Jovens folhas

Se a tivessem conhecido, a primeira pergunta que ela vos teria feito, aposto convosco, seria:

– Quantos anos me dá?

E enquanto vocês atiravam números errados – 70, 73, 77, 80 – ela ficaria a olhar-vos com olhinhos matreiros, antegozando a vossa surpresa quando ela vos dissesse a verdade.

– Pois tenho 86, feitos em Janeiro.

E percebendo a alegria que lhe davam, vocês haveriam de exagerar o vosso espanto, que, não sendo pequeno, porque ela sempre aparentou menos idade, podia bem ser aumentado para alegria e orgulho da D. Carmen.

Assim foi a primeira conversa com a nova vizinha, quando há anos mudei de casa. Passei as semanas seguintes a vê-la saltar pequenos muros, a passear-se pelo bairro com grandes passadas e o andar sacudido de um basquetebolista, um caminhar de rapaz reguila que contrastava de forma bizarra com as ondinhas brancas do seu cabelo e os travessões de menina. Via-a nua muitas vezes, ou não gostasse ela de saudar o sol pondo-se em pelota à janela a cada manhã, ou porque achava que ninguém a via ou porque tanto lhe dava. [Read more…]

Deitar à terra

Os lojistas da especialidade olham-nos com uma bonomia ligeiramente trocista e parecem saber exactamente o que buscamos: as espécies mais resistentes, as que suportarão a inépcia dos seus cuidadores, as rajadas de vento das noites portuenses, a inclemência do sol de Maio. As que são, a um tempo, dóceis e obstinadas.

A cada primavera que se anuncia, saímos das tocas de inverno, trocamos com entusiasmo as ferramentas da vida moderna pelas pazinhas que evocam as construções de areia da infância, e é ver-nos, nas varandas, nas nesgas de jardim que a cidade ainda não ocupou, esquecidos de tudo, tomados unicamente pela dúvida: a que profundidade plantar um bolbo de íris?

Seguir-se-ao longos dias de ansiedade, espreitadelas constantes, tantas vezes tomadas pela incredulidade de que algo (e muito menos uma íris) possa vir a irromper desse manto denso e negro. Virão ainda mais dias de neblina e chuva, a terra continuará quieta e desolada, mas a memória desses momentos em que os dedos remexem a terra, e em que julgamos vislumbrar, num fugaz instante, uma sabedoria ancestral que não imaginávamos possuir… essa memória preenche os dias de inverno.

E virá o dia em que, ao cair da tarde, regressados das obrigações e dos horários e dos dias cinzentos, descobriremos, com espanto e, confessemo-lo, uma pontinha de orgulho, que a primeira íris se desprendeu enfim e espreita o mundo com o seu corpo frágil e intensamente lilás. E nessa nova condição de semeadores, também nós olharemos o mundo como novo.