Simples, não pagamos!

Felizmente percebo mais de bola do que de economia e por isso, continuo pobre. Não há aposta desportiva que resista a tanta ignorância. Ora, nas questões económicas sou mestre em procurar que no fim do dinheiro sobrem poucos dias, mas estou longe de ser um Jesus da alta finança.

Mas, não é preciso ser grande bisca nestas coisas para perceber que não é possível pagar a dívida do país e por isso os verdadeiros objectivos dos laranjinhas são outros: privatizar saúde, educação e água; baixar o custo do trabalho e refazer o estado salazarento.

Entendo e subscrevo o Manifesto dos 70, mas palpita-me que nem assim a coisa lá vai. Se eu só conseguir ganhar 100 euros por mês e tiver 20 meses para pagar a  minha dívida, segundo contas de alguns dos subscritores, seria necessário que a economia gerasse um crescimento de 7% todos os 20 meses, ou seja, seria necessário que em vez dos 100 euros eu conseguisse ganhar 107 todos os meses. Acontece que isso é praticamente impossível e quase nunca aconteceu. Logo, por maioria de razão, não vai acontecer.

Assim, a dívida não pode ser paga. Assumir a sua reestruturação é um primeiro passo que me parece acertado e equilibrado. É este o caminho. É por isto que o BE, o PC e o PS devem lutar. Desde já.

E pudesse eu pagar de outra forma…

Abordei aqui a relação que existe entre investimento público em infraestrutura e urbanização desenfreada.

Provei por A mais B que, ao contrário do que muito boa gente pensa, é o primeiro que anda a sustentar a segunda e não o contrário. Falarei agora da corrupção conexa.

O que me deixa perplexo é que precisamente quando o promotor compensa o município de alguma forma, toda a gente grita MAROSCA. É algo que sinceramente não consigo perceber: quando existem compensações é quando a desproporção entre investimento público e receita decorrente da urbanização pode ser mitigada.Será porque pelo facto de as compensações quando ocorrem adquirirem visibilidade,  e quando elas não ocorrem ninguém dá fé.

O problema das compensações não é elas existirem, é elas não existirem. Ora ponham-se no lugar de um promotor. O gajo pensa assim: bem, vou ter de pagar as obras de infraestruturação local, vou ter de ceder terrenos para equipamentos, vou, eventualmente, ter de realizar obras que mitiguem as externalidades provocadas pelo empreendimento, poderei mesmo assim de ter de pagar mais em terrenos ou em cash.

Se pagar, não é porque seja um gajo porrreiro. É porque a autarquia anda a funcionar como deve ser. Como o fulano, não tem perfil de filantropo, pensará : Não haverá maneira de pagar um pouquito menos, ou, como diziam os Ornatos Violeta, pela voz do Manel Cruz  (para quem não sabe é filho do nosso Adão), … e pudesse eu pagar de outra forma. Que tal em vez daquela pipa de massa, chegar ao pé do excelso autarca, atirar-lhe com os trocos para o partido, para o clube de futebol local ou para o próprio? É capaz de sair mais barato. E se eu convencesse o gajo, a fazer aquela estrada que tanto jeito me dava, e pelo caminho reclassificasse aquele terreno agrícola que tenho debaixo de olho. Capice?

Daí que o discurso de Calimero dos autarcas seja o do tão coitadinhos que nós somos, a massa que a Administração Central transfere nunca chega para o gasto. Pudera.

 

Nota: na sequência do novo Regime dos Instrumentos  de Gestão Territorial (380/99) veio consagrado o princípio da compensação ou perequação, que têm vindo a ser incorporado, bem ou mal, nas revisões dos PDM e tem tido alguma tradução nos novos regulamentos de taxas e compensações, nem sempre da mellhor forma é certo. O cenário já não é tão negro como o acabei de pintar.