Mais umas mentiras sobre a Grécia

Circula por mail, já foi várias vezes republicado, é da autoria de Henrique Raposo, traduzindo do pasquim El Mundo, e não passa de um peça de propaganda dos rapazes que se preparam para a destruir o estado e a economia deste cantinho da Europa.

Começa assim:

Em 1930, um lago na Grécia secou, mas, o Estado Social grego acha que tem de existir um Instituto para a Protecção do Lago Kopais – o nome do tal lago que secou em 1930, mas que em 2011 ainda tem dezenas de funcionários dedicados à sua conservação. Calculo que estes Bem, funcionários devem estar a rua a gritar “abaixo o fascismo”.

Em primeiro lugar o Lago Copaís não secou, foi drenado primeiro por franceses e depois por ingleses, que só devolveram esta fértil região à Grécia em 1952. Em segundo lugar é uma zona arqueológica. E deve precisar de ser protegida, a zona, precisamente pelo seu valor arqueológico e económico. Se o Instituto é superfúlo? não sei, mas anedótico como é apresentado não parece.

A cantilena continua, e de resto a seu tempo andaram pela Grécia empregados de televisões a desenterrar as mesmas tretas: pensões vitalícias para filhas solteiras (será preciso muito para perceber de onde vem a ideia? é muito difícil o contexto histórico da protecção a mulheres órfãs?). Mas a melhor ainda é esta:

Querem mais? Num hospital público, existe um jardim com quatro (4) arbustos. Ora, para cuidar desses arbustos o hospital contratou quarenta e cinco (45) jardineiros.

Também achei estranho, e fui ver:

Quatro arbustos? em frente ao Hospital Evangelismos (ou melhor, separado dele hoje por uma rua, mas pelo menos em tempos o seu jardim) conto bem mais de 4 arbustos. Aliás, quatro arbustos só se vêem na fotografia feita à medida por uma mentirosa chamada Irene Hdez. Velasco. Claro que nem todo este jardim justifica 45 jardineiros, mas a partir daqui fica a certeza de que a estória está muito mal contada. Não fosse o grego uma língua complicada, e quantas mais mentiras destas não seria desvendadas?

A proverbial desonestidade intelectual de Henrique Raposo em todo o seu esplendor não o faz perder os 15 minutos que gastei a googlar estas coisas, embora ele seja pago para escrever os seus artigos de propaganda.

Porque muito haverá para dizer sobre a Grécia, a corrupção, e sobretudo os gastos militares (4% do PIB em 2009, quando o segundo maior gastador europeu, a França, só esbanjava 2,4%) que a afundaram.  Convém não esquecer que a Alemanha e França obrigaram o governo grego  a manter as suas encomendas militares a troco da primeira “ajuda” económica, como na altura um deputado europeu muito bem explicou:

Comments


  1. É triste recorrerem a este tipo de campanhas, quem as paga deve muito mesquinho e tb um tanto estúpido, há tanta coisa mal feita tanto na Grécia como cá… É claro que existem muitos problemas na Grécia, mas não se pode dizer que sejam piores que os do resto da Europa. Foram simplesmente os primeiros a ser apanhados.

    Desmascarar o mail que referes é demasiado fácil. Mais uma alínea: a questão da idade da reforma. A lei Grega indica os 57 anos, estes tristes ficam com os cabelos em pé. Mas se forem comparar a percentagem de pessoas que usufrui da reforma vemos que a situação na Grécia não é muito diferente da dos outros países europeus. A comparação com a a Alemanha é:

    País Idade Reforma Antecipada Idade Reforma Empregados 55-59 Empregados 60-64 Empregados 65-69 Empregados 70+
    Alemanha 65 67 64% 23% 3% 0%
    Grécia 57 65 51% 31% 8% 1%

    (Vejam o resto na página que linquei.)

    E não esquecer que a Grécia tem uma economia paralela brutal, alimentada pelos próprios governos. Quem vive dessa economia não tem reforma decente (excluindo algumas profissões liberais).

  2. Hugo says:

    Não sei se é o caso de todos os exemplos que têm vindo a público, mas alguns deles (como a questão do lago que secou) e outros mais, foram dados a conhecer no seguinte livro:

    Greece’s ‘Odious’ Debt: The Looting of the Hellenic Republic by the Euro, the Political Elite and the Investment Community – de Jason Manolopoulos
    http://www.amazon.com/Greeces-Odious-Debt-Political-Investment/dp/0857287710/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1319038821&sr=8-1

    Portanto não são invenção do Henrique Raposo ou da Irene Velasco.

    Quanto aos exemplos neste post:

    – em relação ao lago, também fui googlar, e se é assim um sítio de grande interesse arqueológico, pouca ou quase nenhum material científico descobri, desde artigos, conferências, etc. Um artigo na wikipedia é muito pouco

    – em relação às pensões vitalícias de filhas orfãs, qual é propriamente o contexto histórico para justificar tal coisa nos dias de hoje?

    – em relação ao Hospital / Jardim – também duvido muito que sejam só 4 arbustos, mas criticar tão fortemente quem assim o disse, dizendo que no quarteirão adjacente há uma área verde, logo pertence ao hospital, mesmo tendo uma estrada a separá-los, também pode ser facilmente criticado, uma vez que não se está a basear em qualquer dado conhecido. Acho eu.

    Bem haja,


    • A Irene Velasco assina inclusive a foto, donde esteve lá.

      – Lago: as referências arqueológicas estão na própria wikipédia que citei. Mas nem vou por aí, vou muito mais para a importância económica e ambiental. Drenar um lago, serviço iniciado no séc XIX, teve de certeza um preço. A mentira é que o lago não secou, foi drenado, e por sinal ficou décadas na posse de quem fez a obra (de resto a Grécia passa a vida a ser roubada, basta pensar no friso do Partenon).
      – O contexto é do tempo em que as mulheres não tinham acesso ao mercado de trabalho. Que hoje não se justifica? de acordo. Mas a quantia gasta nessas pensões é ridícula e não leva um estado à falência
      – a dona Irena teve a lata de fotografar os ditos arbustos, a foto está no artigo linkado, e isso é muito grave, sobretudo porque foi publicado e de resto republicado em Portugal pelo menos pelo DN. É pura falsificação, como se pode ver também nesta imagem: http://www.flickr.com/photos/rfreed/3999914824/ (estas árvores não são do jardim anexo). É muito grave, porque se trata de uma pura vigarice, e leva-me a duvidar de todos os supostos factos narrados no artigo, porque quem mente numa foto mente em tudo.

      E obrigado por me ter indicado a fonte. Uma vista de olhos por duas ou três críticas ao livro de Jason Manolopoulos, permitiram-me concluir que afinal o homem atribui sobretudo à corrupção os problemas da Grécia. Ora corrupção não é estado social, e um dos males da Grécia. e de Portugal também.

      • Sofia says:

        Gostei do artigo.
        Tenho uma pergunta… Quando é que o PM Grego vai exigir à Alemanha o empréstimo feito após a 2 Guerra Mundial… Que eu, ou alguém tenha conhecimento, nunca foi exigido o reembolso dos milhões que este país recebeu para de reerguer de uma guerra que eles começaram… A Grécia foi um dos países que mais dinheiro emprestou.
        Quando é que alguém escreve sobre isso e faz circular essa verdade?

  3. Otílio Rançoso says:

    Ó amigo Cardoso,

    Esteja descansado que daqui a uns anos aqui o Marco é P.M. e depois estamos todos safos – se entretanto ainda houver gente para trabalhar em ofícios como semear batatas e cozer pão, uma coisa que é obviamente fascista, pois o que é democrata é sermos todos doutores e deputados!

    http://www.youtube.com/watch?v=OnINSyWX1yU&feature=player_embedded

    Com este rapaz cativo na escola a ouvir os professores a papaguerem coisas que ele jamais entenderá, ficamos brilhantes nas estatísticas da OCDE e os amanhãs cantarão que se fartarão!

    Otílio


  4. o tuga é tão estúpido e politicamente iletrado, que em vez de puxar pelo interesse global do país e da população … se ocupa destes fachos anormais de defender partidos, ideologia, e defende o que governos tiranos fizeram de mal …

    realmente, as gerações mais novas – e as que estão para vir – que hoje têm já sobre si a fatura de uma população tão burra como a do pós 25 de abril …. só vos devem desejar uma morte rápida. nunca vi povo tão estúpido e tão politicamente iletrado como este. nunca.

    • Johny Cavalo da Silva lá Do Nordeste de Cima Graças a Deus says:

      Se nunca viu povo tão iletrado como esse, dou-lhe um conselho. Olhe para o espelho. E voilá… Uma burra !

      Caso não saiba o que se significa “voilá”, eu explico, quer dizer ora cá está em francês de França.

      Pela forma como escreve só pode ser Índia da América do Sul, um país que em tempos os únicos e verdadeiros Portugueses apelidaram de Brasil. Grande erro, mas erros cometem-se por vezes. Tenho pena dos índios, boa gente, agora obrigados a viver com hibridos de Portugueses com Africanos e Índios. Chamam-lhes brasucas.

      Com virgulas antes dos “e”, pela forma desorganizada que mostra na escrita, pela adopção de um acordo imbecil, pelo insulto gratuíto a um povo, só posso concluir que a pessoa por trás do email Isa éfe tem um destes 3 problemas, 1, come muita palha, 2, deve ter um frustração enorme em relação à sua própria estupidez, 3, é muito mal comida. O mais certo é ter os 3 ao mesmo tempo.

  5. joana pereira says:

    Confesso que acho graça à forma como assumem que sabem da realidade grega. Pelo texto, obviamente não sabem.

    Sou casada com um cidadão grego e se achava que Portugal era um país de favores, cunhas e afins a Grécia conseguiu surpreender-me sendo pior, mil vezes pior. Ou acham que o resgate aos gregos foi 4 vezes superior ao nosso só porque sim?

    Ocupem-se de saber se os lagos existem, ou os hospitais… não existem esses, existem outros, mas o Portuga é que julga que sabe. Por favor, sabem o papel ridículo que fazem ao pensar que sabem alguma coisa do povo grego? Sabem? Ou querem passar por intelectuais de esquerda, candidatos quiçá a mais algum job?

    Os gregos estão como estão por culpa própria e ingerência absoluta das suas finanças desde a sua adesão à UE. Mas, para alguns, os maus são a Alemanha, França, Espanha e até Portugal… Poupem-se ao ridículo e se não sabem, calem-se.


  6. breve vais dizer k fomos nós k endividamos a grecia ! ridículo. paguem e mais nada !


  7. Como dizemos no Brasil, chutar cachorro morto é fácil. Bem como atacar, ou como vemos defender a Grécia pelas mais variadas razões também. Pelo facto de viver em um país onde, como o que aparenta a Grécia, a verdade fiscal não é bem o que está nos registros públicos, fica fácil acusar o governo grego de clientelismo ou de populismo a custa de emprestimo. Acredito que como aqui no Brasil, o problema não é como chegamos a crise e sim como vamos sair dela.

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  1. […] e os neo-liberais gostam é do Pinochet, seu herói de eleição. Ainda por cima a Grécia é a melhor cliente de armamento militar da UE e há por aí umas fragatas e uns tanques para serem […]


  2. […] o discurso politicamente correcto sobre a Grécia vivendo acima das suas possibilidades. Fica bem inventar arbustos onde até há jardins, mais as pensões a filhas solteiras como motor do endividamento externo, e hoje um ensaio sobre […]


  3. […] Henrique Raposo é um mentiroso dos compulsivos. Hoje levou com a greve na Autoeuropa em cima, para aprender a ser […]


  4. […] vídeo abaixo). Temos outra onde de tudo se mistura um pouco, mas a música é mais Quim Barreiros. Mentir em Henrique Raposo é fatal como o destino. Filed Under: sociedade Tagged With: coimbra, […]


  5. […] Já agora, sobre as mentiras repetidas da direita a propósito da Grécia. […]


  6. […] terceira semana cessou o fogo de artifício (do cachecol à ausência de gravata, passando pela mentira dos arbustos), e a extrema-direita apontou a artilharia pesada. Paulo Rangel explica tudo hoje no Público, com […]