Resumo do último Prós e Contras

O Prós e Contras de ontem foi dedicado à Educação e constituiu um retrato fiel do modo como o tema é habitualmente debatido em Portugal: dá-se a palavra, sobretudo, aos ignorantes atrevidos (o problema está, como sempre, no “atrevidos”), sendo que, para cúmulo, o programa é apresentado por uma candidata a jornalista que não aprendeu nada.

O Paulo Guinote, o único professor presente, teve direito a algumas intervenções, as únicas que valeram a pena. Corporativismo? Claro, dirão alguns dos comentadores idiotas que passam também pelo Aventar. Por mim, num programa sobre Medicina, terei sempre preferência pela opinião dos médicos.

Quem quiser (re)ver o programa, pode seguir a ligação. Tem a vantagem de poder passar à frente as partes que não interessam.

Legislar contra a greve e contra a Educação

O ministério da Educação, independentemente dos governos, tem como único objectivo reduzir a despesa. Graças a essa obsessão, o edifício educativo público do país tem vindo a ser sistematicamente destruído desde 2005, devido a uma colaboração frutuosa entre gente de ideologias aparentemente diferentes.

Os professores têm sido roubados por todos os governos e, na minha opinião, protestam pouco e mal, permitindo que se lhes veja o cu. O governo prepara-se para manter o roubo de tempo de serviço, mesmo após uma greve gigantesca.

Nada preocupado com os professores, o governo procurou sempre encontrar meios de limitar o exercício da greve, tendo chegado ao ponto de transformar provisoriamente os conselhos de turma em órgãos administrativos, quando eram aquilo que deveriam ser: reuniões de natureza pedagógica.

No querido mês de Agosto, mês da predilecção do ministério da educação, saiu, então, uma portaria que torna definitiva essa alteração. Desta maneira, consegue-se retirar aos professores a possibilidade de voltarem a recorrer à greve às avaliações e desvaloriza-se um órgão pedagógico. Faz sentido: democracia e Educação não são prioridades do ministério.

Entretanto, no futuro, os professores só poderão fazer greve prolongada às aulas. No dia em que isso acontecer, os alunos serão verdadeiramente prejudicados, ao contrário do que aconteceu até agora. São opções.

Os professores também se abatem!

 

Hoje, pela primeira vez, dir-lhe-ei algo que nunca ouviu: é elementar, meu caro Watson! Estes cadáveres que caminham são professores portugueses, digo-lho eu! Se caminham, não são cadáveres? Watson, Watson, há mais mundos, é preciso ver mais longe. Estes seres vagamente humanos e aparentemente vivos não só estão mortos como foram assassinados! É certo que nenhum clínico passará a certidão de óbito e nenhum detective reconhecerá o homicídio, mas é como dizia o outro: há mais mundos. [Read more…]

Doutrinar como um asno engomado

[Santana Castilho*]

A directora-geral da DGEstE informou as escolas sobre o modo expedito de concluir o ano lectivo, atropelando a lei e sequestrando os professores. Fê-lo a 20 deste mês, a pedido de “elevado número” de directores incapazes de assumir responsabilidades e autonomia, retomando na prática o que já havia dito na famigerada nota informativa de 11 de Junho. Como a situação era complicada, a diligente funcionária puxou pela cabeça e chamou a polícia. Depois, doutrinou como um asno engomado, apenas com um ligeiro senão: é que os conselhos de turma não são órgãos administrativos e, portanto, a sua geringonça argumentativa pariu mesmo abaixo de zero. A nota informativa, versão dois, é papel molhado, cujo destino não é a obediência, mas tão-só o lixo.

Com efeito, o Despacho Normativo n.º 1-F/2016, já da lavra do actual secretário de Estado João Costa, na senda aliás da anterior Portaria n.º 243/2012, dispõe claramente assim (artigo 23.º): “o conselho de turma, para efeitos de avaliação dos alunos, é um órgão de natureza deliberativa, sendo constituído por todos os professores da turma e presidido pelo diretor da turma”; compete ao conselho de turma “apreciar a proposta de classificação apresentada por cada professor, tendo em conta as informações que a suportam e a situação global do aluno”; “as deliberações do conselho de turma devem resultar do consenso dos professores que o integram, tendo em consideração a referida situação global do aluno”; “quando se verificar a impossibilidade de obtenção de consenso, admite-se o recurso ao sistema de votação, em que todos os membros do conselho de turma votam nominalmente, não havendo lugar a abstenção e sendo registado em ata o resultado dessa votação”. (Os sublinhados são meus). [Read more…]

A traição não mete férias

Os professores, de modo tranquilo e inteligente, têm conseguido levar a cabo uma greve histórica. Hoje, ministério e sindicatos sentaram-se à mesa para alegadamente negociar. De acordo com declarações de representantes dos sindicatos, o ministério terá manifestado abertura para negociar o tempo de serviço, o que foi visto como um avanço, quando, na realidade, é uma simulação.

Para além de um moderado e/ou aparente regozijo, o resultado desta alegada negociação consiste na criação de uma comissão que irá analisar o real impacto financeiro da recuperação integral do tempo de serviço dos professores. Todas as contas deverão ser feitas, como é evidente, mas há várias razões para não perceber qual é a utilidade da dita comissão.

(Na realidade, sabe-se que uma das melhores maneiras de não resolver um problema ou de fugir de um problema é criar uma comissão. É essa a utilidade da comissão.)

Em primeiro lugar, António Costa, na sua qualidade de primeiro-ministro e não como membro de uma tertúlia de copos, disse que as reivindicações dos professores custariam 600 milhões de euros. Em que se baseou Costa? Se a dita comissão desmentir o primeiro-ministro, o que acontecerá?

No âmbito de uma negociação acerca da recuperação do tempo de serviço, que sentido faz criar uma comissão para saber qual o valor em causa?

Mais: se os sindicatos participaram numa reunião para discutir o tempo e o modo de recuperação do tempo de serviço, por que razão integram um grupo de trabalho que não se dedica a esse assunto?

Entretanto, a greve convocada pelos sindicatos desta plataforma terminará no dia 13 de Julho e poderá ser retomada em Setembro, quando o trunfo da greve às avaliações já não existir. A luta, pelos vistos, vai de férias, irá mesmo a banhos, depois de nada se ter conseguido, porque, diante da magnitude da greve, é nada a possibilidade de o ministério ponderar a recuperação do tempo de serviço, o anúncio de uma comissão sobre a importância dos gambozinos e a promessa de retoma da luta sob a forma de folclore.

Muitos dos professores que estiveram a participar na greve às avaliações sentir-se-ão traídos. Do ministério nada havia a esperar, já se sabe. Quem traiu?

Piada do ano: Cristas apoia os professores

Foto: Paulo Cunha/LUSA

Nos últimos tempos, o PSD e o CDS têm mostrado o seu apoio à luta dos professores, o que se compreende: estão na oposição. É conveniente que não nos esqueçamos de que Passos Coelho e companhia, Assunção Cristas incluída, se limitaram a aprofundar o trabalho de demolição iniciado por Sócrates e suas ministras amestradas.

Cristas, pondo a máscara de defensora dos professores, disse que estes têm razão porque o governo prometeu aquilo que não podia cumprir. Na realidade, Cristas está a afirmar que o erro está na promessa de recuperar todo o tempo de serviço. Em última análise, Cristas é contra essa recuperação, até porque isso implica, segundo a centrista, problemas orçamentais.

A verdade, contudo, é que os professores não têm direito à recuperação do tempo de serviço porque isso lhes foi prometido pelo governo. É simples: os professores têm direito à recuperação do tempo de serviço e ponto final.

Assunção Cristas e associados não estão e nunca estiveram do lado dos professores, como não estiveram do lado da Educação ou das escolas. Há apoios que se dispensam, até porque sabemos que, à primeira oportunidade, passam a empurrão. Deixe estar, menina, que eu atravesso a estrada sozinho, não se incomode, que me incomoda.

9 anos, 4 meses e 2 dias

Para que serve um conselho de turma?

A greve é o recurso dos desesperados cujos argumentos razoáveis são constantemente ignorados. Os professores, procurando resolver um (e apenas um) dos seus múltiplos problemas, resolveram recorrer a uma greve que afecta as reuniões de conselho de turma de final de ano lectivo.

O Ministério da Educação, fazendo jus à sua natureza de instituição intrinsecamente anti-educativa, resolveu impor serviços mínimos, de maneira a que um conselho de turma se realize desde que estejam presentes mais de metade dos professores, contrariando o espírito e a lei com a ajuda de um colégio arbitral cujo contributo para a imoralidade é gigantesco.

Embora o título seja algo redutor ou mesmo enganador, quem quiser saber qual é a importância dos conselhos de turma na vida dos alunos – repita-se: dos alunos – deverá ler a reportagem do Público –  Conselhos de turma são “uma tábua de salvação” para muitos alunos”. Quem não quiser saber, continuará a fazer comentário político na televisão ou escreverá patetices nas caixas de comentários também deste vosso blogue.

As contradições de João Miguel Tavares

João Miguel Tavares (JMT) resolveu dar alguns conselhos a David Justino, ministro sombra do PSD para a Educação.

Pelo meio, faz muitas confusões, dando uma no cravo e outra na ferradura.

Em primeiro lugar, chama às reivindicações dos professores uma “grandolada”, termo que, na pena de um cronista de direita, é uma maneira de reduzir qualquer atitude a uma reclamação asquerdalhada, como se os professores fossem todos uns comunas num eterno verão quente dominados por Mário Nogueira. Não no fundo, mas à superfície, é uma maneira de afirmar que os professores, coitados, são instrumentalizados por foices e martelos. Como crítica, é fraquita; como argumento, é inexistente.

João Miguel Tavares descobriu que a natalidade em Portugal baixou, o que o leva a espantar-se com o facto de terem entrado 3300 professores no quadro, como se o primeiro factor fosse necessariamente impeditivo do segundo. Seria importante que JMT conseguisse demonstrar inequivocamente que o sistema não precisa de mais professores. Não o fez. [Read more…]

Avaliação dos professores

[José António Fundo*]

Há, no meio educativo e das ciências da educação, muito conhecimento e trabalho sobre a avaliação educativa. Sobre a avaliação do processo de educar, da eficácia do trabalho realizado mediante os objetivos. Há metodologia, princípios, práticas estudadas.
Agora perguntem-me porque é que a avaliação dos professores, promovida de modo populista pelos políticos, ignora todo este conhecimento que existe sobre o assunto?
Porque insiste avaliar os professores como se fossem funcionários de um call center?
É fácil responder. A avaliação em vigor visa três objetivos:
1- Reduzir custos com os professores ao mesmo tempo em que se lhes exige mais trabalho (sobretudo paralelo às suas funções).
2- Dividir os professores e colocá-los em competição para que percam o mais possível a noção de classe e sejam incapazes de estar unidos em qualquer tipo de reivindicação.
3- Colocar a população contra os professores, considerando-os preguiçosos e incompetentes, entendê-los como despesa excessiva e prejudicial do estado.
Não é eficaz a avaliação em vigor, porque não se centra na qualidade do trabalho docente ou da educação mas antes na estratificação dos professores, no acentuar do seu medo e subserviência a tarefas administrativas. [Read more…]

Aquilo que os professores não reivindicam

Sempre que os professores reclamam, o espaço da opinião pública e publicada incendeia-se, chamando privilégios a direitos, anunciando ao mundo a incompetência docente ou lembrando que há quem esteja pior, numa mistela de afirmações sem provas ou vazias de argumentação.

Por variadíssimas razões, que vão de um estranho complexo de inferioridade ao excesso de trabalho, os professores são pouco reivindicativos ou, no mínimo, mal reivindicativos, porque ou aceitam com demasiada facilidade factos consumados ou porque escolhem mal o momento de algumas batalhas (normalmente, desistem).

A mais recente reclamação dos professores refere-se ao tempo de serviço que este governo, alegadamente socialista, não quer repor na totalidade, depois de os professores terem trabalhado todo o tempo. É como se, no final de um dia de trabalho, dissessem ao leitor que só lhe pagariam uma das oito horas que já tinha trabalhado. A comparação, de qualquer modo, peca por defeito, porque os professores nem sequer exigem o dinheiro que perderam.

O mundo dos comentadores, dos célebres aos anónimos, dizia eu, indigna-se facilmente com os protestos docentes. Gostaria de aproveitar o dia de hoje para fazer uma pequena lista de reivindicações que os professores não fazem, mesmo que defendam a sua justeza. Se deveriam reivindicar? Com certeza, mas isso é outra questão. [Read more…]

A Mocidade Portuguesa e as armas nas escolas

mocidade_portuguesaPaulo Ricca

Com 10 ou 11 anos de idade, finais dos anos 60, frequentava eu o 1.º ano do 1.° ciclo do secundário no então Liceu D. Manuel II, e éramos obrigados a ter duas “aulas” semanais patrocinadas pela Mocidade Portuguesa. Uma eram as chamadas “actividades”, em que se faziam umas palhaçadas proto-militares com a farda completa vestida; outra, era uma aula de “desporto”, que na maior parte das vezes em nada se distinguia de uma aula de ginástica (era ministrada no ginásio, ou ao ar livre nos campos de jogo).
E digo na maior parte das vezes porque o monitor das ditas aulas se lembrou certo dia de fazer algo diferente: levou para o ginásio uma espingarda de pressão de ar, pendurou um alvo com círculos concêntricos na parede, e mandou formar fila para que cada um afinasse a pontaria e desse um tiro.

Catraios daquela idade ainda nem das feiras tinham prática em fazer tiro ao alvo, pelo que o resultado foi o que seria de esperar: muito chumbo na parede, e um ou outro que atingiu o alvo ficou longe do centro. Perante tal inabilidade, o monitor, cujo nome esqueci, era um desses “chefes de quina” ou “de castelo” da MP, resolveu ser pedagógico; apontando o círculo mais pequeno do alvo, informou: “vocês têm que pensar que, à distância de cem metros, a cabeça de um preto é deste tamanho!”

Lembrei-me deste episódio, claro, a propósito desta polémica das armas nas escolas nos EUA, e as soluções da besta do presidente. Porque nos distantes anos 60 em Portugal se “normalizava” o uso de armas entre os estudantes, desde que fosse para matar os maus. Estudantes neste caso ainda recém-saídos do ensino primário.

Fiquei atónito com aquela aula. E revoltado. Ainda não tinha nada do que viria a chamar “consciência política”, mas talvez o episódio tenha ajudado a criá-la. Isso e ter lido “Os Miseráveis” pouco depois.

Quanto ao monitor, espero que tenha tido um mau 25 de Abril.

Na Virgínia, um rapaz de 13 anos não pode comprar uma cerveja mas pode, legalmente, comprar uma arma

Em Junho de 2016, pouco depois de dois tiroteios em escolas públicas e do massacre em Orlando, a CNN acompanhou um rapaz de 13 anos numa sessão de compras. Foi-lhe vedado o acesso a tabaco, bebidas, bilhetes de raspadinha e pornografia. Mas pôde, legalmente, comprar uma arma de fogo.

Eis o país da fachada vitoriana, que mete um apito a cada ass, fuck e shit dito na TV, indo ao detalhe de meterem uma chapa à frente da boca do apresentador (porém, deixando som suficiente para se perceber o que é que foi dito), mas onde se podem comprar armas de fogo livremente. Gente louca, bem representada pelo maluco do Trump, que preconiza armar os professores como solução contra os tiroteios nas escolas.

O que é a “cultura de retenção”?

Volta e não volta, quando há notícias de estatísticas negativas sobre reprovações, ressuscita do seu adormecimento a expressão “cultura de retenção”, eufemismo que serve para afirmar que as escolas e os professores, em vez de tentarem resolver verdadeiramente os problemas do insucesso, optam pelo facilitismo da reprovação.

 

João Costa, secretário de Estado da Educação, a uma pergunta sobre o elevado de número de retenções em algumas escolas, relembra a “cultura da retenção”:

“Estes dados refletem um problema conhecido e que justifica todo o investimento na promoção do sucesso escolar. Há uma cultura de retenção que atinge níveis muito preocupantes no ensino secundário.”

E ainda:

“A unidade de missão que coordena o Plano Nacional de Promoção de Sucesso Escolar está a trabalhar em conjunto com as escolas com piores resultados para as apoiar na sua autoavaliação e na avaliação da eficácia das suas medidas e em conjunto com as autarquias para estruturar medidas efetivas de apoio no que extravasa a competência da própria escola.”

Já lá voltaremos. Disparatemos um bocado, recorrendo a uma alegoria temperada com hipérboles, coisas da retórica. Da vida, portanto. [Read more…]

Leituras em dia de rankings

Em dia de divulgação dos rankings dos exames, aí ficam algumas ligações, sendo de saudar que alguma comunicação social já consegue fazer títulos sem que se caia na asneira de insinuar que os ditos rankings são um instrumento de avaliação do trabalho das escolas ou dos professores. Lede, leitores.

 

Colégios voltam a dominar o ranking dos exames (note-se: “dos exames”)

Os rankings escolares são como as omeletes

O “ranking” das escolas que mede o sucesso dos alunos

Da Causalidade Lógica e Factual

Ministro da Educação diz não ser “adepto” de listas

Há mais vida para lá dos rankings

Os rankings no Aventar

Os exames e as desigualdades sociais

Numa notícia com o título “Exames agravam desigualdades entre alunos e alimentam mercado das explicações”, divulga-se uma tese de doutoramento em Educação, dando, também, a palavra à autora. O título do estudo é Exames nacionais, apoios pedagógicos e explicações: a complexa construção dos resultados escolares em Portugal. Só é permitido o acesso a um resumo.

Embora a ideia de que os exames são causa das desigualdades entre os alunos não esteja presente no resumo, a autora afirma-o: «Andreia Gouveia afirma que é “inegável” que os exames são uma causa para o “agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar”.»

O Paulo Guinote pergunta, e bem: “A Ver Se Percebo… Se Acabarem os Exames Acabam as Desigualdades e os Pobrezinhos Passam Todos a Entrar em Medicina e Arquitectura e na Carreira Diplomática e Etc?”

Pois. A verdade é que os exames não são causa de desigualdade social, são, isso sim, um reflexo. De uma maneira geral, aliás, as desigualdades sociais são uma das causas das desigualdades nos resultados educativos, mesmo que muita gente teime em confundir os rankings com a Ovibeja. [Read more…]

Diálogo imaginário com Rodrigo Moita de Deus

Rodrigo Moita de Deus, tal como David Dinis, José Manuel Fernandes e Catarina Carvalho, puxou dos seus galões de “especialista” em Educação e, entre televisão e blogue, veio explicar tudo a todos. Como é habitual no mundo da comunicação social, não dominar um assunto é o primeiro passo para emitir opiniões sobre esse mesmo assunto. Rodrigo Moita de Deus preenche os requisitos.

Assim, resolvi simular um diálogo com o simpático ignorante, resumindo as declarações do programa O Último apaga a luz e aproveitando um texto do 31 da Armada.

 

 

Rodrigo: O PCP soltou Mário Nogueira da jaula em que estava fechado e disse “Ataca, Mário!”

Eu: Ó Rodrigo, tanto chá que o menino bebeu e vai tratar assim um adversário político? É feio, não é? Lá no fundo, o menino sabe que sim. É claro que o menino, para além de deselegante, quer deixar claro que pensa que isto é tudo uma questão partidária e que os professores, no fundo, são uns joguetes nas mãos dos comunas.

Rodrigo: A greve de professores prejudicou milhares de alunos.

Eu: Duas greves de um dia incomodam, com certeza, e o menino sabe que é um exagero falar em prejuízo, mas sempre gostaria que explicasse como é que se faz uma greve sem incomodar ou mesmo prejudicar. Talvez os professores devessem fazer greves só a partir da meia-noite.

Rodrigo: Pois, mas os professores são uma corporação que domina o sistema de ensino.

Eu: Ui, ó menino! A quantidade de gente que já disse isso! Há uns anos, uns amigos seus escreveram um livro e disseram o mesmo, tentando propagar o mito urbano de que os professores, ou os sindicatos dos professores, mandam no ministério da Educação. Deve ser por isso que os professores, tal como muitos outros, tiveram carreiras congeladas e salários cortados. Deve ser graças a esse poder que os muitos avisos acerca de questões curriculares e administrativas são completamente desprezados, como, por exemplo, o aumento do número de alunos por turma ou a criação de mega-agrupamentos ou a municipalização (deveria dizer-se caciquização) das escolas. [Read more…]

O cronómetro dos professores

Imaginai um maratonista a cumprir o seu dever, que é correr. A dada altura, alguém decide, talvez por falta de tempo (que é uma coisa que se gasta muito), desligar o cronómetro no momento em que o maratonista completa 10 quilómetros, voltando a ligá-lo quanto o atleta passa o vigésimo quilómetro. Acrescente-se que o maratonista chega à meta. Pergunto: tendo em conta que o cronómetro esteve desligado, o tempo deixou de existir ou a distância não foi percorrida?

Se uma situação destas ocorresse, seria natural que o corredor se revoltasse, porque cumpriu o seu dever, ficando sem saber quanto tempo efectivamente gastou. Por outro lado, não podendo a culpa ser-lhe imputada, poderia exigir que o tempo marcado no cronómetro fosse oficializado, o que lhe conferiria o recorde mundial da modalidade.

Os professores que, durante os últimos dez anos, cumpriram os seus deveres (haverá comentadores a garantir que eram uma minoria ou que muitos são esquerdalhos que merecem a forca) tiveram direito a carreiras congeladas e a cortes salariais. Entretanto, relembre-se, continuaram a correr, que é o seu dever. Inteiramente justo seria que o dinheiro desviado (assim mesmo: desviado) e o tempo de serviço fossem inteiramente repostos. Contudo, não se pede inteira justiça: pede-se, apenas, que se reponha o tempo de serviço, o que faria com que os professores fossem colocados no escalão em que deveriam estar, tendo em conta que – isso mesmo! – não deixaram de correr durante dez anos. Neste interim, as televisões aproveitam para mentir.

António Costa alega que o impacto orçamental seria incomportável. Apesar de tudo, tem a aparente honestidade de usar isso mesmo como argumento principal, ao contrário de outros, que alegavam a ausência de falsas avaliações para justificar a extinção das progressões. Ainda assim, nós sabemos que os dinheiros de Estado continuam a salvar bancos e a pagar parcerias público-privadas. No fundo, são diferentes formas de enganar os mesmos. É o centrão a empobrecer a Educação há, pelo menos, 12 anos.

É natural que os professores fiquem como o maratonista: sem fôlego.

David Dinis: mais um “especialista” em avaliação de professores

David Dinis, no Público de hoje, comenta as reivindicações dos professores, usando da mesma ignorância atrevida da maioria dos comentadores, o que será louvável, se tivermos em conta que há ali coerência.

Dinis relaciona a possibilidade de não haver reposição na carreira docente com a circunstância de  que que os professores seriam os únicos que não têm “um sistema de avaliação actualizado”. Na opinião do director do Público e ex-director do Observador, a culpa, em parte, é dos professores, porque recusaram os sistemas de avaliação criados por dois ministros.

O ex-director da TSF lembra Maria de Lurdes Rodrigues como a ministra que «ousou criar um novo sistema de avaliação dos professores.» O verbo ousar é evidentemente elogioso, colocando a antiga ministra num pedestal acima daqueles que rejeitaram aquilo que não era sistema de avaliação nenhum, mas sim – e apenas – uma maneira de impedir a maioria dos professores de atingir o topo de carreira.

Por outro lado, Nuno Crato «quis impor a alguns dos que ensinam o mesmo que se pede sempre aos alunos: um teste de avaliação, que acabou boicotado por muitos.» David Dinis ignora ou finge ignorar que Nuno Crato tentou impor uma prova de acesso à profissão a licenciados com estágio pedagógico já feito e, portanto, devidamente habilitados para dar aulas. Acrescente-se que, para se avaliar um aluno, não se pede apenas um teste de avaliação.

No fundo, David Dinis é mais um dos que afirmam que os professores não querem é ser avaliados, está-se mesmo a ver, até porque recusam todas as propostas de todos os ministros. Mesmo que fosse ou seja verdade, não seria esse facto a tornar virtuosos os dois sistemas referidos, exactamente porque não são, repita-se, sistemas de avaliação.

Como muitos outros, David Dinis usa um privilégio sem responsabilidade, limitando-se a soltar uns soundbites, sem ser obrigado a pensar muito no assunto, porque o que lhe interessa é o efeito, a criação de aparências. É a diferença entre comunicação social e jornalismo. David Dinis não pratica o segundo.

Lagarta na comida é um problema menor

Nos últimos dias, tem circulado um vídeo de uma lagarta a movimentar-se no interior de um prato de comida numa cantina escolar. Não quero, de maneira nenhuma, desvalorizar  a falta de cuidado ou de higiene dos responsáveis pela confecção de uma refeição, mas devo dizer que o mesmo já me aconteceu – e a muitos outros – há muitos anos nas cantinas por onde passei. Não é uma situação agradável, mas, apesar de tudo, é fácil de resolver, entre protestos e a remoção do bichinho.

Nos dias que correm, diria que é muito mais fácil descobrir lagartas numa refeição escolar, tendo em conta que os pratos estão desérticos. No meu tempo, a abundância exigia um olho clínico ou a experiência de um David Attenborough e não me admiraria que muita lagarta tivesse passado pelo meu aparelho digestivo. Mais: tendo em conta a qualidade de comida imposta aos alunos, a existência de lagartas no prato acaba por ser uma alternativa nutritiva, perdoe-se-me a rima. Já não deve faltar muito para haver um protesto de jovens esfomeados que não tiveram direito a lagarta, levantamento de rancho, bandejas pelo ar, o caos na escola. [Read more…]

É o tamanho das escolas e das turmas, estúpidos!

 

Há uns dias, li uma reportagem no Jornal de Notícias acerca do combate ao abandono escolar no concelho de Manteigas. O director do agrupamento fez referência, entre outros aspectos, ao facto de a escola e as turmas serem pequenas, o que, na realidade, é um dos factores fundamentais no combate aos problemas educativos.

Mas estás tu a dizer, ó Nabais, que basta acabar com os mega-agrupamentos e diminuir o número de alunos por turma para que, de repente, o mundo inteiro se ilumine e as crianças passem a tirar notas altíssimas e comecem a sentir um entusiasmo imediato pela vida escolar? [Read more…]

Professores, os que menos sabem de Educação

Pode ter passado despercebido a muita gente, mas os professores são efectivamente seres humanos, logo imperfeitos, falíveis por isso mesmo, dotados de imprescindíveis insuficiências sem as quais seriam divindades. Alguns são, até, redundantes, de tão preocupados em confirmar a humanidade da classe a que pertencem. Professores são, portanto, pessoas.

Em Portugal, há cerca de 140 000, contando com uns 30 000 que foram afastados das escolas graças a desculpas esfarrapadas proferidas em nome de uma dívida pública que continua a ser uma história tão mal contada como as que inventam cônjuges apanhados em flagrante delito de delírios carnais: no fundo, os sucessivos governos apanhados a entregar dinheiros nossos a privados desvairados também dizem coisas como isto não é o que parece ou eu posso explicar. Claro que há sempre quem goste de ser enganado, o que explica tanto voto nos do costume.

Entre esquerda e direita, em Educação, há umas alternâncias de discurso, mas um dos pontos comuns (espalhado, aliás, pela opinião pública) pode resumir-se na seguinte proposição: os professores não percebem nada de Educação e/ou estão completamente desactualizados. Esta crença é tão forte que leva ignorantes a pensar que dominam o assunto, chegando mesmo ao ponto de escreverem coisas. [Read more…]

E na Educação?

Nada se transforma, tudo se mantém. 

Educação, municipalização, privatização, corrupção

A municipalização da educação é mais um meio utilizado por este governo, num processo iniciado anteriormente, para desresponsabilizar o Estado numa área estratégica em que deveria ter um peso muito forte, livre das pressões do lucro ou das ingerências dos caciques autárquicos.

Durante muitos anos, os senhores do mundo têm andado a propagar a ideia de que tudo o que é estatal é mau e inimigo da liberdade individual e, sobretudo, da liberdade dos mercados, essa entidade sumamente boa e sem mácula que, deixada em paz, trará, imagine-se!, os amanhãs que cantam, quando, na realidade, a busca descontrolada do lucro é mais de meio caminho andado para o desrespeito pelos direitos individuais e pelo bem comum.

Num país em que os autarcas condenados por corrupção são incensados e os professores são, também por culpa própria, constantemente vilipendiados, a municipalização da educação é uma realidade cada vez mais próxima, mesmo que se saiba que isso implicará mais uma machadada na autonomia das escolas, expressão esvaziada por ser tão repetida e nada praticada. [Read more…]

Cheira-me a descoberta do fogo

O Conselho Nacional de Educação defendeu que é necessário recentrar a actividade docente, livrando os professores de muitas tarefas que lhes são atribuídas.

Nos últimos tempos, no campo da Educação, tem havido um rol impressionante de descobertas há muito descobertas e de invenções que já tinham sido inventadas há muito. Recentemente, o Paulo Guinote dedicou-se com mais alguma profundidade ao assunto das aparentes redescobertas.

Pela minha parte, embora com algum vernáculo à mistura, já tinha chegado a conclusões semelhantes às do Conselho Nacional de Educação, não porque seja (eu) especialmente brilhante, mas porque é suficiente ter alguns anos de serviço para se perceber que o tempo é um dos recursos mais importantes na vida de um professor, o que pode querer dizer que há falta de professores. [Read more…]

Exames, provas de aferição e o que importa

É possível conceber um sistema de ensino exigente, criativo e consistente com ou sem exames nacionais ou quaisquer outras provas externas às escolas. Importa, isso sim, conceber, isto é, pensar.

As decisões sobre a aplicação de exames ou provas ou o diabo a quatro não podem, no entanto, estar sujeitas a tiques, modas ou alternâncias políticas entre caranguejolas, geringonças ou outros veículos. Importa, isso sim, pensar, ou seja, conceber.

Deste modo, não faz sentido impor exames nacionais com o argumento de que só assim o sistema poderá ser exigente, como é absurdo banir os mesmos exames porque havia algo parecido ou igual no tempo da outra senhora ou porque a maioria do mundo não faz assim. Importa, mais uma vez, pensar. Pensar sobre os instrumentos e a sua utilidade.

Este governo, no que se refere à Educação, limitou-se a uma certa cosmética de esquerda (de que são provas o fascínio pela “flexibilização” ou o horror aos exames enquanto coisa fascista), mantendo o essencial que a direita, desde Maria de Lurdes Rodrigues, impôs, o que inclui congelamentos e, sobretudo, a degradação das condições de trabalho dos professores. [Read more…]

Um “ensino orientado para a vida”

É assim há muitos anos: entre alternâncias aparentes e reais continuidades, o Ministério da Educação é uma mina de veios já demasiado explorados. Ao longo dos anos, esquerda e direita (também sempre mais aparentes do que reais) limitam-se a povoar a Educação com os respectivos tiques, dificultando, de modo contumaz, a vida das escolas. Na realidade, o que lhes interessa é diminuir a massa salarial, desiderato alcançado por Sócrates e Passos Coelho, graças a alterações de carreira, modificações nos horários e congelamentos.

João Costa, secretário de Estado da Educação, debita, numa entrevista recente, lugares-comuns, disfarçando mal o complexo de superioridade de quem julga ter descoberto o fogo ou inventado a pólvora.

É evidente que não é possível nem desejável rebater a maior parte das afirmações de João Costa, exactamente por serem lugares-comuns. A maioria dos professores, por incrível que pareça aos iluminados de gabinete, já descobriu a importância das pedagogias alternativas, das novas tecnologias ou da realização de projectos (essa mesma maioria de professores tem-se confrontado, também, com crescentes bloqueios no que se refere a condições de trabalho). [Read more…]

Sucesso escolar, pólvora, fogo, roda

Há alguns dias, o Ministério da Educação voltou a descobrir o fogo, a inventar a pólvora e a criar a roda ou vice-versa. Graças a um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas, conclui-se aquilo que já se sabe há muito tempo sobre os factores que influenciam o sucesso escolar: “o contexto socioeconómico continua a ser determinante.” Relativamente a um estudo anterior, relativo ao terceiro ciclo, já o ministério tinha reconhecido o mesmo.

É certo que, nos últimos anos, a mesma entidade, com outros ministros, tem tentado refutar a realidade. Nos finais do consulado socrático, chegou a publicar-se uma espécie de estudo cujas conclusões chocavam de frente com a realidade: com a coordenação de Cláudia Sarrico, afirmava-se que o sucesso dos alunos dependia pouco dos pais, ou seja, que o contexto socioeconómico era factor de pouca importância. Aqui pelo Aventar, o tema foi abordado várias vezes, não sendo difícil, na rede global, descobrir gente que trata o assunto com seriedade.

Com a chegada de Passos Coelho, Nuno Crato, aludindo à existência de estudos com títulos desconhecidos (técnica muito utilizada pelos políticos), insistiu na ideia de que os problemas dos alunos seriam resolvidos desde que os professores fossem bons. Logicamente, o insucesso dos alunos seria sempre da responsabilidade dos professores. Estas afirmações e outras tornaram fácil tomar medidas como, por exemplo, a de aumentar o número de alunos por turma: se a qualidade do professor fosse um factor determinante, a quantidade de alunos dentro da sala perderia importância.

A (re)descoberta da importância do contexto socioeconómico deveria obrigar qualquer governo a perceber que o sucesso escolar é uma questão social que não pode ser resolvida apenas pela escola. A esperança de que esta redescoberta tenha efeitos nas políticas, no entanto, é ténue, porque o que é preciso é evitar reprovações a qualquer preço, sem, na realidade, se perder tempo a pensar nos problemas sociais e educativos. O que vale é que, qualquer dia, volta um ministro que desvalorizará a importância do meio socioeconómico a quem sucederá um outro de sinal contrário, de adiamento em adiamento até à indecisão contínua.

Educação em Gondomar: Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal

 

 

 

 

 

 

 

 

Exmo. Senhor,

Venho por este meio protestar veementemente, mais uma vez, devido às condições físicas da Escola E B 1 do Alto de Soutelo
Na última aula de Educação Física, a minha filha ficou toda esfarrapada quando caiu ao chão no decorrer de um exercício. Braço, joelho, anca e mãos muito magoadas.
Tudo porque o chão da escola é uma vergonha que não se admite num país civilizado, quanto mais num concelho, como Gondomar, que se diz desenvolvido.
Não vale a pena alegarem falta de dinheiro. Não é necessário dinheiro para pegar numa máquina e limpar aquele cascalho todo que alguém um dia decidiu lançar sobre o piso da escola.
Dinheiro não. Vontade política. Apenas e só!
Compreendo que os Centros Escolares sejam mais atractivos em tempo de eleições. Afinal, a Escola E B 1 do Alto de Soutelo é muito pequena. Rende poucos votos.
Já agora, relembro mais uma vez que a passadeira que serve os alunos da escola é uma pouca-vergonha. Uma passadeira que vai dar a uns contentores do lixo, que está sempre ocupada por carros e que, de resto, praticamente já desapareceu.
Deixo algumas fotografias para que o senhor ou alguém ponha a mão na consciência. Para que alguém pense na negligência que representa toda esta situação.
É que, um dia, a negligência transforma-se em crime.
Aqui estarei se for esse o caso.
Cumprimentos.

As competências cognitivas de uma professora


E é isto.
Argumentos a favor da tolerância de ponto? Ok, com algum esforço, embora sem qualquer convicção, posso arranjar alguns. País maioritariamente católico, milhares de pessoas a caminho de Fátima, tradição.
Mas há quem tenha outros argumentos. Há quem seja a favor da tolerância de ponto porque assim não tem de ir trabalhar. Porque não é aumentada e tem horários sobrecarregados e é diariamente sujeita a atropelos.
Sobre a questão de fundo? Não, estes argumentos são mais do que suficientes. E quem não concordar que vá para a Venezuela.
O que assusta não é a opinião isolada de uma analfabeta. Assustador é mesmo ter ouvido exactamente os mesmos argumentos da maior parte das pessoas com quem tentei falar sobre o assunto.
Medo, muito medo. [Read more…]