Postcards from Romania (36)

Elisabete Figueiredo 

We love Bucharest, why don’t you?

O meu bairro preferido de Bucareste fica entre a rua Lipscani e a rua Smârdan. Como hoje é o último dia, e amanhã (daqui a umas horas) regresso a Lisboa, resolvo passá-lo aqui. Podia descrever-vos tudo, com detalhe, mas falo apenas da luz nas fachadas dos edifícios. Das lojinhas de antiguidades, dos teatros, dos bancos em todas as ruas, que são para peões. É uma ilha, bem sei, entre a Calea Victoriei e o Bulevardul Nicolae Balcescu. Uma ilha de bom gosto, bons cafés e sossego numa cidade que não poderei dizer nunca que fiquei a amar. [Read more…]

Postcards from Romania (35)

Elisabete Figueiredo

 

La revedere, Lenin!

(que é como quem diz, Adeus Lenine!*)

Vou de Bucareste uns 20 km para norte, para Mogosoaia. Há um palácio do início do século XVIII e um parque, em Mogosoaia. Não me converti em turista de palácios, ainda não. Não é isso. O meu guia de 1998, o mesmo que dizia que, na Roménia, ‘the cleanest toilet is behind a bush’, informava que em Mogosoaia, nuns terrenos a norte do palácio, jaziam duas estátuas depostas em dezembro de 1989: uma de Petru Groza (primeiro ministro do primeiro governo comunista romeno) e outra de Lenine. Devia ser verdade porque o guia tinha uma fotografia e lá estava a estátua gigantesca de Lenine caída no chão, entre as ervas, qual erva daninha ela mesma, nuns quintais atrás do palácio. O guia de 2011 diz-me o mesmo, embora sem fotografia.

Em busca da estátua de Lenine, entre as ervas, apanho um táxi (nunca falei do custo de vida na Roménia, mas para terem uma ideia, faço 20 km, atravessando meia cidade e avançando uns 14 km para fora dela, por menos de 30 lei, isto é, mais ou menos 6 euros**) e rumo ao parque de Mogosoaia. O táxi deposita-me na entrada e eu avanço pelo caminho ajardinado, cheio de árvores frondosas, igrejinhas, torres, um lugar idílico, para quem gosta do género. Avanço e decidida, devo dizer. Entro na porta principal dos jardins. Entro no palácio. Já que ali estou vou visitá-lo. Acho que vou conseguir, depois, encontrar a estátua do Lenine, no tal quintal vizinho ao palácio. O palácio é aborrecido. Como a generalidade dos palácios. Muitos tapetes, muita mobília cheia de rococós, muita louça, muito rei, muita princesa, muito nobre. Depois vejo os mapas da europa, de várias partes da europa, do século XVIII e lá me vou reconciliando com aquilo. Os mapas são bonitos. Mas eu sou suspeita, dado que gosto de mapas. [Read more…]

Postcards from Romania (34)

Elisabete Figueiredo 

Uma cidade, vendida a retalho e o que calçará Lady Gaga quando está sozinha?

Do autocarro turístico vejo Bucareste de uma maneira completamente diversa. Primeiro, estou protegida, não me sinto pequena, nem excluída, o que não deixa de ser um curioso paradoxo, já que me meto de livre vontade num lugar confinado, embora em movimento.

O autocarro atravessa o centro histórico, se é que podemos apontar um apenas a esta cidade. Vai da Piata Unirii até ao Arco do Triunfo e volta por outro percurso. A primeira metade do caminho é-me já familiar. O belo e o feio, o opulento e o miserável, o pobre e o rico. Nesta primeira metade, Bucareste é uma cidade que se vende a retalho. Em todos os prédios, sobretudo nos mais altos, anúncios. Coca-cola, pepsi (não somos exclusivistas, claro, sobretudo quando nos pagam), macdonalds, mercedes, bmw, banco x e banco y, os anúncios ocupam tudo e tornam tudo mais feio, mais caótico, mais suburbano até, ou, para ser completamente parva (ou realista), mais terceiro-mundista. Vamos nisto da publicidade, como se estivéssemos a ver televisão às horas das televendas, até à Piata Victoriei. [Read more…]

Postcards from Romania (33)

Elisabete Figueiredo

 As cidades, como as pessoas, precisam de tempo

Sou turista. Não adianta dizer que sou outra coisa qualquer. Gostava de ser viajante. De preferência que me pagassem para correr mundo – não todo, vamos excluir os ‘países com moscas’, como eu lhes chamo – e me deixassem ver tudo muito bem e, talvez, escrever sobre isso.

Sou turista. E assumindo essa condição faço hoje uma coisa que deveria ter feito ontem. Uma viagem de autocarro à volta dos principais locais de Bucareste. É por onde começo, geralmente. Para dominar mais ou menos fisicamente as cidades. Desta vez não. E deixei, então, que Bucareste me dominasse e, de certo modo, me excluísse. Mas as cidades precisam de tempo. E eu não sou pessoa que desista facilmente, já sabemos. [Read more…]

Postcards from Romania (32)

Elisabete Figueiredo

Bucareste é uma cidade agreste

O Palácio do Parlamento secou tudo à sua volta, menos o Boulevardul Unirii (antes a Avenida da Vitória do Socialismo). Maior que os Champs Elysées tem a meio a Piata Unirii. Nesta e nas ruas, gigantescas, à sua volta, imensos ciganos vendem isto e aquilo. Há muitos pedintes e sem-abrigo. Ao dobrar a esquina, imediatamente se entra noutra dimensão. Embora o gigantismo das ruas e avenidas continue e os palacetes e outros belos monumentos se misturem, de uma forma desagradável, com blocos de apartamentos de arquitetura ‘comunista’, feíssimos, degradadíssimos, a pobreza (nas ruas, pelo menos) diminui progressivamente até se alcançar a parte sul da Calea Victoriei (que atravessa uma parte da cidade, serpenteando e que é, segundo dizem e me pareceu por tanto gucci, chanel e vuitton e tanto hilton e radisson, a artéria mais chique de Bucareste.  [Read more…]

Postcards from Romania (31)

Pode um palácio secar uma cidade?

Uma cidade, um país e um povo. As ditaduras ditas de esquerda são tão más como as ditas de direita. Os ditadores são dementes, geralmente. Ceausescu não era exceção e talvez tenha sido, de muitas mais formas do que aquelas que a nossa imaginação pode alcançar, a própria regra. Há um filme-documentário, mais ou menos recente em que, apenas usando imagens reais, o realizador nos dá conta do percurso desta pessoa*.

Ao princípio é simples. Uma pessoa ambiciosa, mas aparentemente com boas intenções. Bom, dizer isto de um ditador é no mínimo caricato. Mas assumamos que assim era. Ele e a sua mulher – Elena** – eram pessoas simples. De muitos modos, continuaram a sê-lo, mesmo na sua imensa perturbação, anos depois, mesmo na sua demência que, tal como o Palácio da República que idealizaram e mandaram construir, parece ter secado um país inteiro, descaracterizando-o através de um processo (quantas vezes deverei usar a palavra demência, ainda que com grandes reservas?) de ‘sistematização’. [Read more…]

Postcards from Romania (30)

 Elisabete Figuieredo

Fui de comboio ao cinema, infinitamente, até Bucareste

O meu lugar tinha uma janela grande, não dividida. A velocidade do comboio, mesmo não sendo imensa, não me permitiu tirar muitas e, sobretudo, razoáveis, fotografias ao que passava além da janela. Então resignei-me e entre um livro (avancei 200 páginas hoje, claro), o caderninho de apontamentos a que estraguei o elástico, os passeios no corredor e algumas conversas, o que fiz mais foi olhar. [Read more…]

Postcards from Romania (29)

Nove horas de comboio

A Eniko vem para me levar à estação e despedir-se de mim. Custa um bocadinho, é certo, abraços e beijos e eu entro no comboio que me há-de levar a Bucareste supostamente em 8 horas e meia e a Eniko ali fica, do outro lado da janela, as duas maluquinhas a falar por gestos, a mandarmos beijinhos, a sermos ternas. E eu cá acho bonito.

O comboio parte da estação de Cluj-Napoca às 14h10 em ponto. Quem disse que na Roménia os comboios não andam a horas, engana-se. Partem geralmente a horas, mas algures pelo caminho vão perdendo a pontualidade… tem sido sempre assim. De qualquer forma os atrasos, mesmo do regional velhíssimo em que andei entre Brasov e Sighisoara, nunca ultrapassaram a meia hora. Aconteceu hoje e em vez das 8 horas e meia, demorámos 9h a percorrer um pouco mais de 400 km. São imensas horas, bem sei, para tão pouca distância. Mas a linha entre Cluj e Brasov é antiga e, embora o comboio – um intercity – suportasse velocidades maiores, a linha não. Por isso, nada a fazer senão estar fechada dentro do comboio as horas que forem precisas. A minha mãe há-de gostar de saber que só fumei, nessas 9 horas, quatro cigarros. Sinceramente, tenho os níveis de nicotina muito em baixo, embora tenha tentado repô-los assim que me apanhei na Gara Nord, em Bucareste. [Read more…]

Postcards from Romania (28)

Elisabete Figueiredo

As conversas são como música. Mesmo numa língua estranha, se souberes apenas sentir, acabarás por entender

Piata Karolina, 15h45. Estou sentada num banco, a escrever num caderno e a observar as pessoas e os pardais. À minha frente há uma fonte. Uma senhora de lenço na cabeça aproxima-se da fonte, olha-me e pergunta-me, em romeno, se a água da fonte é boa para beber. Respondo-lhe na linguagem universal dos gestos, encolhendo os ombros, com os braços dobrados e as mãos abertas, para fora, com as palmas viradas para cima: não sei.

Enche um pouco a garrafa que traz consigo, bebe e exclama que a água está quente e faz uma careta. Eu rio-me e repito ‘calda’. Em romeno. Podia ser italiano. Mas é romeno. A senhora senta-se devagar ao meu lado no banco e continua a falar em romeno. Tento dizer-lhe que não compreendo bem, que não falo romeno, mas, como não falo – justamente – romeno, devo fazer uma expressão que,  seja como for, ela entende. Ainda assim, pergunta-me ‘Anglia?’. Não.  Portugal. ‘Portugalia?’ Que é muito longe, diz. Digo com as mãos, mais ou menos. Pergunta-me como vim, de autocarro ou avião? Avião, respondo. Se é muito caro? Nem por isso, digo. [Read more…]

Postcards from Romania (27)

Elisabete Figuieredo

Fazer ginástica diante de deus ou, talvez, dançar

A Catedral Ortodoxa de Cluj é o lugar mais pacífico do mundo. Hoje, quero dizer. Amanhã encontrarei outro, seguramente. Nenhum turista, além de mim. Só pessoas que rezam, em silêncio entre os milhares e milhares de frescos, a escuridão, pequenas capelas que parecem grutas, algumas velas. Ouvem-se cânticos, para além do silêncio. Se escutarmos bem, se pusermos todos os sentidos no escutar, tenho a certeza que compreenderemos estas pessoas. [Read more…]

Postcards from Romania (26)

Elisabete Figueiredo

 O esmagador mistério da fé torna-se maior quando visitamos igrejas

A manhã vai dedicada às igrejas. Apesar de agnóstica ou lá o que sou, sempre gostei de igrejas e tenho visitado milhares em toda a parte. Sinagogas, igrejas católicas romanas, ortodoxas, reformistas, franciscanas, evangélicas… Mesquitas não, por dificuldades, à falta de melhor expressão, técnicas. Numa manhã visitei 5 igrejas de religiões diferentes. Em todas elas o mesmo deus, creio, a existir. A mesma fé, o mesmo mistério, a mesma submissão voluntária dos Homens a qualquer coisa que talvez entendam. Eu não. Mas tenho inveja, sei-o bem, destas pessoas que têm esta fé. Talvez aceitem melhor tudo. A vida. O que acontece. A morte. [Read more…]

Postcards from Romania (25)

Elisabete Figueiredo

Cluj-Napoca é uma cidade grande mas o mundo será sempre pequeno (e ainda bem)

Chega o Kamil na sua bicicleta e chega também a pequena Elisa (Elisabeta) com ele. É linda e está ligeiramente envergonhada, porque não me conhece. O Kamil está igual. Quatro anos não é assim tanto tempo.
Vamos conversando até casa. A mesma simpatia, o mesmo olhar, como se tivesse sido só ontem que, em Montecatini Terme, o conheci e nos rimos como doidos, com a Eniko e o Antonio, a dizer disparates intermináveis. Conheço a Eniko desde 2007. Conhecia-a em Wageningen. Mal a conheci, inaugurei (inaugurámos) a palavra amigo, como naquele poema*. [Read more…]

Postcards from Romania (24)

Elisabete Figueiredo

Girassóis a preto e branco

Chego a Cluj e ao hotel. O incómodo continua. Sei lá. Nem mesmo a circunstância de, pela primeira vez, nesta viagem, o hotel ser digno desse nome, me conforta. Nem mesmo o telefonema da Eniko a saber quais os meus planos, me anima. Planos, já se vê, não tenho. Tirando os dias guardados para esta ou aquela cidade, não faço nunca planos de visitas a sítios, monumentos, coisas. Vou andando. [Read more…]

Postcards from Romania (23)

Elisabete Figueiredo

Entre Sighisoara e Cluj-Napoca

Digo que o dia não começa bem. Tomo um pequeno-almoço sem jeito e, não sei porquê, aliás sei, mas para o caso não interessa, há qualquer coisa, que me diz que este dia será esquisito.
Ao pequeno-almoço reencontro os romenos da noite anterior, os mesmos que me convidaram para um copo de vinho branco que não aceitei, mas com quem acabei por conversar durante um bocado, antes do jantar. São 9h30 da manhã e estão já a beber cerveja. Aliás, verifico que isso acontece em quase toda a parte, aqui. São simpáticos, especialmente um deles, que fala melhor inglês e tem opiniões sobre tudo. De qualquer maneira tenho de ir apanhar o comboio.

Este comboio é um inter-regional, bastante aceitável, se comparado com o regional que tomei entre Brasov e Sighisoara. Viajo agora entre esta última vila e Cluj-Napoca, a terceira maior cidade da Roménia. Avanço para norte, um pouco na diagonal, quase até à fronteira com a Hungria. E à medida que o comboio avança ‘entre a floresta’ (tradução literal de Transilvânia), apercebo-me que a paisagem se torna diversa. As aldeias não são tão arcaicas, não há tantas carroças de ciganos, as vacas substituem, nos campos, as ovelhas, e tudo tem um ar, como direi, mais asseado. [Read more…]

Postcards from Romania (22)

Elisabete Figueiredo

Todo aquele que não souber falar latim, será afastado à paulada

A igreja na colina (de cujo interior não se podem tirar fotografias) tem vários frescos. Um deles, do século XV, retrata a santíssima trindade. Uma só figura, com três cabeças. A da esquerda é o espírito santo e este santo espírito é – pasme-se – uma mulher! Whatever that means, ganhei o dia.

No coro há outra inscrição e o papelinho que me deram à entrada explica-me que está escrito: «todo aquele que se quiser sentar aqui, mas que não souber falar latim deverá afastar-se ou, mesmo, ser afastado à paulada». Pelo sim, pelo não, afasto-me.

Cá fora, um cemitério enorme, onde não entro. Além, uma casinha na colina com um pátio delicioso, acho eu. Não sei o que acharão os senhores da UNESCO. Percebo a importância dos rótulos, mas ao mesmo tempo parece-me que não seriam precisos. Que são, até, perversos.

Falemos, outra vez, de folclore, se quiserem. [Read more…]

Postcards from Romania (21)

Elisabete Figueiredo

A igreja na colina é o lugar mais bonito do mundo

Subo, com dificuldades, os 176 degraus das escadas cobertas. São de madeira e pedra, escuras e irregulares. Mas chego ao cimo do monte. Ainda tenho folego. E subo mais ainda até à Biserica din Deal que é como quem diz, em romeno, a ‘igreja na colina’.

«Esta obra foi concluída, com a ajuda de Deus, no ano de 1488 quando, no dia de S. Gerardo (23 de setembro) um forte nevão destruiu as árvores de fruto», leio no papel que me dão com a tradução da inscrição em latim por cima da porta principal. No dia em que um forte nevão destruiu as árvores de fruto? Que descrição tão rara.

Onde estaria Deus? A ajudar nas obras, provavelmente, penso. E sorrio sozinha, diante da ideia de um deus servente de pedreiro que, no afã de concluir a obra dos homens, deixa que um forte nevão destrua as árvores de fruto.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (20)

Elisabete Figueiredo

Há uma velha a vender flores nas escadas cobertas

Subo uma rua empedrada. Irregular. Há passeios direitos mas em cima deles estão, que surpresa, os automóveis. Chego à escada coberta. 176 degraus até ao Monte da Escola. Avanço. Ao avançar, reparo nela. Um pequeníssimo ramo de flores numa das mãos. Milhares de rugas na cara, como estradas num mapa para que ninguém olha. Com a outra mão mostra um dedo: 1 leu pelas flores.

Estou para lhe comprar o ramo, mas depois, que farei dele? Fico ali, à entrada das escadas a olhar para ela. E penso, outra vez, que o património da humanidade é isto, não as pedras. Estas ruas que atravessam a cara dela, para lugar nenhum. Ou para o mundo inteiro.

Não há, em nenhuma torre do mundo, uma placa que diga a que distância estou eu desta mulher.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (19)

Elisabete Figueiredo

Os olhos do Drácula

Desço da torre sem dificuldades. Haverei de ter algumas um pouco mais tarde. Atravesso a rua que vai dar à praça principal de Sighisoara, passo a casa onde supostamente nasceu e viveu Vlad Dracul, no século XV e dou de caras – estamos no século XXI, portanto – com um homem vestido de Drácula.

Falemos de folclore, então, se vos apetecer.

Tiro uma fotografia ao homem. Há no olhar dele qualquer coisa de profundamente triste, talvez não triste afinal, mas há nestes olhos qualquer coisa difícil de compreender, enquanto encara a máquina que lhe aponto. Chego a envergonhar-me. Hei-de cruzar-me com ele, mais três ou quatro vezes neste dia e reparar sempre na dificuldade daqueles olhos.

Se eu tivesse que me vestir de Drácula, todos os dias, como seria o meu olhar? Ainda bem que, assim como assim, prefiro o Rato Mickey.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (18)

Elisabete Figueiredo

Do cimo das torres vê-se o mundo inteiro.

Não podia ser mais verdade isto. Placas no varandim informam-nos das distâncias a Londres, Paris, Baden-Baden, Sydney, Nova Iorque… a Lisboa não. Do cimo das torres vê-se (quase) o mundo inteiro.

Uma das placas informa-me que me encontro a 3975 km do Pólo Norte. Coisa pouca, se pensarmos que o Pólo Sul dista 14025 km daqui.

Tenho amigos mais longe de mim do que daqui ao Pólo Norte. No entanto, não conheço ninguém em nenhum destes sítios e decido que o melhor é ficar por ali. Ver o mundo inteiro, esta pequena vila, a partir da torre.

Reparo num homem e num miúdo. Terá 5 ou 6 anos. Pergunto ao senhor se me tira uma fotografia. Diz-me que até duas. E ri-se. O puto olha para mim e diz muito alto: ‘germania, germania?’ Respondo-lhe que não. Volta a repetir, tão alto como a torre, numa expetativa que me custa não cumprir: ‘germania, germania?’. Digo: Portugal. Encolhe os ombros. Vira-me as costas. [Read more…]

Postcards from Romania (17)

Elisabete Figueiredo

Em Sighisoara, vila medieval, património da humanidade

Andava aos dias a pensar que ainda não tinha subido a uma torre. Em mim, é estranho. Uma vez na Estónia, em Tallinn, num dia, hei-de ter subido a umas cinco torres. Tenho a mania das alturas, apesar, como já disse, das vertigens.

Eis a torre do relógio. Uma torre para subir. E eu subo. 120 degraus, nada de mais. Sobretudo se comparado com os quase 400 degraus que uma vez subi em Praga. Quando cheguei lá acima, andava tudo à roda e eu sem folego. Aqui não. Os degraus sobem-se bem e, apesar dos cigarros, digamos, que poderia estar em piores condições.

(Sighisoara, 11 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (16)

Elisabete Figueiredo

O património que importa

… e enquanto as pessoas são o património que importa, chego a Sighisoara. Património da UNESCO. Mais uma folclorização. Podia ser pior, suponho, e é bonito de se ver, acrescento.

(Sighisoara, 10 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (15)

 Elisabete Figueiredo

As aldeias da Roménia

As aldeias da Roménia, já o disse, existem para além da minha imaginação. Reparem que não estamos num país inefável (como dizia o Sena), mas sim num país da União Europeia. Venho de Brasov, uma cidadezinha encantadora, se excluirmos os blocos de apartamentos dos arredores, as estações de autocarros e de comboio. Vou para Sighisoara, uma vila – diz-me o meu guia (atualizado, acabei por comprar um novo, em francês) – património mundial da UNESCO.  E no meio, esta Roménia. [Read more…]

Postcards from Romania (14)

 Elisabete Figueiredo

As mãos peganhentas e o cheiro a ferrugem

Reparo numa senhora a fumar. Proibido? Penso em pedir-lhe que me deixe fotografá-la. Mas está longe e não peço e fotografo-a na mesma.

O comboio para em todas as estações e em todas elas, até menos de meio caminho, até Augustin, saem ciganos e sacos e caixas. Em todas as estações há carroças puxadas por cavalos e eles sobem para elas numa alegria sem fim. No comboio, há longos minutos, um miúdo cigano canta, desalmadamente, com a voz cheia de trinados. [Read more…]

Postcards from Romania (13)

Elisabete Figueiredo

O comboio para Sighisoara

Nunca vi um comboio tão velho, tão ferrugento, tão sujo. Sento-me e imediatamente a minha pele se entranha no cheiro a ferrugem. Ao meu lado uma família. À minha frente senta-se uma senhora. Ponho a mala na grade. Que grade, senhores! Juro que nunca vi nada assim. Entrei noutro filme do equivalente romeno do Kusturica e desta vez, desta vez, é a sério. Mil olhos. Quem dera, para guardar tudo. Para ver tudo, para experimentar tudo aquilo.

Peço à senhora da frente se me olha pelo saco em cima do banco. Vou à plataforma fumar um cigarro. Diz que sim, com a cabeça. A viagem, diz-se, demora 3 horas. É proibido fumar no comboio. Depressa me darei conta que, também isto, não faz qualquer sentido.

Ao fumar penso que raio, por que raio não vou no rápido uma hora mais tarde. Digo de mim para mim por que raio não hei-de ir neste. Sabe-se lá se voltarei a andar num comboio assim, Foram precisos 45 anos para andar num comboio assim. Reentro. Abro a janela. Sento-me.

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Postcards from Romania (12)

Elisabete Figueiredo

Ainda em Brasov, a caminho de Sighisoara, este postal é para o José Guimarães

Faz-me falta o meu amigo, quando me sento nas esplanadas a ver passar as pessoas. As romenas são giras, Zé. Mas teríamos material de análise para os próximos 25 anos, te asseguro.

Teria mil postais hoje. Mil. Tal como tenho, às vezes, mil olhos, sendo certo que nunca serão suficientes.

Do centro vou para a estação dos caminhos-de-ferro. Compro o bilhete para o próximo comboio, bem vejo que é regional, mas ainda assim compro o bilhete. Espero meia hora na estação. Está cheia de ciganos (politicamente correto seria dizer ‘roma people’). Homens, mulheres, crianças. Os putos, especialmente os rapazes, assumem um ar muito másculo, nas suas camisolinhas de alças. Alguns escarram para o chão. Outros carregam sacos e saquinhos, empurram carrinhos. Como os pais.

Os ciganos representam cerca de 2% da população romena. A algazarra de sacos é imensa. Compreende-se, muitos, quase todos, serão nómadas ou perto disso, andam com a casa atrás. Nada a dizer. Se eu tivesse que carregar a minha casa às costas para trás e para diante, o que faria? De repente, ao pensar nisto lembro-me do Moonlight Kingdom, do Wes Anderson, que vi em Lisboa, agora. A rapariga quando foge de casa leva uma mala. Como é uma miúda bem arranjada, de sombra colorida nos olhos, espera-se que a mala contenha roupa. Um dia ela abre-a. A mala está cheia de livros. Para mim, é a cena mais bonita do filme. [Read more…]

Postcards from Romania (11)

Elisabete Figueiredo

Looking good, mudda fucker

Na descida do monte da Citadela, perco-me, naturalmente. Doesn’t look so good. Até que encontro um rapaz a concertar uma bicicleta e lhe pergunto o caminho para o centro. Diz-me que sempre para baixo. Certo. O castelinho é outra recriação romântica. Outra Walt Disneylização. O costume. Penso nesta febre moderna (ou pós-moderna. ou o raio) de tudo patrimonializar, folclorizando tudo. Aborrecem-me estes lugares. Podia estar em qualquer sítio, na verdade.

Lembro-me que não sei dizer amor em romeno. Parece-me grave e ao jantar pergunto às miúdas do café como se diz amor. Dizem-me ‘te iubesc’ e acrescentam que é o que devo dizer ao meu boyfriend. Agradeço-lhes, mas não fico satisfeita. No hotel pergunto à rapariga da receção. Diz-me que ‘te iubesc’. Eu digo-lhe amor, amor, love, amour, amore… como se diz em romeno? Não quero dizer amo-te. Quero dizer amor. Ou melhor saber dizer amor em romeno. ‘Dragoste’ ou ‘iubire’. Multumesc. Buna seara ou noapte buna.

(Henrique Gil, este postal é para ti. Ou melhor, para o André Gil. E para ti. Pronto.)

(Brasov, 9 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (10)

Elisabete Figueiredo

Boa tarde, senhor Anselmo

Da Sinagoga, atravesso a Porta Schei e percorro uma rua longa até à Piata Unirii. Vou devagar. Às vezes chove. Mas está calor. Vou reparando em tudo, acho que em tudo, pelo menos em tudo o que é possível.

Aqui nasceu um revolucionário e é bonito, além uma roda de bicicleta espreita de uma esquina, ali uma porta vermelha engraçada. De repente vejo uma senhora de lenço na cabeça que limpa um parapeito. Que bonita, penso e olho para ela. Que me devolve o olhar, embora seguramente não o pensamento. Fico enternecida, vá-se lá saber porquê. E pergunto-lhe com gestos se posso tirar-lhe uma fotografia à janela. Olha-me surpresa e eu digo em italiano apontando para ela: è bella! Ri-se. Deve ter ganho o dia, ou talvez não. Há quanto tempo não lhe dirão que é bonita? Diz-me que sim e eu tiro a fotografia. Devíamos dizer mais vezes às pessoas que são bonitas.

Da Piata Unirii onde não está ninguém, apenas um pedinte e duas senhoras que conversam em frente ao supermercado e alguns taxistas, depois de comer bolas de queijo, uma salada e beber uma Ursus preta, decido que não me apetece andar os 3 ou 4 km até à Cidadela. Apanho um dos táxis da praça. O taxista fala francês. Falo também. Fico muitas vezes contente de saber falar algumas línguas. De as compreender. Percebe-se melhor o que há para perceber do mundo. [Read more…]

Postcards from Romania (9)

Elisabete Figueiredo

No monte Tampa, afinal, é Portugal

No monte Tampa, afinal, é também Portugal. Bem sei que não é belo postal ilustrado. Mas não interessa, ou interessa? Há nisto qualquer coisa de caseiro, digamos. Reconfortante, se quiserem, de uma maneira absolutamente absurda.

Encontro a família de romenos que fotografei ontem em Bran. Acenam-me muito. Aceno-lhes muito, de volta. Rimo-nos. Que podemos fazer mais?

O café romeno sabe a caganitas de rato. Juro. Nunca provei caganitas de rato, mas tenho a certeza, ao beber este café impossível, que é assim que sabem. Desço o monte, outra vez de teleférico. Venho eu, apenas, e o maquinista que me ensina (agradeço-lhe a distração) a pronunciar corretamente ‘multumesc’. Ensino-lhe a dizer obrigada. La revedere e vou em direção à Biserica Neagra, que é como quem diz a Igreja Negra. Sosseguem, nada tem a ver com cultos satânicos ou vampiros. Apenas com um incêndio que a deixou negra, ainda que intacta. Lá dentro um enorme órgão de tubos, desenhado por Bucholz. Gosto de órgãos de tubos e de acender velas nas igrejas. Por causa das velas, não das igrejas. Se calhar é o mesmo. Na Biserica Neagra não há velas, de modo que me sento a observar o órgão que é impressionante. 4000 tubos. Belíssimo. [Read more…]

Postcards from Romania (8)

Elisabete Figueiredo

Brasov, subindo o monte Tampa

Tenho vertigens. Muitas. Ao ponto de as cidades e os campos se porem a rodar quando me atrevo, o que é quase sempre, a subir muito alto. Uma vez subi num teleférico de esqui mais de 2000 metros. Foi em Salzburgo e posso jurar que as montanhas estavam vivas e rodopiavam… sim, uma alusão fácil ao filme ‘Música no Coração’. Whatever.

Apesar das vertigens, resolvo subir o monte Tampa de teleférico. 1000 metros ‘apenas’. O teleférico é pequeno, não caberão mais de 10 pessoas. Vamos 10 exatamente.  Começa a subir e é quase a pique que a traquitana vai.

Penso na balança que vi no dia anterior no castelo de Bran. Uma balança para pesar almas. Parece que as almas dos aprendizes de satanás, podia ler-se, são mais leves que as das outras pessoas. É curioso. Se alguma vez tivesse pensado nisto, diria que era justamente o contrário. E começo a desejar que sejamos todos aprendizes de satanás, dentro do teleférico, just in case.

Lá em cima, a vista compensa os maus pensamentos. Evito chegar-me à beira dos varandins. Gosto de sítios altos porque tudo, cá de cima, parece um mapa. Quer dizer, acho eu que é por isto. Que outra razão poderia haver para me sujeitar a tal suplício?

O teleférico conduz-nos a um bosque, caminho uns bons 20 minutos até chegar às traseiras das letras gigantes:

B R A S O V

que se veem de toda a cidade.

(Brasov, 9 de Agosto de 2012)

Postcards from Romania (7)

Elisabete Figueiredo

Your face not Portugal

Decido parar em Rasnov, na volta, espero na paragem de autocarro com um cheiro esquisito em volta. Milho doce cozido. Ora aqui está o cheiro esquisito. Pergunto à senhora se posso tirar uma fotografia. Diz-me que sim. Talvez na esperança que eu coma uma maçaroca cozida. Pouca sorte (provavelmente a minha). Detesto milho.

Um casal de romenos com um filho está também à espera do autocarro. São turistas. Como eu. O homem procura tirar uma foto dos três. Naturalmente ofereço-me para lhes tirar a fotografia fazendo gestos. Multumesc, diz-me ele. Cu placere, respondo eu, fazendo recurso das poucas palavras que sei dizer em romeno.

Numa mistura de inglês e romeno pergunta-me de onde sou. Portugal, respondo eu. Faz um ar muito espantado, olha para mim, passa com a mão em frente da sua própria cara e diz: ‘your face not Portugal’.  Rio-me e repito: Portugal. Volta a abanar a cabeça: ‘your face not Portugal, Portugal dark’ e aponta para o próprio braço, moreníssimo, nem com 20 anos na praia eu ficaria assim. Volto a rir-me e tento responder numa mistura esquisita, ainda mais esquisita, de italiano e inglês, na esperança que se pareça ao menos vagamente com romeno, que em Portugal há pessoas de todas as cores, como na Roménia. Não percebe. Hesito entre demonstrar-lhe com o cartão de cidadão a minha nacionalidade e continuar a rir-me, não dele, mas de mim. De ser contente por não parecer Portugal.

Continuo a rir-me. Riem-se os três também e entretanto chega o autocarro.

(Bran, 8 de Agosto de 2012)