Post scriptum

No passeio de lá, apareceu de repente o meu pai. A minha cabeça sabia, e soube-o durante todo o tempo que a cena durou, que não podia ser o meu pai. As pessoas mortas não passam do lado de lá da rua, embora haja aquela história muito bela do Juan José Millás, de quando ele era pequeno e acreditava que quem morria ia viver para o bairro dos mortos, nos arredores da cidade. A minha cabeça sabia que não era possível, mas o meu coração acreditou, por instantes. E por isso bateu um pouco mais depressa. E as pernas, que sabem aquilo que a cabeça lhes diz, desta vez deixaram-se enganar pelo coração e tremeram. Em seguida, a cabeça recuperou o domínio sobre todos e lembrou que não, não pode ser, aquele homem, reparem bem, não pode ser ele e não é ele. É certo que o recorda um pouco, no cabelo, no casaco, no jeito de andar, mas nada mais. Aquele homem é um desconhecido. Não batemos, coração, mais depressa por um estranho. Nem trememos, pernas, por desconhecidos do outro lado da rua, que não nos perseguem nem ameaçam, nem sequer reparam em nós. Vamos lá recuperar o bom senso. [Read more…]

Fidelizados até 2016

Há dias ia eu no metro, sentada ao lado de uma desconhecida de aspecto simpático. A certa altura ela atendeu o telemóvel, respondeu que era a própria, disse uns quantos sins e nãos, e rematou com um imperioso “não posso, estou fidelizada até 2016”.

Uma afirmação extraordinária, pareceu-me. O grau de certeza no futuro que implica aquele “estou fidelizada até 2016”! Os outros, os da concorrência com a qual ela não está fidelizada, telefonam-lhe, acenam-lhe com promoções, descontos, regalias, um autêntico canto das sereias das telecomunicações, e ela, amarrada ao leme do contrato que a obrigaria a pagar as mensalidades todas até 2016, não ouve, não vê, prefere nem saber. Quando muito, indica-lhes o mês em que o contrato vencerá para que lhe liguem por essa altura com as suas melhores ofertas.

Ela provavelmente não saberá, nem ela nem ninguém, se em 2016 terá trabalho, se viverá na mesma casa, se manterá a mesma relação amorosa ou o mesmo celibato, se terá saúde, se será mais gorda ou mais magra, se será feliz, mas sabe que terá a mesma operadora de telemóvel. Já é qualquer coisa. [Read more…]

O cano de uma pistola pelo cu

Juan José Millás

Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado parvos-, a economia financeira está para a economia real como o senhor feudal para o servo, o amo e o escravo, a metrópole para a colónia, o capitalista de Manchester para o operário sobre-explorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com o corpo de uma criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes a teres semeado. Na verdade, e sem que tu saibas da operação, pode comprar-te uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer. Se baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas – e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Estamos a falar, exemplificando, da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país, este, vai dar ao mesmo, e diz “compro” ou  diz “vendo” com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vendem propriedades imobiliárias a fingir. [Read more…]