No céu de lusco-fusco

No céu de lusco-fusco

No céu de lusco-fusco eras a luz do sonho e do infinito anoitecer chuvoso com cheiro a terra molhada

eras a fragrância dos campos no suspiro de um violino à sombra da figueira nos primeiros chuviscos do verão

eras a luz da tarde tombada num ramo de flores colhidas ao fim do dia

eras o gesto de quem diz que os braços se enlaçam para aquecer o coração frio

eras a fome e a sede que o êxtase celeste inspira sob um tecto de magnólias

eras o veludo do orvalho nas lágrimas da noite pura ao romper da madrugada

eras tudo… e nada.

A máquina do tempo: passam hoje 254 anos…

 

Eram as 9,30 do dia 1 de Novembro de 1755. Dia santo, grande parte da população de Lisboa encontrava-se nas igrejas. Subitamente, um rugido medonho subiu das entranhas da terra e sucessivos abalos destruiram em minutos uma das maiores e mais ricas cidades da Europa. Aos abalos sucedeu um pavoroso tsunami e um enorme incêndio. O cálculo do número de vítimas mortais vai em alguns autores até quase às cem mil (a cidade teria 275 000 habitantes).

O primeiro abalo, o mais forte terá durado entre três  e nove minutos, pensando-se que terá atingido o grau 8,7 na escala logarítmica de Richter. Abriu fendas com cinco metros de largura. Minuto e meio depois, uma violenta réplica provocou o tsunami com vagas que atingiram os 20 metros e devastaram o que o abalo deixara de pé. Horas depois, desencadeou-se um forte incêndio que completou a destruição. A Sul, a região de Setúbal e o Barlavento algarvio foram também grandemente afectados.

 

É muito difícil imaginar como seria hoje Lisboa se não tivesse sido flagelada pelo terramoto de 1755. É praticamente incalculável o valor do que se perdeu – conventos, palácios, igrejas, o Castelo, a sumptuosa Ópera do Tejo, a Casa da Relação, o Paço da Ribeira (e a sua valiosa biblioteca de 70 mil volumes), a Torre do Tombo, o Hospital de Todos-os-Santos as livrarias do marquês de Louriçal e dos conventos de S. Domingos, do Carmo, do Espírito Santo, documentos, quadros, baixelas valiosas… Sabemos o que se ganhou – a nova cidade pombalina , construída em cima das ruínas da urbe medieval.

O terramoto impressionou vivamente a Europa da época. Numerosas obras literárias se inspiraram ou se referiram ao cataclismo – entre muitos outros, nomes com os de Voltaire, Kant, Humboldt, Goethe, Le Brun, padre Feijoo, Charles André, Goldsmith, Baretti, Lemercier.  

Em 26 de Janeiro de 1531, Lisboa fora abalada por um outro sismo de grande intensidade. Segundo descrições coevas, terá durado «o tempo de um credo», durante o qual ruíram cerca de mil e quinhentas casas e numerosas igrejas. Há uma colorida descrição de Garcia de Resende. Gil Vicente esforçou-se por explicar as causas naturais da catástrofe, contrapondo-as à generalizada opinião de que ela significou «um castigo de Deus» pelos desmandos dos homens.