Foi-se o encanto

Foi-se o encanto

 Muito difícil é desembarcar, digo eu que nunca fui marinheiro. Não consigo acostar o barco. Há sempre uma onda e outra e depois outra. Mesmo que o mar esteja manso, ou se é da terra ou se é do mar.

 No dia em que eu voltar e vir a figueira com figos e a erva a crescer no merujo reluzente de prata das noites de luar, no dia em que eu voltar, vestido de ilusão, a olhar o mar e acreditar, nesse dia não chames por mim.

 Mata-me a memória e a história, não deixes que viva uma hora descrente ou indiferente. São duras as horas e os minutos das palavras descrentes, indiferentes, alheias, adiáforas, frias, incuriosas, passivas. Uma espécie de árvore seca sem frutos nem sementes. Um vento áspero que perpassa por entre os dedos dormentes. É cruel a falta de palavras. São dolorosas as palavras indiferentes.

 Na cegueira dos olhos sumidos de chorar sem lágrimas a noite ruidosa dos segredos, não há coisa mais triste do que olhar a chávena sem palavras cheias. Foi-se o encanto, e a poesia não passa de um saquinho de açúcar rasgado sobre a mesa abandonada do café vazio.