Deitar à terra

Os lojistas da especialidade olham-nos com uma bonomia ligeiramente trocista e parecem saber exactamente o que buscamos: as espécies mais resistentes, as que suportarão a inépcia dos seus cuidadores, as rajadas de vento das noites portuenses, a inclemência do sol de Maio. As que são, a um tempo, dóceis e obstinadas.

A cada primavera que se anuncia, saímos das tocas de inverno, trocamos com entusiasmo as ferramentas da vida moderna pelas pazinhas que evocam as construções de areia da infância, e é ver-nos, nas varandas, nas nesgas de jardim que a cidade ainda não ocupou, esquecidos de tudo, tomados unicamente pela dúvida: a que profundidade plantar um bolbo de íris?

Seguir-se-ao longos dias de ansiedade, espreitadelas constantes, tantas vezes tomadas pela incredulidade de que algo (e muito menos uma íris) possa vir a irromper desse manto denso e negro. Virão ainda mais dias de neblina e chuva, a terra continuará quieta e desolada, mas a memória desses momentos em que os dedos remexem a terra, e em que julgamos vislumbrar, num fugaz instante, uma sabedoria ancestral que não imaginávamos possuir… essa memória preenche os dias de inverno.

E virá o dia em que, ao cair da tarde, regressados das obrigações e dos horários e dos dias cinzentos, descobriremos, com espanto e, confessemo-lo, uma pontinha de orgulho, que a primeira íris se desprendeu enfim e espreita o mundo com o seu corpo frágil e intensamente lilás. E nessa nova condição de semeadores, também nós olharemos o mundo como novo.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Esta prosa é um poema.É uma pequena maravilha, Carla!

  2. Ricardo Santos Pinto says:

    Bem-vinda, Carla. Que sejas muito feliz por aqui.

  3. Snail says:

    É quase um poema (muito lindo) mas é, sobretudo, um hino à esperança nos dias do futuro. Parabéns, Carla.

  4. Carla Romualdo says:

    Obrigada, Luís, Ricardo e Snail. Não me ocorre melhor sítio do que este para receber a primavera.

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  1. […] sem hesitações, a primeira íris que nasceu na minha varanda, e que deu origem ao texto com que iniciei a minha feliz vida no Aventar. A sua existência foi curta mas inspiradora, à sua pequena […]

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