Postcards from Romania (9)

Elisabete Figueiredo

No monte Tampa, afinal, é Portugal

No monte Tampa, afinal, é também Portugal. Bem sei que não é belo postal ilustrado. Mas não interessa, ou interessa? Há nisto qualquer coisa de caseiro, digamos. Reconfortante, se quiserem, de uma maneira absolutamente absurda.

Encontro a família de romenos que fotografei ontem em Bran. Acenam-me muito. Aceno-lhes muito, de volta. Rimo-nos. Que podemos fazer mais?

O café romeno sabe a caganitas de rato. Juro. Nunca provei caganitas de rato, mas tenho a certeza, ao beber este café impossível, que é assim que sabem. Desço o monte, outra vez de teleférico. Venho eu, apenas, e o maquinista que me ensina (agradeço-lhe a distração) a pronunciar corretamente ‘multumesc’. Ensino-lhe a dizer obrigada. La revedere e vou em direção à Biserica Neagra, que é como quem diz a Igreja Negra. Sosseguem, nada tem a ver com cultos satânicos ou vampiros. Apenas com um incêndio que a deixou negra, ainda que intacta. Lá dentro um enorme órgão de tubos, desenhado por Bucholz. Gosto de órgãos de tubos e de acender velas nas igrejas. Por causa das velas, não das igrejas. Se calhar é o mesmo. Na Biserica Neagra não há velas, de modo que me sento a observar o órgão que é impressionante. 4000 tubos. Belíssimo. [Read more…]

Postcards from Romania (8)

Elisabete Figueiredo

Brasov, subindo o monte Tampa

Tenho vertigens. Muitas. Ao ponto de as cidades e os campos se porem a rodar quando me atrevo, o que é quase sempre, a subir muito alto. Uma vez subi num teleférico de esqui mais de 2000 metros. Foi em Salzburgo e posso jurar que as montanhas estavam vivas e rodopiavam… sim, uma alusão fácil ao filme ‘Música no Coração’. Whatever.

Apesar das vertigens, resolvo subir o monte Tampa de teleférico. 1000 metros ‘apenas’. O teleférico é pequeno, não caberão mais de 10 pessoas. Vamos 10 exatamente.  Começa a subir e é quase a pique que a traquitana vai.

Penso na balança que vi no dia anterior no castelo de Bran. Uma balança para pesar almas. Parece que as almas dos aprendizes de satanás, podia ler-se, são mais leves que as das outras pessoas. É curioso. Se alguma vez tivesse pensado nisto, diria que era justamente o contrário. E começo a desejar que sejamos todos aprendizes de satanás, dentro do teleférico, just in case.

Lá em cima, a vista compensa os maus pensamentos. Evito chegar-me à beira dos varandins. Gosto de sítios altos porque tudo, cá de cima, parece um mapa. Quer dizer, acho eu que é por isto. Que outra razão poderia haver para me sujeitar a tal suplício?

O teleférico conduz-nos a um bosque, caminho uns bons 20 minutos até chegar às traseiras das letras gigantes:

B R A S O V

que se veem de toda a cidade.

(Brasov, 9 de Agosto de 2012)