Uma cidade a cair para cima

Rua de Santa Catarina

Rua de Santa Catarina (Porto)

Sou uma pessoa a quem caem coisas aos pés. Já me caiu uma telha, com um grande bloco de cimento abraçado a ela, e ainda hoje se pode ver, no prédio devoluto do qual ela se lançou, o buraco que ficou em seu lugar. Já me caiu um gato, que se desequilibrou da janela. Já me caiu um pedaço de persiana, arrancada pelo vento. Já me caiu uma cobra, tombada do cimo de um muro numa ruela de Paranhos. Já me caiu uma cobertura de plástico, que a julgar pelo ruído devia pesar muito, e que se abateu de um prédio de Gonçalo Cristóvão à minha passagem.

Caem-me coisas e a minha sorte é que, até à data, caíram-me sempre aos pés, e nunca na cabeça, caso contrário o Aventar teria menos uma autora, sobretudo naquele dia da telha. Caem-me coisas e eu resignei-me à ideia e as pessoas a quem, ao longo dos anos, fui contando estes episódios também se resignaram e apenas foram comentando “Olha se te acertava na cabeça”, hipótese para a qual fiquei, de facto, a olhar durante um bocado, porque há um certo prazer macabro em deleitar-nos no horror quando sabemos que nos livrámos dele. [Read more…]

Esta cidade morre a cada dia

Rua Formosa, ontem à noite No Porto ruiu mais uma casa. Desta vez foi um primeiro andar inteiro e só o facto de àquela hora, cerca das 23h00, não ir a passar ninguém, evitou que alguém ficasse ferido. É assim esta cidade, arruína-se aos poucos. Todos os dias caem pedaços de azulejos das fachadas, bocados de estuque, fragmentos de telhas. Não vai há muito, passava eu do outro lado da rua, vi cair umas enormes lâminas de vidro do prédio que ruiu ontem à noite. Mais uma vez por sorte, não passava ninguém nesse momento. Esta cidade desintegra-se minuto a minuto. Esvoaçam das fachadas arruinadas uns farrapos de cortina enegrecida pelo tempo e pelo pó. Vemos a cidade morrer a cada dia à nossa passagem, e as ruínas que ainda se aguentam de pé acabarão por desabar, em dia e hora incertas. Passam as caravanas partidárias, absurdamente ruidosas, e fica o silêncio de uma cidade envelhecida, empobrecida, desolada na sua solidão de granito que se vai esboroando.