Uma cidade a cair para cima

Rua de Santa Catarina

Rua de Santa Catarina (Porto)

Sou uma pessoa a quem caem coisas aos pés. Já me caiu uma telha, com um grande bloco de cimento abraçado a ela, e ainda hoje se pode ver, no prédio devoluto do qual ela se lançou, o buraco que ficou em seu lugar. Já me caiu um gato, que se desequilibrou da janela. Já me caiu um pedaço de persiana, arrancada pelo vento. Já me caiu uma cobra, tombada do cimo de um muro numa ruela de Paranhos. Já me caiu uma cobertura de plástico, que a julgar pelo ruído devia pesar muito, e que se abateu de um prédio de Gonçalo Cristóvão à minha passagem.

Caem-me coisas e a minha sorte é que, até à data, caíram-me sempre aos pés, e nunca na cabeça, caso contrário o Aventar teria menos uma autora, sobretudo naquele dia da telha. Caem-me coisas e eu resignei-me à ideia e as pessoas a quem, ao longo dos anos, fui contando estes episódios também se resignaram e apenas foram comentando “Olha se te acertava na cabeça”, hipótese para a qual fiquei, de facto, a olhar durante um bocado, porque há um certo prazer macabro em deleitar-nos no horror quando sabemos que nos livrámos dele.

Caem-me coisas, pronto, e vivo numa cidade onde caem coisas com muita frequência. Caem pedaços de parede, caem azulejos, caem lâminas de vidro como guilhotinas das janelas de edifícios em ruínas, caem tijolos que se escaqueiram no chão. Se não estivesse escorado, provavelmente já teria caído o Bolhão. Até caem prédios inteiros (lembram-se dos antigos armazéns Lã Maria, na rua Formosa?). Para averiguar o que pode cair de cada edifício basta ver, na manhã depois de uma noite de ventania, o tipo de fragmentos espalhados pelo chão.

Vivo numa cidade onde é normal um desconhecido dizer-nos “tenha cuidado que isso está a cair”, coisa que se agradece enquanto se desce o passeio e se contorna a fachada em ruínas, e se retribui passando a informação à pessoa que vem em frente, “tenha cuidado que isso está a cair”, passando a integrar, desta forma, uma cadeia de alertas cidadãos, solidariedade entre conterrâneos, como se tivesse havido um bombardeamento e vivêssemos todos entre destroços. Liga-se aos Bombeiros, à Protecção Civil, à Câmara e o que estava a cair continua a cair. Se ligássemos à Rádio Táxis, ao Clube dos Fenianos, ou à Central da Borracha teria o mesmo efeito.

Esse prédio terá um dono, um longínquo e obscuro cidadão, cuja existência nem sequer está inteiramente provada, e que, a existir, não costuma passar por ali, ou então trata-se de um edifício público, em cujo caso o problema é de mais difícil resolução porque ninguém se ocupa, ninguém assume a responsabilidade, ninguém se importa com o que possa acontecer, até ao dia em que um edifício desabe em cima de alguém, o que provavelmente tampouco mudará muito a situação, excepto para a azarada vítima.

A Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) avança a um ritmo que possibilitará a recuperação da totalidade dos edifícios degradados quando talvez já a costa marítima portuguesa estiver inteiramente submersa, vítima do presumível aquecimento global.

Não há dinheiro, não há vontade, é o centralismo, é a lei das rendas, são as finanças que recusam a isenção de IMI aos prédios reabilitados na baixa, é a regionalização que não avançou, é o modelo de reabilitação da SRU que transforma casas antigas em apartamentos absurdamente caros, é a falta de iniciativa privada, é a emigração, é o envelhecimento, é tudo a contribuir para a agonia da cidade.

E assim continuamos a assistir ao seu desmoronamento em câmara lenta e a tapar a cara de vergonha quando os turistas se detêm frente às fachadas do centro, ou ao que delas ainda resta. Sim, a cidade é granítica, cinzenta, austera. Abaixo da linha de telhados irregulares avista-se ferrugem e pedra esboroada, manchas de humidade, líquenes a crescerem como chagas nas paredes. Os anos pesam-lhe como um reumatismo num corpo muito velho. Tudo a puxa para o chão, tudo a faz pesada. E no entanto, até o granito pode flamejar e erguer-se em direcção aos céus.

Há dias fui ver “A Torre dos Clérigos e os seus fotógrafos”, no Centro Português de Fotografia e assim fiquei a saber que, em 1917, dois homens treparam pela Torre, subiram até ao alto, onde fizeram acrobacias, e desceram, sem cordas, sem protecção contra quedas, sem utensílio algum, simplesmente com o impulso dos pés e a força dos braços. A cinemateca guarda o filme que Raul de Caldevilla fez do grande feito e podem vê-lo na exposição ou aqui (a partir do minuto 03:07). Foi um grande acontecimento na cidade, desses que alimentam a imaginação durante anos, contados pelos pais aos filhos e logo aos netos. Os dois homens, José e Miguel Puertollano, eram pai e filho, vinham da Galiza, e, tanto quanto se sabe, foram contratados para uma acção publicitária para uma marca de bolachas.

Nos movimentos destes homens não há hesitações nem sobressaltos, tudo parece de uma maravilhosa simplicidade, e 75 metros de granito não mais do que um divertimento infantil. A Torre parece o seu elemento natural, como se vivessem nas suas paredes, e a escalassem de manhã à noite. Daí que nem precisem de roupa apropriada, vão com suspensórios, sapatos normais, até gravata, como se tivessem saído do escritório e decidissem, numa dessas ideias repentinas que os burocratas também têm, escalar a Torre.

Se quando eram miúdos alguma vez sonharam que eram capazes de voar, e ao acordar mantiveram por instantes a crença de que podiam fazê-lo, entenderão que eu vos diga que saí de lá convencida de que podia trepar pela Torre dos Clérigos. Passou rápido, claro, bastou chegar cá fora e olhar para ela, ali ao lado, e deu-me logo uma vertigem, daquelas que só passam com um cimbalino. Mas sobreviveu a ideia de que o pesado se pode fazer leve ao ponto de, e eu sei que isto é absurdo, andar há dias a pensar que a decrepitude da cidade se podia inverter e o velho começar a cair para cima, a perder-se na estratosfera, e em vez de se desmoronar, a cidade se fazer cada vez mais leve, como se flutuasse, como se pudesse erguer-se do chão.

 

Comments

  1. subcarvalho says:

    okupe-se…e logo vêm “eles” dar conta que são os donos e senhores de tais imóveis!…e volte-se a okupar…

  2. Joaquim Carlos Santos says:

    Rui Rio é bom rapaz. Ágil e expedito como uma tartaruga centenária das Galápagos. Recuperar edificado? Devagarinho. Reservar o Centro Histórico recuperado e luxado a quem o pague, isto é, à nata financeira e social da cidade? Siga. Rui Rio, e provavelmente assim será Rui Moreira, é um bombardeiro da 2.ª guerra que se esqueceu de bombardear uma cidade qualquer, abduzido pelo Triângulo das Berlengas. E agora está aí para dar sequência à missão.

    Há tempo. Calma. As bombas são o descaso. As bombas são a lentidão prudencialista e casuísta do que deveria ser uma estratégia holística bem pensada e melhor gizada para evitar telhas e placas a despencarem sobre as nossas cabeças, a nossa pena e a dos turistas encantados com as nossas sintomáticas ruínas. Trocava mil e uma PPP socialistas-salgadistas por um Porto endividado, mas virado do avesso, capaz de encaixar mais e mais turistas e encantá-los e seduzi-los ainda mais. O Porto foi feito para ter gente. Para ser habitado. A contenção de Rui Rio não salvou o País. Foi a contenção dos avaros. O avaro nem faz bem nem deixa que seja feito e reproduzido. Fica com a moeda na mão a criar pátina.

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