Avô

Adélia Pires

O meu avô João era o ídolo dos meus quatro anos.
Fazia magia com um relógio de bolso e com ramos de oliveira. Com essa magia encontrava água e nasciam poços.
Como era cantoneiro, plantava árvores ao longo das estradas e muitos anos depois da sua partida elas ainda lá estão.
Monumentos à sua memória.
Pedaços do tempo da sua vida.
Pedaços de mim porque as amo em memória dele.
Quando tinha tempo, amanhava um Chão, onde uma macieira esperava pacientemente até Setembro para dar à luz umas maçãs rosadas, que o meu avô guardava numa cesta e ficavam libertar perfume na frescura silenciosa da loja.
No quintal da casa fez um jardim de canteiros, onde antes da Primavera se anunciar, combatia os trevos de jardim, plantava bolbos de narcisos e túlipas, ajeitava os arbustos dos jasmins, aparava as “rapaziadas”, arranjava sombra para as hortenses, semeava amores-perfeitos e plantava açucenas.  [Read more…]

a terra para quem gosta dela

Entendo que a virtualidade canse, e que vos dê gosto meter as mãos na terra, e rebolar nus por uma ladeira, cada um expressa a sua vitalidade como entende, mas comigo é que não vale a pena contar. Lamento muito, eu também tentei, mas não lhe vejo a graça. Depois de uma tarde de enxada, formigas, minhocas, sol impiedoso e dores nas costas cheguei à conclusão de que a agricultura não é para mim.

Se estamos a falar daquela versão benigna, que é o vaso na varanda, controladinho, metido no seu sítio, ali à espera do regador, sem bichos maiores que formigas, sem enxadas nem ancinhos, lá nos vamos entendendo. Também tenho as minhas beringelas, também tenho o meu alecrim, e umas flores muito bonitas que só floriram no segundo ano e por essa altura já eu me tinha esquecido do que lá tinha plantado, de maneira que não sei como se chamam nem falta faz. Tenho e rego, às vezes esqueço-me mas depois compenso, e salvo algumas espécies que não vingaram a coisa até nem tem corrido mal. [Read more…]

Deitar à terra

Os lojistas da especialidade olham-nos com uma bonomia ligeiramente trocista e parecem saber exactamente o que buscamos: as espécies mais resistentes, as que suportarão a inépcia dos seus cuidadores, as rajadas de vento das noites portuenses, a inclemência do sol de Maio. As que são, a um tempo, dóceis e obstinadas.

A cada primavera que se anuncia, saímos das tocas de inverno, trocamos com entusiasmo as ferramentas da vida moderna pelas pazinhas que evocam as construções de areia da infância, e é ver-nos, nas varandas, nas nesgas de jardim que a cidade ainda não ocupou, esquecidos de tudo, tomados unicamente pela dúvida: a que profundidade plantar um bolbo de íris?

Seguir-se-ao longos dias de ansiedade, espreitadelas constantes, tantas vezes tomadas pela incredulidade de que algo (e muito menos uma íris) possa vir a irromper desse manto denso e negro. Virão ainda mais dias de neblina e chuva, a terra continuará quieta e desolada, mas a memória desses momentos em que os dedos remexem a terra, e em que julgamos vislumbrar, num fugaz instante, uma sabedoria ancestral que não imaginávamos possuir… essa memória preenche os dias de inverno.

E virá o dia em que, ao cair da tarde, regressados das obrigações e dos horários e dos dias cinzentos, descobriremos, com espanto e, confessemo-lo, uma pontinha de orgulho, que a primeira íris se desprendeu enfim e espreita o mundo com o seu corpo frágil e intensamente lilás. E nessa nova condição de semeadores, também nós olharemos o mundo como novo.

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