Li Bai

Li Bai, ou Li Po, foi um poeta chinês do século VIII, nascido em Tokmuk, na actual República do Kirghizistão. Dizia-se descendente de Lao Tsé, o patriarca do Taoismo, e viveu uma vida atribulada, peregrinando por terras da China e envolvendo-se em episódios que foram sedimentando uma lenda que hoje faz dele um dos grandes vultos da cultura chinesa.

Conta-se que, numa das suas peregrinações, Li Bai terá encontrado um grupo de soldados que conduziam um condenado à morte a caminho do seu trágico destino. Aproximando-se, Li Bai fixou o olhar do prisioneiro, observou-o profundamente e concluiu que não se tratava de um mero ladrão, mas de um homem superior. Como trazia uma bolsa cheia de ouro, herdado da última mulher com que fora casado e que entretanto falecera, despejou em frente aos soldados uma parte desse ouro, pedindo em troca que salvassem a vida do condenado. Perguntou-lhe o nome, Guo Ziyi, fixou-o nos olhos e seguiu viagem. Diz-se que muitos anos mais tarde, Li Bai e Guo Ziyi ter-se-ão novamente encontrado e que, dessa vez, terá sido Guo Ziyi a salvar a vida ao poeta.

Diz a lenda que Li Bai terá morrido afogado, quando se lançou a um lago para tentar abraçar o reflexo da lua.

 

Três poemas de Li Bai:

 

A um pirilampo
A chuva não apaga o teu fulgor,
o vento aumenta o teu ardor.
Porque não voas para o céu distante
e és, ao luar, uma estrela cintilante?

Este é considerado o primeiro poema de Li Bai, escrito aos dez anos de idade

 

Aos pardais do campo
Porquê voar como o martim-pescador?
Porquê voar como as andorinhas do palácio de Wu?
Grandes redes caçam o martim-pescador,
se há fogo no palácio, os ninho são queimados.
Melhor é voar simplesmente entre os canaviais,
nem águia nem falcão vos poderão agarrar.

 

Ode à Primavera
O coração da Primavera agitado, como vagas.
As mágoas da Primavera esvoaçam confusas, como flocos de neve.
As emoções despertas, enlaçadas em alegria e sofrimento.
Que sinto dentro de mim na mais doce de todas as estações?

Poesia de bêbados

Ao Cuidado dos ” Aventarias ” desta vida.

 

” Porque ”

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

in Mar Novo (1958) de Sophia de Mello Breyner Andresen

Da ignorância da nossa burguesia

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Descubro pelo José Simões que os nossos parolos, a malta da patronal, andam a viralizar isto, um erro, dizem eles.

No princípio era o verbo, ó analfacoisas.  Isto é um verso, um belo verso, até a poesia popular ultrapassou há muito a fase das quadras. Mas não lhes podemos exigir que lá cheguem, ainda pensam que o hino da mocidade é um poema.

Ribomba o Trovão

Poema alusivo, de um anónimo, dito por mim, a propósito de um desafio…

 

raios-trovao

 

ver e ouvir, aqui: http://wp.me/p29WGc-BJ

Herberto Helder, telúrico

Mulheres correndo, correndo pela noite

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredores magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo. [Read more…]

Concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”

Nos próximos dias 15 de Fevereiro no Teatro São Luiz em Lisboa e 16 de Fevereiro no Teatro Pax Julia em Beja, estreia o concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”, baseado na vida e obra poética de Al Mutamid Ibn Abbad, no seu percurso dramático entre Beja, onde nasceu, Silves, onde se afirmou como o grande expoente da poesia da sua época, Sevilha, onde foi Rei da Taifa Abádida do Al Andalus, e Aghmat, nos arredores de Marraquexe, onde morreu no cativeiro. Um concerto com a direcção artística do arquitecto, realizador e produtor Carlos Gomes, com a direcção musical de Filipe Raposo, compositor e pianista, e que reúne outros músicos de Portugal, Espanha e Marrocos, como Janita Salomé, Eduardo Paniagua, Cezar Carazo, El Arabí Serghini, Jamal Ben Allal e Quiné Teles.

O projecto conta com o apoio da Direcção Geral das Artes e, para além do concerto, existe a intenção de gravar um CD e realizar um filme documentário durante o ano de 2014.

Link da página facebook https://www.facebook.com/almutamidreipoetadoalandalus

Link da iniciativa de crowdfunding do projecto http://ppl.com.pt/pt/prj/almutamidreipoetadoalandalus [Read more…]

Poética do Prazer entre Sereias e Ciclopes

prazerFaça-se justiça a todos quantos descobriram
a singela chave para superar
esta mó nacional tão abaixo de baixa,
chave para um homem se agigantar
ante as mandíbulas impiedosas de um mundo a colapsar
ou talvez não.
Quem puder, se já corria, intensifique a sua corrida.
Passe a ser bidiária, a meio da manhã,
ao fim da tarde. Duas horas, portanto.
Será o prazer de correr, passar pelas árvores,
sorver em largas golfadas a aragem tépida,
húmida, odorosa,
deste Outono. Não há outro.

Às refeições, o prazer do vinho tinto:
sinta-se com a boca toda. Sorva-se.
Cheire-se.
Observe-se-lhe a cor quente, bela.
Invista-se tempo, sorriso, calor,
no prazer do convívio familiar
e na preciosidade dos amigos.
Invista-se no prazer de observar embevecido
cada um dos nossos filhinhos, netinhos, a crescer.
Ame-se cada mão na mão, olhos nos olhos,
cada abraço, cada saudação calorosa
e acolhedora. [Read more…]

Oração Para as Minhas Horas de Êxtase

Senhor, meu Deus,
Criador de Todas as Coisas, Visíveis e Invisíveis,
todos os dias vou, com esta minha carne, este meu suor,
estes meus olhos, à procura da Tua Face a fim de entrar em Êxtase.

À brisa do fim da tarde, após ter morto todas as agitações estéreis,
e todas as queixas pelo desconcerto do Mundo e o meu,
sei que Te encontrarei com toda a certeza
no silêncio da grande luz crepuscular
sob o rumor marinho. Só. A sós. [Read more…]

Tenho Comido Amoras do Caminho

Tenho comido frutos silvestres do caminho.
Amoras. Uvas. Inaudita doçura.
Paro.
Fico à beira-ruínas,
esticando muito o braço para alcançar os mais túrgidos.
Quinze minutos entre colher e comer. Às vezes mais.
Ignoro os carros que passam
e talvez pasmem por trás do meu atrevimento recolector.

Acho que voltei àquela espontânea pureza da primeira infância
de não andar nada preocupado
senão com cada minuto grávido de si-minuto no meu dia,
entre amar, cuidar, entre ler, escrever, correr.

Suor.

Todos os dias, a cada dia,
chova ou não, tenho o meu Mar só para mim,
adorado e tocado da minha praia,
já esvaziada de hereges cegos ao grande e macio verde,
já livre de apóstatas do sagrado rebrilho, espumoso, azul.
Uma hora a contemplá-lo e adestro-me para todos os combates estáticos
nas vastas estepes da consciência.

Cada onda, coleando por sobre rochas milenares, é minha e saúda-me.
Cada rumor de maré que brame e brade é voz interior para mim.
Setembro crepuscular. Embrenham-se os humanos no que os devora.
Conservar o ilusório possuído. Aumentá-lo.
Mínimo e Minimal, floresço mais leve, estável, feliz.

Nómada de todos os Possíveis,
minha Praia, meu Mar voltaram a ser só meus,
coisa-pleroma só para mim, único a vê-los.

Pergunta idiota

Posso dizer do António Ramos Rosa, dele não li um poema que me fosse às ventas e logo me ajoelhasse?

um homem morreu. mas não era só um homem. era poesia. ainda é.

O A. Pedro Correia já deu a notícia aqui, mas quando morre um poeta, é preciso escrever em toda a parte e infinitamente que a poesia não morre nunca. Morreu um homem. Chamava-se António. Era poesia. Ainda é. Está vivo. E escreve sol. 

Image

«Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde»

(António Ramos Rosa, ‘estou vivo e escrevo sol’)

 

Fotografia roubada ao Artigo 21.º

Poema em Linha Recurva

só crashNunca conheci, na imprensa,  nas rádios, nas TV,
quem tivesse ousado declarar merdífero e impróprio
para consumo-comentário o comentador Sócrates.
Todos os meus co-bloggers têm sido esquecediços de tudo quanto lhe respeita.
E eu, tantas vezes obcecado por ele,
tão lindo a dizer coisas com embrulho mariquesco-gay na RTP,
eu, tantas vezes insistente em que ele cheira mal e não tem vergonha nem se enxerga,
a não ser o penteado artificialmente grisalho ao espelho, lindo,
eu, tantas vezes fetichista com ele nu-nádegas por seviciar com ramos de rosas rubras,
eu tantas vezes tresandescamente repetitivo contra ele,
indesculpavelmente o mesmo acerca dele,
eu, que tantas vezes não tenho tido paciência
para escrever sobre outra merda qualquer senão sobre ele,
eu, que tantas vezes tenho sido obtuso, direitolas, elitista, nortista,
que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das sinceridades orgânicas e viscerais,
que tenho sido prolixo, exaustivo, monótono e pesporrente,
que por isso mesmo tenho sofrido enxovalhos, escarros, mil dislikes e engolido,
que quando não tenho engolido, tenho sido mais ridículo ainda com palavrões e palavronas;
eu, que tenho sido cómico às turistas de hostel e às melgas iliteratas,
eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos colegas de ócio e vítimas da dívida,
eu, que tenho feito vergonhas vocabulares sem me arrepender,
poupado dinheiro como um salazarento sem me indulgenciar sequer com uma cerveja,
eu, que, quando a hora dos socos surgiu, me tenho inchado de peito
para dentro da possibilidade de calçar socos e abandonar sandálias;
eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
dos grandes desprezos e grandes condescendências cínicas e invejosas,
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste merdi-mundo da bloga.

Toda a gente que eu penso que conheço e que posta como eu
nunca teve uma sanha ridícula anti-Sócrates, nunca postou enxovalhos a Sócrates,
nunca lhe radiografou o recurvo carácter
nem o imaginou paliativamente num cárcere húmido, com cheiro a mijo,
nunca foi senão rei – todos eles reis – na grande bloga abstinente
e incapaz de hostilizar o Poli-Indecente Político por antonomásia
e por execrável excelência…

Quem me dera ouvir de alguém blogger a voz humana no youtube
que confessasse não uma tendência anti-Sócrates,
mas uma equidistância anti-Sócrates e semi-pró-Passos;
que emitisse, não um post arrasador sobre um Crato,
mas um post atoleimado e sanguinolento anti-Sócrates!
Não, são todos a Suprema Condescendência e o Absoluto Olvido,
se os leio e postam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi teimoso
militante anti-maçónicos,
anti-jacobinos, anti-ateus, anti-mafiosos socialistas no grande antro do Rato?
Ó reis, meus irmãos, arre, estou farto de puritanos e beatos laicos!
Onde é que há gente na bloga? Então sou só eu que é obcecado e insistente
vigiando um caramelo que abraçou Portugal com as pernas
e ainda aspira a repetir a inglória proeza
constringindo-o-serpente como Presidente da República?

Poderão os leitores não os terem lido,
podem ter sido encornados pela sintaxe – mas bloggers anti-Sócrates nunca!

E eu, que tenho sido obcecado pela matéria socratesiana sem ter sido distraído,
como posso eu postar como os meus iguais sem recalcitrar nesta relíquia culposa
que ousa comentar lá, onde é imperdoavelmente culpado?
Eu, que tenho sido anti-Sócrates, literalmente anti-Sócrates,
anti-Sócrates no sentido milimétrico e atrevido da anti-socratice.

10 de Junho, haja poesia

dilma_capa

Enquanto facturava 2500€ Marcelo Rebelo de Sousa choramingava-se ontem porque Dilma Rousseff estava em Portugal e não ia meter os pés em Elvas. Dilma é uma mulher culta e com uma cultura de esquerda. A simples ideia de que a Presidente do Brasil sendo uma mulher culta e com uma cultura de esquerda ia meter os pés nas celebrações do dia do colonialismo arraçado de Camões só lembra a uma Marcelo, e por isso recebe 10000 ao mês, para mentir, debitar propaganda e dizer disparates. Sim, o 10 de Junho é isso, a celebração da escravatura, do genocídio, das páginas mais negras da História de Portugal inventada pelos republicanos no séc. XIX, abençoada por Salazar no seguinte e reciclado em mais gesta embora cada vez menos heróica. Um dia que devia levar mais 14 em cima e aí sim, ser o Dia de Portugal, celebrando o primeiro momento da sua fundação.

Dilma, que veio aos saldos dos CTT, TAP e outros pedaços de Portugal que os migueisvasconcelos meteram à venda ao preço da uva mijona, vai estar presente na entrega do Prémio Camões, onde se celebra o vate pelo que valeu, a poesia e não a épica, e sobretudo a língua e quem a pratica.

Entretanto Nuno Judíce prestou-se à vassalagem da medalha, enquanto Artur Queiroz travestido em Álvaro Domingos (quem te viu e quem te vê) acusa um filho de Herberto Hélder de ser “filho de ninguém“. Grande Herberto, que nunca te prestaste a homenagens, quem se não os poetas para salvarem a honra da pátria.

Cacém-Barcarena-Mont’Abraão

Cacém - BarcarenaLinha de Sintra. A pé, ao longo dela, do Cacém a Vale Abraão, há flores na berma, campestres, de todas as cores e para todos os gostos. O variegado delas embriaga, paraíso de abelhas que não vemos, promessa de néctar, âmbar ou luz que nem sabemos.

Humildes, airosas, pisáveis, misturam-se a marginar o férreo caminho, iluminando a grande e metálica certeza de haver por onde ir e regressar às pobres moles. Estão desempregadas, coitadas, as flores na berma do caminho, sem prado, esquecidas, encharcadas de efémero e eternas porque as vemos. Dir-se-ia que é só por elas que ali há linha e a nossa azáfama, meu amigo!

Adília Lopes

Ontem, enquanto fazia umas pesquisas na internet para algo que queria escrever no Facebook (sim, eu sou uma daquelas que usam o Facebook com bastante assiduidade, sendo até frequentemente o alvo das graçolas dos amigos LOL, :-), <3), cruzei-me com uma tese brasileira interessantíssima (estes estudos são sempre brasileiros, só os brasileiros publicam tanto na net, sem receios de roubos ou apropriações) onde se fala de Adília Lopes e da sua escrita. Claro que pesquisa leva a pesquisa, que isto de surfar na net para pesquisas é viciante, e acabei por encontrar vários poemas conhecidos e outros desconhecidos. [Read more…]

Feliz Natal e um fantástico 2013

O Aventar, com quem escreve, com quem comenta, com quem aparece para ler foi parte de mim no último ano.2feliznataljp

A Todas e a Todos desejo um fantástico Natal e um 2013 cheio de coisas boas!

À falta de competência para escrever mais e melhor deixo nas palavras de Manuel António Pina o que vos quero dizer.

Obrigado por estarem por aqui!

A canção dos adultos

Parece que crescemos mas não.
Somos sempre do mesmo tamanho.
As coisas que à volta estão
é que mudam de tamanho.

Parece que crescemos mas não crescemos.
São as coisas grandes que há,
o amor que há, a alegria que há,
que estão a ficar mais pequenos.

Ficam de nós tão distantes
que às vezes já mal os vemos.
Por isso parece que crescemos
e que somos maiores que dantes.

Mas somos sempre como dantes.
Talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão tão distantes
que nem vemos como estão distantes.
Então julgamos que somos grandes.

E já nem isso compreendemos.

Caminho com Sophia

lagos

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. [Read more…]

Átrio dos Gentios

Decorre durante os próximos dois dias o Átrio dos Gentios, em Braga e Guimarães, subordinado ao tema “O Valor da Vida”.

Ana Luísa Amaral (“não sei se sou crente”; “tenho saudades de Deus”) confessa que gostava de ter fé e D. Carlos Azevedo explica o conceito do Átrio dos Gentios, no debate que ocorreu hoje à hora do almoço na Rádio Renascença.

“Crentes e não crentes amam a vida, defendem a dignidade e têm inquietações sobre estas questões.”

Vale a pena ouvir, não demora muito tempo. São dezoito minutos que ainda cabem na nossa vida!

“Felicidade inteligente”; “todos sentimos a dor, todos pensamos”; ” a arte pode ser um caminho para expandir os afectos”; “a compaixão, sentir com o outro”; “ver o outro feliz”; “o futuro exige de nós que sejamos ponto de partida” ; “precisamos de recantos e cantos onde a nossa alma se anime”; “narrar a vida torna-a mais preciosa”; “a poesia é a versão laica da oração”- são algumas das ideias que se podem ouvir entre a poetisa e o sacerdote.

Não há muros entre nós, crentes, e não crentes.

Poder – a mão direita

 

serviço público

Esta noite, a RTP-2 conta-nos a vida do maior poeta português vivo.

Tu és melhor do que tu

Faz-me o favor…

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor – muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny, in “O Virgem Negra”

Sou o que faço

No livro Memórias do Livro de Geraldine Brooks  descobri uma frase muito bela de Gerard Manley Hopkins (1844-89) que, naquela edição portuguesa (casa das letras), Ângelo Pereira traduziu como “Sou o que faço, foi para isso que nasci.” Fui à procura do poema. Partilho com todos: Chispeia o papa-peixe

Chispeia o papa-peixe, brilha a libelinha;
Tombado sobre a borda de um tanque redondo
O seixo soa; a um toque a corda ecoa; e o som do
Badalo é língua e brada longe o nome – é assim a
Ação que sempre é feita: o ser que em nós se aninha
Cada coisa mortal o distribui de todo;
Vem-a-si, trilha a si; “eu” exclama, escande, estronda o
Eu sou o que faço: tal era a missão que eu tinha.

(…)

(tradução de Alípio C. de F. Neto)

Fatwa à Poesia. Um Certo Gato Zarolho

Isto é um peso. Descobrir-se um homem Poeta a meio da vida, demasiado sensível às palavras e ao puzzle brutal delas sublime, esmaga-me. Tanto acalmar-me, respirar fundo sob o imperativo de escrever: «Vá lá, Joaquim, menos paixão racional! Vai lá para fora ver o azul.» Saio. Contemplo efectivamente o passar de nuvens e aviões, o irisar do disco solar sob o vapor que alveja celestial [visto do chão, o Sol está sob a nuvem, por detrás do Sol há outro chão], eventualmente bebo um copo de vinho tinto com a minha fêmea amada e acendo o meu ocasionalíssimo cachimbo de festejar futebol ou o transcurso de etapas pessoais. Regresso. E tudo me sai poema.

Há depois um gato zarolho, uma aparição clandestina aqui por casa. Amarrotado, sujo, torcido, cinza-castanho, o pobre bicho sem um olho marginaliza-se e, no entanto, implora. Implora à distância sem miar um miado. Parece em perpétuo passo de camaleão, bicho que, como se sabe, hesita fisiologicamente para trás e para a frente cada passada camuflada. Assim o nosso felino zarolho ao visar partilhar a comida do Tareco, o castrado, coiso oficial da família e que nos adoptou por sua livre e interesseira vontade.

Desculpem. Era de facto para fazer uma fatwa à Poesia. Fica para outra vez. Tudo me sai poema.

O Bispo de Beja, de Homem-Pessoa

Em 1980 a &etc publicava um folheto poético, datado de 1910, “denunciando a vida sexual de um bispo com uma perspectiva exclusivamente qualitativa e, aí, conservadora, se não inquisitorial“.

Valeu a Armando Silva Carvalho

ter sido apreendido pelas polícias Judiciária e de Segurança Pública à ordem do Ministério Público, seguido de processo instaurado ao editor por crime de abuso de liberdade de imprensa (isto em 1982, seis anos volvidos sobre a liberdade instaurada a 25 de Abril)(…). 
Processo arquivado sem água-vai ao editor, regados a gasolina e sujeitos a Auto-da-Fé no pátio do Tribunal da Boa-Hora os exemplares “apreendidos”,

Não fui proprietário da preciosa edição, mas fotocopiada a de um amigo, aqui se oferece devidamente digitalizada, à prova de combustíveis.

O Bispo de Beja

Música e poesia

    (adão cruz)

 Passei o dia a ouvir música

Passei o dia a ouvir música sempre a mesma alternando Madredeus e Erik Satie
Como foi possível parecerem-me tão semelhantes
Que percebe de sons este monocórdico espírito
Mas foi o mesmo o que produziram em mim a sensação amarga de ter atirado fora uma paveia de sentimentos [Read more…]

Sidi Hammou, o mestre da poesia

skoura-10

O Alto Atlas na região de Skoura

“Aquele que ignora a poesia não conhece a estrada da inteligência que conduz à sabedoria, pelos degraus da ciência e da arte.”

Canto do Souss (BOUANANI, 1966, obra citada)

A poesia Amazigh (1) vem sendo preservada ao longo dos tempos através de um processo de transmissão oral, levado a cabo por homens mais ou menos iletrados que, percorrendo as aldeias e áreas rurais, levam até aos seus habitantes mais simples os saberes e fundamentos da cultura popular.

São os “poetas da tribo”, que fortalecem os elos entre os seus membros, contribuindo para o reforço da sua identidade e ajudando a ultrapassar as dificuldades colectivas. Exaltam a coragem dos seus heróis, dão corpo aos rituais colectivos que celebram os acontecimentos do dia-a-dia e os ciclos da natureza. São os “poetas errantes”, que deambulam em pequenos grupos ou isolados, recitando ou cantando os seus poemas, versejando, acompanhados ou não por instrumentos musicais, aliando ao espectáculo e divertimento a mensagem instrutiva, os princípios da justiça, morais e religiosos, o saber, a própria intervenção de carácter político.

“O poeta está envolto em mitos. Pensamos que ele pode entrar em contacto com as forças da natureza, apaziguá-las ou virá-las contra alguém; fala a linguagem dos animais, das plantas e dos insectos. O mundo não tem segredos para ele. Mas a crença popular não ignora que o poeta deve aperfeiçoar a sua arte junto de outros poetas ilustres. Entra ao serviço de um deles, acompanha-o por todo o lado onde vai, aprende o que ele diz. Após um longo período de iniciação poética, ele próprio pode então exprimir-se, dar um timbre pessoal aos seus cantos.” (BOUANANI, 1966, obra citada) [Read more…]

Do Bolhão à Trindade

O Porto comove-me. Vejo-o todos os dias como se o visse de novo. Pelo menos esforço-me por abrir os olhos e senti-lo como Cesário a nauseante cidade dele. Tento imaginar como entranham o meu Porto quantos nos visitam e são tantos e tantas ou de queixo erguido, reparando no que deixamos de ver por ser nosso, ou obliquando o olhar a partir dos city sightseeing buses, para observar como são e o que fazem os pequenos portugueses no seu habitat natural.

Bolhão. Sigo por passeios, atravessamentos-passadeira. Vou aonde devo ir. O mercado mostra as mesmas pombas e as mesmas gaivotas cativas de sempre, em volutas e tangentes temerárias. Nos telhados interiores — posso espreitar da entrada norte onde há sempre turistas especados a olhar para dentro — as mesmas escorrências esbranquiçadas daquelas cloacas industriosas alvejam o negro da cobertura. De dentro, avulta um pequeno rumor baço de gente. [Read more…]

Lamento de um pai de família

de Jorge de Sena e por Mário Viegas. Tem filhosdaputa e tudo.

Quem não quiser ouvir, também pode ler:

Lamento de um pai de família

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma, ser poeta neste tempo de filhos só de puta ou só de putas sem filhos? Neste espernegar de canalhas, como pode ser? Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos que se revêm nele e o dececionado dos polícias que com ele não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante de amigos e inimigos para ganhar a estima dos poderosos ou dos partidos políticos que nos chamarão seus génios. Antes ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
[Read more…]

O sol quando nasce…

   (adão cruz)

Primeiro 
Único
Verdadeiro
Maio acordado
Penoso
Duro [Read more…]

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