Postcards from Romania (12)

Elisabete Figueiredo

Ainda em Brasov, a caminho de Sighisoara, este postal é para o José Guimarães

Faz-me falta o meu amigo, quando me sento nas esplanadas a ver passar as pessoas. As romenas são giras, Zé. Mas teríamos material de análise para os próximos 25 anos, te asseguro.

Teria mil postais hoje. Mil. Tal como tenho, às vezes, mil olhos, sendo certo que nunca serão suficientes.

Do centro vou para a estação dos caminhos-de-ferro. Compro o bilhete para o próximo comboio, bem vejo que é regional, mas ainda assim compro o bilhete. Espero meia hora na estação. Está cheia de ciganos (politicamente correto seria dizer ‘roma people’). Homens, mulheres, crianças. Os putos, especialmente os rapazes, assumem um ar muito másculo, nas suas camisolinhas de alças. Alguns escarram para o chão. Outros carregam sacos e saquinhos, empurram carrinhos. Como os pais.

Os ciganos representam cerca de 2% da população romena. A algazarra de sacos é imensa. Compreende-se, muitos, quase todos, serão nómadas ou perto disso, andam com a casa atrás. Nada a dizer. Se eu tivesse que carregar a minha casa às costas para trás e para diante, o que faria? De repente, ao pensar nisto lembro-me do Moonlight Kingdom, do Wes Anderson, que vi em Lisboa, agora. A rapariga quando foge de casa leva uma mala. Como é uma miúda bem arranjada, de sombra colorida nos olhos, espera-se que a mala contenha roupa. Um dia ela abre-a. A mala está cheia de livros. Para mim, é a cena mais bonita do filme. [Read more…]

Postcards from Romania (11)

Elisabete Figueiredo

Looking good, mudda fucker

Na descida do monte da Citadela, perco-me, naturalmente. Doesn’t look so good. Até que encontro um rapaz a concertar uma bicicleta e lhe pergunto o caminho para o centro. Diz-me que sempre para baixo. Certo. O castelinho é outra recriação romântica. Outra Walt Disneylização. O costume. Penso nesta febre moderna (ou pós-moderna. ou o raio) de tudo patrimonializar, folclorizando tudo. Aborrecem-me estes lugares. Podia estar em qualquer sítio, na verdade.

Lembro-me que não sei dizer amor em romeno. Parece-me grave e ao jantar pergunto às miúdas do café como se diz amor. Dizem-me ‘te iubesc’ e acrescentam que é o que devo dizer ao meu boyfriend. Agradeço-lhes, mas não fico satisfeita. No hotel pergunto à rapariga da receção. Diz-me que ‘te iubesc’. Eu digo-lhe amor, amor, love, amour, amore… como se diz em romeno? Não quero dizer amo-te. Quero dizer amor. Ou melhor saber dizer amor em romeno. ‘Dragoste’ ou ‘iubire’. Multumesc. Buna seara ou noapte buna.

(Henrique Gil, este postal é para ti. Ou melhor, para o André Gil. E para ti. Pronto.)

(Brasov, 9 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (10)

Elisabete Figueiredo

Boa tarde, senhor Anselmo

Da Sinagoga, atravesso a Porta Schei e percorro uma rua longa até à Piata Unirii. Vou devagar. Às vezes chove. Mas está calor. Vou reparando em tudo, acho que em tudo, pelo menos em tudo o que é possível.

Aqui nasceu um revolucionário e é bonito, além uma roda de bicicleta espreita de uma esquina, ali uma porta vermelha engraçada. De repente vejo uma senhora de lenço na cabeça que limpa um parapeito. Que bonita, penso e olho para ela. Que me devolve o olhar, embora seguramente não o pensamento. Fico enternecida, vá-se lá saber porquê. E pergunto-lhe com gestos se posso tirar-lhe uma fotografia à janela. Olha-me surpresa e eu digo em italiano apontando para ela: è bella! Ri-se. Deve ter ganho o dia, ou talvez não. Há quanto tempo não lhe dirão que é bonita? Diz-me que sim e eu tiro a fotografia. Devíamos dizer mais vezes às pessoas que são bonitas.

Da Piata Unirii onde não está ninguém, apenas um pedinte e duas senhoras que conversam em frente ao supermercado e alguns taxistas, depois de comer bolas de queijo, uma salada e beber uma Ursus preta, decido que não me apetece andar os 3 ou 4 km até à Cidadela. Apanho um dos táxis da praça. O taxista fala francês. Falo também. Fico muitas vezes contente de saber falar algumas línguas. De as compreender. Percebe-se melhor o que há para perceber do mundo. [Read more…]

Postcards from Romania (9)

Elisabete Figueiredo

No monte Tampa, afinal, é Portugal

No monte Tampa, afinal, é também Portugal. Bem sei que não é belo postal ilustrado. Mas não interessa, ou interessa? Há nisto qualquer coisa de caseiro, digamos. Reconfortante, se quiserem, de uma maneira absolutamente absurda.

Encontro a família de romenos que fotografei ontem em Bran. Acenam-me muito. Aceno-lhes muito, de volta. Rimo-nos. Que podemos fazer mais?

O café romeno sabe a caganitas de rato. Juro. Nunca provei caganitas de rato, mas tenho a certeza, ao beber este café impossível, que é assim que sabem. Desço o monte, outra vez de teleférico. Venho eu, apenas, e o maquinista que me ensina (agradeço-lhe a distração) a pronunciar corretamente ‘multumesc’. Ensino-lhe a dizer obrigada. La revedere e vou em direção à Biserica Neagra, que é como quem diz a Igreja Negra. Sosseguem, nada tem a ver com cultos satânicos ou vampiros. Apenas com um incêndio que a deixou negra, ainda que intacta. Lá dentro um enorme órgão de tubos, desenhado por Bucholz. Gosto de órgãos de tubos e de acender velas nas igrejas. Por causa das velas, não das igrejas. Se calhar é o mesmo. Na Biserica Neagra não há velas, de modo que me sento a observar o órgão que é impressionante. 4000 tubos. Belíssimo. [Read more…]

Postcards from Romania (8)

Elisabete Figueiredo

Brasov, subindo o monte Tampa

Tenho vertigens. Muitas. Ao ponto de as cidades e os campos se porem a rodar quando me atrevo, o que é quase sempre, a subir muito alto. Uma vez subi num teleférico de esqui mais de 2000 metros. Foi em Salzburgo e posso jurar que as montanhas estavam vivas e rodopiavam… sim, uma alusão fácil ao filme ‘Música no Coração’. Whatever.

Apesar das vertigens, resolvo subir o monte Tampa de teleférico. 1000 metros ‘apenas’. O teleférico é pequeno, não caberão mais de 10 pessoas. Vamos 10 exatamente.  Começa a subir e é quase a pique que a traquitana vai.

Penso na balança que vi no dia anterior no castelo de Bran. Uma balança para pesar almas. Parece que as almas dos aprendizes de satanás, podia ler-se, são mais leves que as das outras pessoas. É curioso. Se alguma vez tivesse pensado nisto, diria que era justamente o contrário. E começo a desejar que sejamos todos aprendizes de satanás, dentro do teleférico, just in case.

Lá em cima, a vista compensa os maus pensamentos. Evito chegar-me à beira dos varandins. Gosto de sítios altos porque tudo, cá de cima, parece um mapa. Quer dizer, acho eu que é por isto. Que outra razão poderia haver para me sujeitar a tal suplício?

O teleférico conduz-nos a um bosque, caminho uns bons 20 minutos até chegar às traseiras das letras gigantes:

B R A S O V

que se veem de toda a cidade.

(Brasov, 9 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (5)

Elisabete Figueiredo

Brasov (Piata Sfatului)

Não se deixem enganar pelo ar encantador desta praça. Quero dizer, a praça é realmente encantadora. Vou daqui para a estação dos autocarros. Dizer que caí num filme do equivalente romeno do Emir Kusturica é, apesar da repetição, o mínimo. A estação é indiscritível. Na bilheteira a senhora (simpática) faz o melhor.

Na sala de espera um bêbado ressona. É a única pessoa na sala, além de mim. Deve estar ali desde o dia anterior. Desde sempre. A avaliar pela sujidade e pelas garrafas no chão. À volta dele quatrocentas moscas que, quando eu me sento (sim, eu sento-me nas estações de autocarros ao pé dos bêbados), se atiram furiosamente a mim. Picam-me. Desistem. Voltam ao bêbado. Suponho que esteja mais apetitoso que eu, dado que acabo de tomar banho.

Cá fora um calor sufocante. Entro no autocarro e gostava de ser uma espécie de turista que filma tudo. Gostava. Mas não sou, para o bem e para o mal tenho uma máquina fotográfica com cerca de 100 anos. Os mesmos que parece ter o autocarro.

(Brasov, 8  de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (4)

Elisabete Figueiredo

Os dedos da mão como se fossem ruas

O hotel tem um pátio. A miúda da receção quer que lhe fale em inglês e assim faço. No pátio um velhote pergunta-me em italiano se sou italiana. Digo que não, mas que falo um pouco e começo a falar pelos cotovelos, o que parece agradar-lhe, dado que faz o mesmo.

Ponho as coisas no quarto. Saio e peço orientações para chegar à praça. O senhor explica-me muito bem usando os dedos da mão como se fossem ruas. Intervala as explicações com ‘amore mio’, com a mesma entoação com que os ingleses dizem ‘darling’. Parece-me um bom lugar. Saio. Encontro a praça. Está fresco e as pessoas sentam-se nos bancos. Estão calmas e parecem estar contentes. Também me sinto contente.

Não é preciso dizer mais nada, quando se escrevem postais.

(Brasov, 7 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (1)

Elisabete Figueiredo

  A importância de falar italiano menos mal

Depois de muitas horas cheguei ao meu destino. Brasov à noite parece bonito. Ainda bem que falo italiano menos mal.

La revedere.

(Bucareste, 7 de Agosto de 2012)