um co-financiamento municipal de 3 milhões de euros para uma obra que, três anos antes, tinha prometido, no seu programa eleitoral, como a reivindicação de “um novo Hospital público para Gaia”.

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O fogo fátuo do populismo

Enquanto as urgências do Hospital de Gaia rebentam pelas costuras, com os corredores transformados em unidade de internamento e tempos de espera para doentes urgentes na ordem das 7 horas, a Câmara de Gaia decidiu estourar uma fortuna do dinheiro dos contribuintes para assinalar o Dia de Reis, conhecida tradição republicana e laica que o município diz querer “recuperar”. Essa “recuperação” foi feita ontem com um mega-concerto musical ao qual assistiram cerca de 300 pessoas e com um grande espectáculo de fogo de artifício, ao som dos AC/DC – banda de rock australiana conhecida pela sua produção de música sacra -, para uma beira-rio deserta, conforme se pode ver na imagem.

Vila Nova de Gaia, 7 de Janeiro de 2018. Fogo de artifício lançado a partir da Serra do Pilar e da Ponte Luís I para uma Beira-Rio deserta.

Talvez seja este criterioso gasto de recursos públicos e dos impostos dos contribuintes, desbaratando centenas de milhares de euros em festanças natalícias a que ninguém assiste, que toma o nome de populismo. Talvez aqui resida um dos fundamentos do prestígio crescente de que a “classe política” beneficia entre o povo ignaro, a turba “raivosa” – como a adjectiva a deputada Isabel Moreira – sempre pronta a atacar os partidos políticos e a sua sacrossanta legitimidade representativa. Isto enquanto dois quilómetros acima, nas urgências do Hospital de Gaia, faltam lençóis para cobrir os corpos espalhados em macas pelos corredores.

A destruição premeditada do Serviço Nacional de Saúde

O Ministério da Saúde disponibiliza, através do seu sítio na internet e de uma aplicação específica para telemóveis, o MySNS Tempos, os tempos médios de espera nas urgências dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde de todo o país. A ideia é excelente, pois coloca a tecnologia ao serviço dos cidadãos que, no caso dos que precisam de recorrer às urgências dos hospitais, se encontram numa situação particularmente frágil.

A imagem que se segue é um printscreen da aplicação MySNS Tempos, feito no dia de ontem, pelas 21h02, retratando a situação da Urgência Polivalente do Centro Hospitalar de Gaia. Conforme se pode verificar, às 21h00 havia 66 pessoas na urgência do Hospital de Gaia identificadas pela Triagem de Manchester com a cor verdeMenos Urgente – e que, segundo o Ministério da Saúde, tinham à sua frente 39 minutos de espera até serem atendidas por um médico. Havia 70 pessoas identificadas com a cor amarelaUrgente – que iriam esperar 2h30m e, finalmente, 4 pessoas identificadas pela cor de laranjaMuito Urgente – que esperariam, segundo o Ministério da Saúde, 22 minutos até serem observadas.

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O campeonato dos hospitais

bigstockphoto_Victory_Podium_-_Winners_In_Go_3778414Para os iluminados pelo espírito empresarialês, o mundo não é mais do que um conglomerado empresarial (holding para os amigos), o que faz com que qualquer instituição seja vista como uma empresa. No fundo, o empresarialismo é uma religião, com os gestores, erigidos em sacerdotes abençoados pela infalibilidade, a anunciarem virtudes cardeais como a concorrência ou a competitividade ou o empreendedorismo.

Sendo uma religião proselítica, é claro que os clérigos tudo fizeram até impor as suas crenças a entidades que não eram empresas, como é o caso das escolas e dos hospitais. Assim, criaram a ilusão de que o sucesso é sempre mensurável: a Igreja fazia proclamações; o empresarialismo anuncia estatísticas, rankings e percentagens. Como sempre aconteceu, a maioria, embrutecida, repete a ladainha.

Mais uma vez, hoje, pude confirmar a omnipresença desta seita. Silvério Cordeiro, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Gaia/Espinho e antigo director do Centro de Formação Profissional da Indústria da Cortiça, queixava-se de falta de obras e de equipamentos, em entrevista ao Jornal de Notícias. Para o administrador, isso fez com que a instituição perdesse “claramente competitividade face aos hospitais da região.” [Read more…]