A single postcard from Krakow

«Sou muito cosmopolita…

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sinto-me o mesmo desgraçado em toda a parte», escreveu Manuel Rivas, num livro de crónicas que li há uns anos. Pensei nisto hoje quando realizei que tinha tomado o pequeno almoço em São Petersburgo, o almoço em Moscovo, o lanche em Viena e o jantar em Cracóvia, onde estou neste momento. Não que me sinta desgraçada, ou sequer cosmopolita, mas a frase de Rivas veio-me à cabeça. Por muito que andemos, por muito que vamos e regressemos a casa, somos sempre os mesmos, pelo menos no modo como sentimos as coisas, no modo como olhamos para as coisas.

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From Russia, with love #12 (Saint-Petersburg)

Faço as minhas despedidas de São Petersburgo

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já que é o último dia que passarei aqui. Não sei se voltarei aqui, ou a outro lugar qualquer da Rússia. Não que ache que São Petersburgo (e Moscovo também) me tenha tratado mal. Ao contrário, achei, como já disse noutros postais, a cidade bastante amável em vários sentidos, desde as ruas, aos monumentos, às abóbadas das igrejas, até às pessoas. Também o tempo esteve generoso e amável. Choveu pouco e por pouco tempo. O que, ao que parece, não é assim tão comum.
 
Quando saí do hotel fui à praça dos teatros, ainda não tinha visto o Mariinsky. Gostaria de ter visto um ballet no teatro onde atuaram nomes importantíssimos como Rudolf Nureyev ou Mikhail Baryshnikov (este último tive o imenso prazer de o ver numa peça no Petit Palais, em Paris, em janeiro). Mas os bilhetes eram extremamente caros para os meus bolsos e, por isso, perdi provavelmente a única oportunidade de ver alguma coisa neste teatro. Também em Moscovo não fui ao Bolshoi. O preço dos bilhetes era proibitivo, mas estava também encerrado em agosto.

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From Russia, with love #11 (Saint-Petersburg)

Os gatos de São Petersburgo

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Podia concentrar-me no cruzador Aurora ou na Fortaleza de Pedro e Paulo, mas acho que prefiro falar sobretudo dos gatos de São Petersburgo. Talvez esteja já cansada de ver coisas que devem ser vistas, quero dizer, coisas que deveria ver sem falta uma vez em São Petersburgo e, por isso, talvez prefira concentrar-me naquilo que há em toda a parte: os gatos, os pardais, as pessoas e o vento.
 
Apanhei hoje, já não era cedo, o autocarro número 1 na avenida Nevsky. Atravesso a ponte Devortsoviy para a ilha de Vasileostrovsky e depois de contornada a Birzhevaya, a ponte Birzhevoy para Petrogradsky. Saio no cruzamento da rua Pushkarskaya com a rua Lenin e um bocadinho à frente apanho o pequeno autocarro K30 para perto da ponte Sampsonievskiy. O meu destino é o cruzador Aurora, ancorado na Petrogradskaya. O barco do século XIX que faz parte do património histórico da cidade. Participou em algumas guerras, mas ficou famoso por ter lançado o tiro de canhão que foi a senha para que os bolcheviques invadissem o Palácio de Inverno (que integra o Hermitage, ver postal de ontem), antiga moradia do Czar Nicolau II. O Aurora foi um dos maiores símbolos da URSS. Hoje é um museu.

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From Russia, with love #10 (Saint-Petersburg)

… a battle field that only needs a name*

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Encontrei Anselm Kiefer hoje no Hermitage, no Palácio de Inverno e foi um encontro inesperado, já que não havia lido nada sobre as exposições. Mal subi as escadas de Jordan, cheias de dourados a reluzir e de pessoas, fui ter à sala 197 e dou com a exposição de Kiefer ‘For Velimir Khlebnikov’. Fiquei tão contente que me pus quase a dançar no meio das salas, 3, cheias de quadros enormes, lindos. De quadros em que apetece mergulhar, como sempre digo. Kiefer criou estes 30 quadros em homenagem ao poeta futurista Khlebnikov. Não costumo colocar fotografias de quadros nos postais ou onde quer que seja. Os quadros são para serem vistos ao vivo e não assim, mas hoje abro uma exceção. Afinal, este encontro inesperado merece ser registado.

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From Russia, with love #9 (Saint-Petersburg)

São Petersburgo é o lugar menos turístico do mundo,

se apanharmos, na Admiralteyskiy, o autocarro número 10 para Troitskiy pr. É aqui que fica, no cruzamento com o Izmailovskiy pr. a catedral da Trindade. A mesma que vi ontem do alto da ‘colonnade’ da Catedral de Santo Isaac, com as enormes cúpulas azuis, com estrelas douradas a destacarem-se belíssimas no horizonte. Quando saí quase em fren

 

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te da igreja, despertou-me a atenção a enorme coluna com um anjo em cima, rodeada de canhões. Parece que é uma homenagem aos soldados russos. Atrás dela a Catedral da Trindade, linda e branca, com as suas enormes cúpulas azuis e douradas. Fotografo as cúpulas de vários ângulos. Depois entro. Há senhoras a pedir à entrada da igreja. Não se vê um turista nas redondezas. A não ser eu.

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Fom Russia, with love #8 (Saint-Petersburg)

‘What’s left when everything’s gone?’

 

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Suponho que as memórias. O registo dos momentos que inexoravelmente se transformam em passado. O que é que temos a não ser esses momentos? O que é que fica quando tudo acaba, ou se vai embora, ou deixa de ser?
Hoje visitei um museu extraordinário e tive uma experiência fora do comum. O museu chama-se Erarta*, descobri-o quando pesquisei ‘museus de arte contemporânea em São Petersburgo’. Fica na ‘ilha’ Vasileostrovsky, do lado de lá do Neva, a 5,3 quilómetros do sítio onde me encontro. Apanhei o trolley nº 10 (mas também podia ser o 11 ou o 7) e lá fui eu. Em cerca de 20 minutos e por 40 rublos parei quase à porta deste belíssimo museu, o maior de arte contemporânea da Rússia.

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From Russia, with love #7 (Saint-Petersburg)

É outono em São Petersburgo e um gato apanha uma réstia de sol numa janela do Museu Russo

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Em muitas cidades tenho encontrado gatos nos museus. Gatos vivos, quero dizer, embora também alguns pintados. Estava um gato no beiral de uma janela do Museu Russo, a apanhar restos de sol, que chegaram depois da chuva torrencial. O gato estava seco, no entanto. Bati no vidro para lhe chamar a atenção, mas ignorou-me absolutamente, como se não houvesse mais nada entre ele e os raiozinhos tímidos de sol. E talvez não haja.

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From Russia, with love #6 (Moscow – Saint-Petersburg)

Cheguei a Leninegrado,

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ou Petrogrado ou São Petersburgo, como lhe queiram chamar. Eram cinco e meia da tarde quando o Sapsan, ou ‘falcão peregrino’ parou na estação Moscovo. Mal saio da estação, onde contei com a boa vontade de estranhos, como sempre, para descer as escadas com as malas, vejo um reclame no alto de um prédio: город горой Ленинрадюю. Qualquer coisa como ‘cidade heroica Leninegrado’. Pareceu-me um bom prenúncio.
 

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From Russia, with love #5 (Moscow)

‘Yo soy comunista’…

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disse-me um senhor basco que encontrei junto à estátua de Marx, esta tarde, pondo-me a mão sobre o ombro, erguendo o punho esquerdo e começando a cantar, em castelhano, a Internacional. Tive de lhe dizer que se erguia o punho direito, ‘mas em Espanha, erguemos o esquerdo’, e fez-me a vontade. Ergui eu também o punho, e fui cantando em português. A filha, uma miúda anarquista, segundo o pai, tirava fotografias e ria-se. Eu também me ri, como é evidente. Coisa mais inusitada, cantar em ‘portunhol’ a Internacional, diante da estátua de Karl Marx, ali ao lado da Praça Revolução, em Moscovo, às 5 da tarde.

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From Russia, with love #4 (Moscow)

 Visitei hoje o Camarada Lenine…

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… e encontrei-o com bom aspeto e boas cores, sobretudo para quem está morto há 93 longos anos. O Camarada Lenine repousa num feíssimo, escuro e frio mausoléu no centro da Praça Vermelha. Quero dizer, aquilo que resta do Camarada Lenine, praticamente pele e ossos, repousa no mausoléu bem no centro da Praça Vermelha. Não tem sangue, nem cérebro, nem vísceras, mas suponho que não lhe façam falta nenhuma, assim como assim. De 18 em 18 meses o corpo é retirado do mausoléu e submetido a diversas operações de conservação*. Li algures que lhe limpam e passam o fato também nessa altura e que de três em três anos lhe compram um novo. Parece que custa muito dinheiro à Federação Russa manter o corpo de Lenine.

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From Russia, with love #3 (Moscow)

Dos heróis caídos…

 

 

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assim chamam à parte do Parque-Museu das Artes, que ocupa a parte norte do Parque Gorki. Há quem lhe chame parque, mas a maior parte das pessoas refere-se-lhe como ‘cemitério dos monumentos caídos. Além de uma impressionante coleção de estátuas, nem todas dos heróis soviéticos derrubados, esta parte do grande espaço verde que é o parque Gorki, é ocupada pela Moderna Galeria Tretyakov e também pela casa dos artistas.
Antes de ir visitar o parque, fui à galeria Tetryakov, a antiga, ou a clássica, como quiserem que apresenta uma coleção magnífica de quadros de pintores russos do século 11 ao início do século 21. Se me conhecem sabem que sou pouco apreciadora de arte que não a moderna e contemporânea, mas lá fui. Acordei tarde e achei que era um bom plano. Perdi o pequeno almoço no hotel e era meio dia e meia quando bebi um sumo de laranja e um croissant e um expresso, no café da esquina. Depois, tendo aprendido a lição breve que um rapaz me deu sobre os anéis de Moscovo e as linhas de autocarro, assim como a das imensas e rapidíssimas escadas rolantes do metro de Moscovo (de que tenciono afastar-me),apenhei o M5 para Tretyakovskaya.

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From Russia, with love #2 (Moscow)

‘May God be always with you’…

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… foi o que me disse a senhora, abraçando-me suavemente para minha surpresa, à entrada da praça vermelha, junto ao ‘quilómetro zero’, o ponto a partir do qual se medem todas as distâncias desde Moscovo. Estava a admirar o que faziam as pessoas no ‘quilómetro zero’. Basicamente colocavam-se no centro e atiravam uma moeda para trás das costas. Perguntei ao rapazinho que estava ao meu lado o que era aquilo, que significava. Ele disse que não falava bem inglês, mas percebi perfeitamente quando me explicou que era o ‘quiómetro zero’. A conversa continuou de uma forma estapafúrdia. Ele falava sobretudo em russo, tal como a mãe, e eu em inglês. Seja como for entendemos-nos e eu percebi que as pessoas faziam aquilo para dar sorte.

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From Russia, with love #1 (Moscow)

‘Good luck’ disse-me o homem, enquanto fechava a porta do táxi

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… entendi aquilo como uma ameaça qualquer, não sei explicar porquê. Talvez fosse apenas por serem duas da manhã em Moscovo, mais uma que em Cracóvia, de onde chegava e mais duas que em Portugal de onde saí há sete dias. Talvez fosse apenas porque estava muito cansada de levantar voo e aterrar e esperar em aeroportos horas infinitas por aviões atrasados. Talvez fosse porque, mal aterrei, me propuseram um táxi para a cidade ao preço de 5000 rublos (75 euros) e ainda talvez fosse porque ninguém falava inglês convenientemente, mesmo no aeroporto. Talvez fosse também porque, quando saí do aeroporto, depois de ter encontrado uma companhia de táxis que me pediu 1700 rublos (25 ou 26 euros), chovia.
 
Tive de esperar, com outras pessoas, debaixo de uma chuva ainda miudinha, mas que haveria de se tornar mais copiosa, pelo táxi que demorou uns bons minutos a aparecer. O rapaz da companhia deu o endereço ao rapaz do táxi que pareceu (talvez fosse de tudo o que descrevi acima) não saber onde era. Eram duas e qualquer coisa da manhã e o aparente desnorte do condutor preocupou-me. O rapaz da companhia fecha-me a porta do táxi e atira-me ‘good luck and enjoy the streets of Moscow’. Podia ter achado simpático – provavelmente foi – mas achei apenas ameaçador.

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Lettres de Paris #75

«There is never any end to Paris»

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assim chamou Hemingway a uma parte de ‘Paris é uma Festa’ (A Moveable Feast, no original). Hoje que é a última noite que passarei em Paris após 3 meses, mas sei que também para mim Paris não acaba aqui. Que hei-de voltar, embora por menos tempo. Porque se volta sempre a Paris, porque é impossível não querer voltar a Paris. Estou um bocado triste, é verdade, ou não será bem tristeza, mas uma certa melancolia, que não é a mesma coisa, de deixar a cidade onde vivi nos últimos tempos. Foi por pouco tempo, bem sei, mas ainda assim, constroem-se rotinas, criam-se laços, frequentam-se sítios, reconhecem-se cantos e lugares e de repente tudo isso deixará de existir e será substituído por outros sítios, outros cantos, outros laços, outros lugares, outras rotinas, que me são muito familiares. Penso que as retomarei sem esforço. Voltar a casa também tem os seus encantos. Mas, como já escrevi numa das cartas anteriores, nos primeiros dias será difícil não estar aqui, sei-o bem.

 

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Lettres de Paris #74

«Nós… pimba!»

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acordei, acreditem ou não, com alguém do lado de fora da janela a cantar «e se elas querem um abraço ou um beijinho, nós… pimba, nós… pimba!». Fiquei momentanemante mais baralhada do que já sou quando acordo. E estou a ser simpática para comigo mesmo, quando digo que acordo ‘baralhada’. «Nós pimba?» pensei meia estremunhada. A pessoa, um homem, continuava a cançoneta do lado de lá da janela e eu levantei-me, abri as cortinas, abri uma fresta pequenina da janela, porque estou outra vez constipada (deve ser o meu corpo a ter uma reação alérgica ao meu regresso a Portugal, obviamente), entraram menos 3 ou 4 graus para dentro do quarto, mas assim mesmo, meti o nariz de fora para identificar o cantor. Acontece que era um rapaz, empoleirado nos andaimes do prédio em frente, a trabalhar com umas ferramentas esquisitas e armado em artista do Olympia. Meti-me para dentro, nunca suspeitei que os trabalhadores da obra em frente fosse portugueses, mesmo porque juro que já tinha ouvido um rádio em altos berros com canções que me pareceram árabe, mas posso estar enganada e estar já tão desusada de ouvir falar português à minha volta que quando ouço me parece árabe.
Seja como for, o rapaz continuou o seu trabalho, acrescentando ao repertório outras músicas igualmente de fino recorte, que eu não consegui identificar. Fui tomar o pequeno almoço, com o nariz completamente entupido e a lamentar que a constipação… pimba!… tenha aparecido outra vez e eu ainda para mais sem cêgripes. Quando saí passei na farmácia e deram-me uma coisa qualquer homeopática. A ver. Já tomei dois, conforme as instruções e não me sinto particularmente melhor. Uma parte do dia passou entre fungadelas e espirros e assoadelas de nariz, alguma tosse. Até que às duas e meia apanhei o 27 e fui ter com a Anne-Marie à entrada do metro da Opéra. Foi a primeira vez que vi, neste tempo todo, o fantástico edifício à luz do dia. Já o havia visto também assim, de outras vezes, mas desta foi uma estreia. O edifício é lindo, realmente, tal como Café de la Paix ali ao lado. Lindo e bastante caro, diga-se. Mas vale a pena lá entrar ao menos uma vez. Não foi hoje, já tinha feito isso outro dia. Eu e a Anne-Marie fomos a um café mais modesto, ali ao lado. Não conhecia pessoalmente a Anne-Maria, apesar de já ter trocado emails com ela e gostei bastante de a conhecer. Falámos de trabalho, de Paris, de Lisboa, da França, de Portugal e da vida em geral e quando dei por mim, pimba, já passava das quatro e meia e a luz do dia estava a desvanecer-se. Lá se iam os meus planos de me despedir às claras de aguns dos sítios de que mais gosto em Paris.

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Lettres de Paris #72 et #73

Le jour avant le jour avant le jour avant le jour que je dois quitter Paris

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são os meus últimos dias em Paris e receio bem que esta vai ser uma despedida difícil. Que voltar à rotina, a uma pequena cidade onde pouco acontece em termos culturais, pouco que valha a pena, quero dizer, ou melhor, pouco que me agrade se assim quisermos colocar as coisas… que deixar de ver o Sena quase todos os dias, que deixar de ver a pequena Place Saint-Andre-des-Arts todos os dias, que deixar de dizer Bonjour à estátua de Monsieur Montagne e de lhe tocar levemente no pé dourado muito amiúde, que deixar de ver a torre da Sorbonne, que deixar de comer os eclairs au caramel da Pradier, que deixar de ver as montras da Compagnie, que deixar de comer confit e magret de canard, que deixar de percorrer a pé e de autocarro todas as ruas de Paris, que deixar de ver as extraordinariamente comoventes (não me perguntem porquê mas aquilo comove-me) da Catedral Ortodoxa Russa, que deixar de ver a Tour Eiffel a iluminar-se tout brillante, que deixar de ver a Pont Neuf e os barcos no rio, para dizer apenas algumas das coisas de que vou sentir, pelo menos nos primeiros tempos, muito a falta, vai ser, sei-o bem, extraordinariamente difícil para mim. Deixar de ver esta beleza, esta grande beleza, de ter os sentimentos que Paris, toda a Paris, mesmo aquela mais feia, me provoca quotidianamente, vai deixar-me triste por uns tempos.
 

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Lettres de Paris #71

À bout de souffle*

 

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esta carta é, por comparação com as anteriores, um mero telegrama, ainda que, como as outras, seja escrita d’un seul souffle’, quer dizer de um folêgo, sem pensar demasiado no que estou a escrever, deixando as coisas escreverem-se praticamente sozinhas. Fui hoje (re)ver À bout de souffle, de Jean-Luc Godard, estreado em Paris em 1960. Nunca havia visto o filme em écran gigante, por falta de oportunidade, claro, já que para mim o cinema deve ver-se sempre numa sala de cinema. De maneira que ao passar outro dia no mk2 da Rue Serpente e ao vê-lo anunciado para hoje (e apenas para hoje) lá fui eu, sob um frio de -4 ou -5 graus, revê-lo às 10 da noite. A sala não estava cheia, desta vez. Compreende-se, talvez, porque em Paris deve haver imensas oportunidades de rever grandes filmes. Ou se calhar porque a sessão era a uma hora mais tardia do que habitualmente. Seja como for, creio que já o disse, as salas dos mk2 são grandes, confortáveis e as condições de projeção naturalmente são excelentes.
 
Rever a cara da Jean Seberg no grande écran deixou-me à bout de souffle, como sempre. Não é por ser linda, que era. É por outra coisa qualquer que não sei explicar, mas tenho, desde que me lembro, uma verdadeira e assolapada paixão pela cara da Jean Seberg, neste filme. Apesar de não ser de Paris, nem francesa, ela encarna, para mim, neste filme, a verdadeira parisiense. Nos anos 60, como agora. A cara da Jean Seberg em À bout de souffle é intemporal. O Jean-Paul Belmondo não me tira tanto o folêgo, devo dizer, apesar da sua boca extraordinária e daquele gesto que, a partir deste filme, ficou imortalizado e é ainda tantas vezes repetido. Mas se eu pudesse e ela fosse viva e tivesse a mesma cara que em 1960, casava com a Jean Seberg, amanhã. Adorei, por isto e por muito mais coisas, como é evidente, desde logo pelo argumento de François Truffaut, pela fotografia, pela música de Martial Solal… mas também por ver Paris, a Paris que conheço agora um pouco melhor do que conhecia quando vi o filme em écrans pequenos das outras duas ou três vezes, os mesmo lugares por onde passo hoje, em 1960. É curioso ver como nada se modificou substancialmente, quase tudo foi preservado e existe ainda e existirá, provavel e desejavelmente, para sempre. Curioso e belo.

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Lettres de Paris #70

April in Paris*… (peut être)

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Hoje foi a minha vez de intervir no ciclo de Seminários do Eixo 1 do Ladyss – Recompositions sociales dans la globalisation – para o ano de 2016/2017**. O tema geral desta edição de Seminários é ‘Legitimidade, Eficácia e Utilidade’. Quando a Aline me pediu, há uns tempos, que fizesse um destes seminários fiquei um bocado, como se costuma dizer, à nora. Estes tópicos não fazem parte da minha investigação mais recente (embora tenham feito – sobretudo a questão da legitimidade associada às políticas e estratégias de desenvolvimento rural – há já alguns anos) e comecei a pensar como raio poderia eu apresentar os resultados dessa investigação, nomeadamente do projeto que coordenei recentemente – Rural Matters***, à luz das questões da legitimidade, da eficácia e da utilidade. Afastei por uns tempos essas preocupações, pois tinha outras coisas com que me entreter, digamos, no momento, em termos de trabalho e, naturalmente, há umas duas semanas voltei a dedicar-me ao assunto. Tornou-se evidente, que muitos dos resultados do projeto poderiam contribuir bastante para o debate, novamente sobretudo no que se refere à legitimidade dos diversos atores e instituições cujas representações o projeto tornou mais claras, assim como no que se refere à eficácia das estratégias de desenvolvimento dos territórios rurais. Assim sendo, preparei a apresentação de forma relativamente entusiasmada, durante uns dias e hoje às 10 em ponto da manhã, depois de ter dormido umas 3 horas e meia, lá estava eu na Rue Valette para a apresentação e o debate.
 

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Lettres de Paris #68

Y aura-t-il de la neige à Paris?*

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eis a pergunta que toda a gente coloca por aqui, incluindo eu mesma, que todos os dias vejo se está prevista neve para Paris. Às vezes está, mas nunca chega a acontecer. Cairam uns flocozinhos de nada, minúsculos, creio que na véspera de ano novo. Foi só. Por vezes vejo gelo junto às fontes. E é só. Acho que me vou embora sem ver nevar em Paris. E sem ver – felizmente – a destestável e perigosíssima ‘pluie verglaçante’, que é como quem diz uma chuva que ao cair no chão, tal é o frio, transforma-o numa superfície vidrada, gelada, extraordinariamente perigosa para qualquer pessoa e, obviamente, sobretudo para mim. Há muitos anos, talvez 22 ou 23, senti na pele os efeitos desta ‘pluie verglaçante’. Estava em Arlon, na Bélgica, em janeiro, e ao sair, já noite, de uma aula mal pus o pé fora de porta escorreguei imediatamente sem apelo nem agravo. Não estava à espera daquilo, nem preparada para aquilo. Portanto, no que diz respeito à chuva que se transforma em gelo mal atinge o chão, espero bem que a não venha a sentir nos poucos dias que tenho ainda em Paris. Quanto à neve, confesso que gostava de a ver cair um bocadinho. Deve ser bonita, Paris, sob a neve. Há uns dias, contei-vos, estava sentada no quentinho do meu pequeníssimo estúdio, a esta mesma secretária, quando ouvi uns rapazes na rua gritar ‘il neige, il neige’. Fui ver, era mentira. Ha uns dias também, entrando na minha sala do Ladyss, disse ao Jean, que era o único que lá estava, que tinha muito frio. Olhou para mim com a sua cara bonacheirona e simpática e sentenciou que ia nevar em Paris nesse mesmo dia. Mentira. Nem um floco caiu. De maneira que é isto. Na televisão anunciam neve e ela não vem, pelo menos em Paris. Anunciam um ‘grand froid’ e bom, apesar de estar bastante frio, ainda estou à espera que o mesmo traga os flocos fofos e silenciosos.

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Lettres de Paris #67

Moi, la gourmande…

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que é como quem diz, eu a comilona, eu a gulosa ou ainda eu a que gosta de comer bem. Não tiro geralmente fotografias a comida e, mesmo que tire eventualmente, não tenho por hábito publicá-las. As razões são várias, mas digamos que tenho um certo pudor em publicar o que como. Não que coma demais habitualmente mas… adiante que não é disso que se trata. Abro hoje uma exceção e publico uma fotografia de comida. Uma fotografia da minha sobremesa de hoje, um café gourmand, que é como quem diz, então, guloso ou destinado aos gulosos e àqueles que gostam de comer.
É quase uma instituição o café gourmand em Paris. Ainda outro dia bebi um extraordinário, ainda que menos abundante que este (e bastante mais caro, diga-se) no Café de la Paix, um dos cafés – acho que posso dizê-lo – mais clássicos de Paris e mais bonitos, com vista direta sobre a Opéra. No fim de semana passado bebi outro no Marché des Enfants Rouges, à laia de almoço, mais modesto do que o de hoje e do que o do Café de la Paix, mas saboroso – guloso – ainda assim. Para quem não saiba, adoro comer, de verdade. Gosto praticamente de tudo (bom, menos de polvo, de chocos, de lulas, de ostras, de tamboril, de caracois e dos seus primos franceses, os terríficos escargots…) e tanto faz serem doces ou salgados, marcha tudo, por assim dizer, com apetite e alegria. Mas, apesar disto, tenho um fraquinho por doces. E muita dificuldade em resistir-lhes.

Lettres de Paris #66

C’est Paris

Há uns dias, num café perto do Marché des Enfants Rouges, falei com a minha prima Lena acerca do livro de Julien Green (‘Paris’, Tinta da China, 1ª edição de 2008). Reli o livro, que comprei em 2012, no avião. E falámos dele a propósito da flânerie, palavra que literalmente poderia ser traduzida como ‘vadiagem’, mas que está longe de ser apenas isso. Flâner é basicamente passear pelas ruas e praças e observar e absorver. Com tempo. Ociosamente até. Gosto de pensar em mim como flâneuse, embora na maior parte das vezes que viajo não tenha o tempo necessário para o ser verdadeiramente.
Diz Julien Green no texto ‘uma cidade secreta’ que «Paris é uma cidade de que se poderia falar no plural (…) porque há muitas parises e a do estrangeiro só superficialmente tem algo em comum com a Paris dos parisienses». E eu sou estrangeira, irremediavelmente, para ter tempo para conhecer o que é possível (mesmo a um parisiense) de uma cidade tão diversa – já o reconheci numa carta anterior – como esta. Mas a verdade é que passear em toda a parte, subir a sítios altos e descer de sítios altos, sentar-me nos cafés, fumar nas esplanadas e observar ociosa, mas atentamente o que vai acontecendo à minha volta é uma das coisas que mais gosto de fazer, em Paris como noutro sítio qualquer. Assim mesmo, sempre estrangeira, estou certa que não conheço nenhum lugar bem, tal como, estou igualmente certa, não conheço nenhuma pessoa bem – nem a mim mesma. As cidades, escrevi também isto num postal de Bucareste, há muito tempo, precisam de tempo, como as pessoas. E as cidades tão múltiplas como Paris precisarão ainda de mais tempo. E, assim, mesmo nunca será suficiente. Ao contrário do que diz Green, no mesmo texto que mencionei, nem mesmo com tempo poderemos afirmar conhecer bem uma cidade (ou uma pessoa). Isto é bom e mau, como quase tudo, sendo que entre estes dois extremos existe toda uma série de possibilidades. Bom porque seremos sempre surpreendidos. Mau porque seremos sempre surpreendidos. Não é contraditório. Absolutamente.

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Lettres de Paris #65

«Sei tudo o que você faz em Paris….»

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podia ser uma frase mais ou menos assustadora, se a tirassemos do contexto. Mas a frase tem um contexto, como é evidente, e esse contexto como sempre, como em tudo – e não é por ser socióloga que o digo – é muito importante. Já o contei no Facebook para alegria – aparentemente, a avaliar pelo número de ‘likes’ – dos meus amigos, mas conto de novo o contexto desta frase. Antes disso, devo dizer que dedico esta carta à G., a pessoa que a proferiu. Se me estiver a ler, G., como creio que me lê com frequência – o contexto, portanto – saiba que esta carta lhe é dedicada.
Estava eu hoje a fumar um cigarro à janela do meu estúdio, no 1º andar, virado para a estreita Rue Suger, já passava da hora do almoço, mas ainda assim, estava de calças de pijama, t-shirt e um casaco de carapuço, velho, de andar-por-casa, que o André me emprestou, tinha o carapuço posto, além do mais, por causa do frio e da rouquidão que tenho e do surto de gripe que assola a França (vi na BMFTV)… estava eu, nestes preparos, a fumar um cigarro debruçada na grande janela, quando vejo passar duas pessoas, uma senhora e uma adolescente. Continuei a fumar, de carapuço enfiado na cabeça e calças de pijama vermelhas aos quadrados, enquanto as duas olhavam insistentemente para mim, de cabeça no ar. Passaram debaixo da janela e continuaram a olhar. Achei que devia ser por causa dos meus preparos e, sobretudo, por causa do carapuço na cabeça, que me daria um ar de dread-intelectual, devido aos óculos de massa… em qualquer caso, estranho, supus eu. A senhora volta um bocadinho para trás e do passeio do outro lado da estreita rua diz-me ‘Bonjour!’. Respondi-lhe de volta ‘Bonjour’ e instintivamente tirei o carapuço, convencida que ela me iria pedir uma direção qualquer. Aconteceu já algumas vezes, enquanto fumo à janela pedirem-me direções, cigarros ou simplesmente – se é tarde – como agora – algum bêbado cumprimentar-me.

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Lettres de Paris #61 a #64

Ma maison me manque

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ou não sei o que é. Depois da visita da Sílvia e do Guilherme, das celebrações dos 50 anos de ambas e de três dias com eles, fiquei hoje a modos que ‘em baixo’. Ou não sei o que é. Não é que esteja farta de Paris. Ninguém no seu perfeito juízo poderá, objetivamente, ficar farto de Paris (bom… sou capaz de pensar em duas ou três situações em que isso pudesse acontecer), é evidente. Mas começo, talvez, a sentir falta da minha casa, do meu gabinete, das minhas coisas, das rotinas diárias. Essas coisas. Ou não sei o que é. A verdade é que ultimamente, desde há 4 ou 5 dias, o tempo tem estado muito cinzento e chuvoso. Não aquela chuva desempoeirada, que cai com abundância. Mas uma chuvinha chata, poucochinha mas continuada, que enche tudo de uma espécie de viscosidade que aborrece. Isso e a poluição. Tenho tosse há dois ou três dias e chateia-me tossir. Também me doi o polegar da mão esquerda. E isso também me chateia. Enfim, estou lamurienta, queixinhas e ‘em baixo’ e portanto deduzo que tenho saudades de casa, sendo casa tudo o que a mesma significa, como é evidente.
 
Na verdade estou quase a ir-me embora e por isso devia estar mens queixinhas e aproveitar as duas últimas semanas(ou quase isso) por aqui. Vou aproveitar, penso, mas logo a seguir já não me apetece aproveitar. Só me apetece estar em casa. Hoje não há nada a fazer. Escrevo outra carta que são muitas, cartas por atacado, também por isso. Porque nem me apetece escrever, apesar de haver coisas a contar, sobretudo dos últimos dias em que celebrei com a minha irmã-praticamente-gêmea os nossos 100 anos de existência. Não creio que ter feito 50 anos me tenha afetado particularmente (bom, esta dor no polegar se calhar é uma artrose, e as artroses são coisas que se agravam com a idade… portanto, talvez os 50 anos me tenham afetado, afinal, logo assim, para começar). Nunca me importei de fazer anos. Será sempre bom sinal e toda a gente sabe que fazer anos é melhor que não os fazer. Ninguém pode ficar parado nos 20 anos e, sinceramente, tirando a questão dos ossos, eu também não quereria ter 20 anos agora. Nem 30, nem 40, nem 10, nem 5. Quero ter estes 50 anos que tenho. Com o que a vida me deu (menos as dores nos ossos). E quero a minha casa. Pronto.
 

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Lettres de Paris #59 et #60

Nous ferons 100 ans à Paris…

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A Sílvia há-de ser a pessoa com quem festejei mais aniversários na vida. Desde há mais de 20 anos que, com raras exceções, passamos o aniversário juntas. A razão é simples: nascemos no mesmo ano, na mesma maternidade, com um dia de diferença apenas. Portanto, podemos dizer que nos conhecemos desde o dia em que nasci eu, que fui quem das duas nasceu mais tarde.
Este ano fazemos 100 anos, a dividir de forma igual pelas duas. Quando for meia-noite de 7 para 8 de janeiro entraremos ambas nos cinquenta. 100 anos a dividir por duuas é uma idade e pêras e muita coisa aconteceu desde que nos cruzámos, ela bem disposta como sempre e eu chorona, como quase sempre, mas por causa dela menos, na Maternidade Alfredo da Costa.
Por isso somos irmãs-praticamente-gêmeas. E por isso, com raras exceções, desde há mais de 20 anos festejamos os nossos aniversários juntas. Há 3 anos, quando fizemos 94 anos por junto, estávamos ambas em Paris. A situação era a contrária. Ela estava na Maison Suger e fui eu que vim visitá-la e festejar com ela o aniversário. Hoje ela está quase a chegar para o início das celebrações. Ela e a segunda pessoa com que creio ter festejado mais aniversários na vida – o meu sobrinho-emprestado-único-e-preferido, o miudinho que conheço desde que nasceu e que é um dos meus amores da vida. O meu Guilherme.

Lettres de Paris #58

«Ma patrie est une valise/ ma valise, ma patrie»

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estava escrito numa das dez cadeiras-confidentes, nos jardins do Palais Royal. No primeiro dia do ano, estava frio em Paris mas assim mesmo eu e o André lá fomos para a rua. Fomos a pé até ao Hotel de Ville, onde eu já estive tantas vezes de noite e de dia. Cruzámos a Pont Saint-Michel e fomos andando pelo Boulevard du Palais, depois pela Pont au Change que tem uma das melhores vistas sobre Paris, se é que se pode avaliar as vistas de Paris, a partir de todas as pontes, de todos os terraços, de todos os lugares. A seguir virámos à direita no Boulevard des Gevres e chegámos ao Parvis de l’Hotel de Ville. Andámos no pequeno carrossel, como se fossemos duas crianças que muitas vezes creio que, apesar da idade, ainda somos. É preciso alguma arte e algum esforço para carregar a infância dentro pela vida fora. Mas sempre vos digo que é uma arte e um esforço que valem a pena. Sobretudo se se trata de olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Sobretudo se se trata de andar nos carrosseis que encontramos vida fora.
 

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Lettres de Paris #52 a #57

‘Vas où tu veux, meurs où tu  dois’

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Não escrevo cartas desde antes do Natal. Foi uma relativamente longa ausência. Porque precisava de um intervalo, primeiro e porque não me apeteceu escrever muito, depois. Pelo meio também fiquei temporariamente sem computador. Poderia ter escrito cartas a partir do telemóvel, é um facto, mas aquilo é muito pequeno e eu tenho quase 50 anos e já vejo mal ao perto, é o que é.
Faço 50 anos daqui a dias. 18258 dias, diz-me uma calculadora de tempo de vida qualquer que encontrei no google. 18258 dias é muito tempo, ou pouco, conforme nos sintamos. Eu tenho dias que me sinto com poucos anos e dias e outros em que sinto o peso destes milhares de dias e milhões e milhões de segundos. Depende. De qualquer maneira tenho consciência de que já vivi mais dias do que aqueles que poderei esperar viver daqui em diante. Isso é um bocadinho assustador, devo confessar. Isso e o provavelmente vir a precisar das chamadas ‘lentes progressivas’. Pode haver coisa mais de terceira idade que isso? Pode, claro. As dores nos ossos e nos músculos e, sobretudo, a falta de paciência para imensas coisas que, a bem dizer, nunca tive, mas que tenho cada vez menos.

Lettres de Paris #51

Le Père Noel n’exist pas…

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e sendo assim não sei quem terá vindo aqui deixar tanta tralha. Se ele existe, sempre lhe digo que tem uma grande lata. Vir deixar aqui as prendas que, ainda por cima, são para outras pessoas. E agora eu que as carregue daqui para fora, se é que quero que as pessoas a quem se destinam as recebam a tempo do Natal. Se não existe e não foi ele, então não sei quem terá sido, mas de qualquer maneira vou ter que as carregar comigo. Encarregar-me delas. Não há outra solução.
 
Já gostei mais do natal, com ou sem pai natal. Já gostei mais de comprar prendas e de as entregar, é verdade. Mas hoje, ao olhar para estes embrulhos que o pai natal que não existe aqui deixou fiquei contente, mesmo se nenhum deles é para mim. Não sei se as pessoas que os vão receber – e são poucas, que já se sabe que as coisas não estão de feição para grandes gastos, coitado do pai natal ainda para mais às compras em Paris onde, eu bem vejo nas montras das lojas, é tudo tão caro! -vão também ficar contentes. Mas o malandro, ou quem foi que aqui deixou os embrulhos e acendeu as velas para dar um ar mais festivo à coisa, esqueceu-se de duas ou três pessoas. E agora lá vou eu ter de me encarregar pessoalmente do assunto, às portas do natal. Sinceramente.

Lettres de Paris #50

On peut pas céder au peur

dizia um comentador francês, a viver em Berlim, há pouco na BFMTV, o único canal, dos 20 e tal que tenho aqui, todos franceses. Vejo habitualmente este canal porque é uma espécie de TSF, estão sempre a dar notícias. Liguei a televisão já passava das nove da noite. estava a passar a ferro e a aborrecer-me, como de costume, com tal tarefa e decidi ligar a televisão. Comecei a ouvir qualquer coisa sobre atentados mas pensei que era sobre os atentados em França dos últimos anos. Depois percebi que tinha sido hoje, há poucas horas, em Berlim e prestei mais atenção. Reconheci a igreja que tinha achado tão bonita e comovente – já se sabe que eu gosto de igrejas – da única vez que estive em Berlim, há 8 anos, numa viagem que ficou marcada pela perda da minha mala pela TAP e pelo facto de ter tido de comprar roupa nova porque a mala andou extraviada 5 dias. Lembrei-me que tinha ido mandar fazer a bainha de dois pares de calças ali a um centro comercial, perto da Kaiser-Wilhelm-Gedächniskirche, uma igreja luterana que nunca foi reconstruída completamente, exatamente para preservar a memória da destruição de que o ser humano é capaz.
As fotos de hoje são dessa igreja, em Berlim, mesmo que a carta seja escrita de Paris. Dessa igreja que achei comovente exatamente por estar parcialmente destruída. Que achei comovente por causa das suas figuras muito simples, de pedra. E que hoje voltei a achar comovente, de outra maneira, ou talvez da mesma, quando a vi nas imagens da BFMTV. Muitas imagens da destruição que o camião provocou no mercado de natal em frente à igreja, na Breitscheidplatz. Das ambulâncias. Muitos comentadores que falavam do ataque aos símbolos. A igreja, o mercado de natal, a época do ano justamente. Mas os símbolos não morreram, nem ficaram feridos, apenas as pessoas, tristemente. Muitos comentários a articular o presumível (foi sempre assim que se lhe referiram, e bem, creio eu) com o que se passa na Síria, por exemplo. Com os refugiados e o alegado recrutamento que os jihadistas fazem entre eles.

Lettres de Paris #49

L’amour gagne toujours

estava escrito ontem (hoje também deve lá estar e deverá continuar por muito tempo, presumo) numa parede da Rue Guy Môquet. Paris é uma cidade romântica ao que dizem, é natural que assim como ‘l’amour court les rues’, como escrevi numa carta anterior, se pense por aqui que ‘l’amour gagne toujours’. Mas ganha sempre sobre o quê, afinal? O que há a ganhar ou a perder, senão, neste caso, um pouco de romantismo. E falo de romantismo naquela acepção lamechas, ‘boy meets girl’ e por aí a fora. Sendo certo que, nesta acepção, o amor não ganha nunca. Porque não há nada a ganhar primeiro, outra vez e depois, porque o amor acaba, como é evidente e próprio das coisas, acabar. Mais tarde ou mais cedo, há-de acontecer. Antes tarde que cedo, é preciso que se acrescente. Na outra acepção mais abrangente do amor, também é verdade que ele não ganha sempre porque, mais tarde ou mais cedo, também, morreremos.
 
Não estou muito bem disposta como se notará. Estou mesmo rabugenta, como os que me conhecem melhor, repararão certamente. Adormeci às 5 da manhã, sonhei que a sanita começava a deitar cada vez mais água até acordar com a cama a boiar no quarto e com a Maison Suger alagada de água sanitária, mal cheirosa. Acordei com pessoas a baterem-me à porta ainda não eram 10 horas. Era o senhor da manutenção. O tal que ontem devia ter vindo, mas não veio porque morava longe. Estava o diretor da Maison e a secretária e entrou tudo pelo estúdio adentro, mais exatamente pela casa de banho adentro. Monsieur le directeur propôs-me mudar para um estúdio gigante, aqui no mesmo patamar. Fui ver o estúdio e só de pensar que tinha de lavar a louça toda outra vez antes de a usar se me revoltou o meu estomago ainda sem pequeno almoço. Disse-lhe que sim, bom, se não houver outra solução, claro. Não podia ficar num sítio onde não se pode usar a sanita, bem entendido. Resta dizer que tirando isso, o resto da casa de banho estava perfeitamente funcional.
 

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Lettres de Paris #48

Une journée de merde

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pardon my french. O dia não começou mal. Levantei-me tarde, dormi bastante e acho que não muito mal. Mas acabou de uma forma muito desagradável e continua a ser desagradável. Até quando não sei, sendo certo que haverá coisas piores, mas há transtornos um bocado mauzinhos, sobretudo quando se paga uma pequena fortuna para se estar num sítio onde tudo parece estar caquético. Saí de casa por volta das 3 da tarde, deixei tudo impecável e bem. Entrei em casa quase às onze da noite e mal abri a porta ouvi água a correr. A casa de banho estava toda inundada, a sanita cheia de água de aspecto duvisdoso e eu fiquei perfeitamente azamboada com aquilo. Liguei para o o número ‘da noite’ aqui na Maison Suger. Nada. Desci outra vez ao átri de entrada e o homem lá apareceu. Contei-lhe. Veio ver. Fechou a água do autoclismo e preparava-se para ir à vida dele, quando eu lhe disse que nem pensar, que ligasse ao diretor ou a quem fosse.
 
Saiu. Passado um bocado regressou, que o não tinham atendido de um sítio, e que o colega que faz os arranjos na casa não podia vir, porque morava longe. Eu perguntei-lhe se ele achava que isto eram condições, que chamasse um canalizador. Que não estava autorizado. Bonito. Saiu outra vez e passado um bocado ouço alguém na porta ao lado. A vizinha – que descobri depois que é brasileira – exatamente com o mesmo problema. O faz tudo da Maison tinha ido de manhã arranjar-lhe a sanita e agora estava tudo inundado também. O senhor que fica aqui à noite saiu outra vez para ligar a não sei quem. Voltei a dizer que chamasse um canalizador. Que não. Regressou com uns tubos a casa da vizinha. Passou quase uma hora e eu sem saber de nada. Fui lá. Tudo na mesma. O problema é na casa ao lado e não aqui, mas a verdade é que isso me interessa pouco, visto que não posso usar a sanita. Digo-lhe isto. Ele diz que já vem cá. Passa mais um grande bocado e nada. Vou lá outra vez. Afinal parece que chamou alguém, um homem, que aparece dali a um bocado. Ficam os dois na casa ao lado e de vez em quando vêem ver o que se passa deste lado. A sanita acaba por se esvaziar e o chão por secar, mas cheira mal. Tenho vontade de ir à casa de banho e tenho de ir à cave, descer até ao átrio e depois descer umas escadas estreitas até lá. Rica solução.
 

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