Natal de 2014

Hoje é o meio exacto de Novembro. O dia está cinzento, frio, húmido. Mas as avenidas largas de Toronto, num percurso de muitos quilómetros, estão apinhadas de uma multidão colorida, alegre, calorosa. Carros soberbamente decorados passam. Bandas canadianas, americanas e doutras proveniências, desfilam garbosamente e enchem o ar de música festiva. Lá vem a portuguesa Banda do Senhor Santo Cristo, os músicos com barretes natalícios. Comovo-me. Comovem-me sempre as modestas bandas portuguesas. Milhares de crianças, numa multidão que se estima de um milhão de pessoas, as carinhas rosadas do frio, agasalhadíssimas, riem, batem as palmas na alegria doida de verem as figuras de Walt Disney nos carros alegóricos. Todas numa excitação indescritível porque esta é a centenária parada que traz o Pai Natal à cidade. Quando aparece o enorme carro, puxado a renas, ladeado por carteiros fardados a rigor transportando pequenas caixas de correio, e o gordo mais conhecido do mundo berrando ohohoh, num berro que lhe sai das barbas brancas, é praticamente impossível segurar os pequeninos. Todos eles correm para o carro, de cartinha na mão, a gritar numa emoção que só a inocência pode dar: Santa (Santa Claus, de São Nicolau), eu portei-me bem! Eu fiz os trabalhos de casa! Eu ajudei a minha mãe! Please lê a minha carta, dá-me o que eu te peço Santa, I love you!.

Depois, retiram-se levando consigo uma recordação que durará para sempre. E que saberá bem, porque a vida sem fantasia tem pouca ou nenhuma graça. Uma criança que pôde sonhar será um adulto menos amargo. E de repente, como num passe de mágica, a cidade transforma-se. As ruas têm iluminações caprichadas, em frente da Câmara Municipal há uma árvore de Natal enorme, deslumbrante. Por mercados e centros comerciais, pequenos grupos de homens e mulheres, trajando à antiga, tocam violinos e cantam as carrols, as velhas canções de Natal. Voluntários do Exército de Salvação, fardados, fazem o seu peditório com grandes campainhas. As janelas dos apartamentos e as frontarias das casas exibem iluminações. As lojas rebentam pelas costuras. Até ao Dia de Reis tudo fica assim, neste encantamento.

Retomo a carta já Dezembro vai adiantado. À minha volta há projectos de reuniões, de jantares, de viagens. Dou comigo a pensar nas crianças pobres, as de todo o mundo, incluindo Portugal. Aquelas que passam fome, porque os pais estão desempregados. As que só têm uma refeição por dia, na escola, porque os professores, apesar de mal tratados, ainda têm coração. As que vivem nos bairros da lata. As que vivem em países em guerra, sem água potável, sem sapatos, sem assistência médica. As que são raptadas e vendidas como gado. As mães, casadas ou não, que mirram na impotência perante este descalabro apocalíptico. Os pais, obrigados a fugir em barcos frágeis que o Mediterrâneo engole, na esperança de arranjarem um lugar no mundo onde possam trabalhar e sustentar a família.

Por vezes, certos jornais dizem que a Terra já não produz sustento suficiente para todos os humanos. Mentem, sabe Deus a soldo de quem. Todo o chão do mundo, bem lavrado, dá para todos. Só não dá agora, porque o mundo está nas mãos da ganância e do egoísmo dos poucos que só pensam em lucro. Dos que são muito ricos à custa da miséria do povo. É uma vergonha. Como se pode aceitar que haja fome no Brasil, na Rússia, em certas regiões da China, na Índia, em Angola e noutros países, que tantos milionários dão?

O Pai Natal chegou. Quando chegará Cristo às consciências de todos nós? O Papa Francisco é uma estrela brilhando na escuridão do mundo – esse Papa dos pobres, o argentino que não veste riqueza nem vive nela, o sacerdote fiel que nos exorta a procurarmos quem precisa e a não aceitarmos mais uma igreja de funcionários.

O Natal é a Festa da Família, dizem. Que família? A que Cristo ensinou ou apenas a biológica? Enquanto esta pergunta não estiver esclarecida, ganha o Pai Natal.

Leitor bondoso e paciente: ajude-me a responder a estas interrogações. E aceite que lhe deseje um Santo Natal.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Um Santo Natal também para si e para a sua Família.
    Estou-lhe grato pelo seu texto, expressão de que sempre seremos capazes de encontrar um destino para esta Festa do Natal que é da Família biológica (da tribo) e da Comunidade Humana, sem dúvida, sim é a minha Fé, apenas Fé.


  2. Mamã nasci sou uma menina – mamã nasci sou um menino – nasci para te dar sol e sentido para a vida que há em ti e maior através de mim – sou o teu Cristo reinventado mesmo que nada tenhas a ver com ser ou não religioso (que religa) – és e sou – somos – demos-lhe o nome que quiseres mesmo com o pai Natal – PAI que á brinquedos ao menino – que dá – que dá ?? brinquedos ?? alegria ?? família pois o menino tem teve pai e mãe para poder nascer biológica e simbolicamente e espiritualmente – a religião é o nascimento de um novo sol para sua mãe e pai – é a sagrada família – somos todos filhos – e depois pais – propagamos a vida que há em nós e CELEBRAMO-LA – escolheu-se o dia mais curto e a noite mais longa alguém escolheu e se calhar o céu inspirou que fosse assim – o frio – escuridão do céu – o recolhimento junto de quem temos – família ?’

  3. Rui Silva says:

    A minha resposta a estas interrogações é colocar mais uma:

    Porque é que, geralmente as pessoas que se preocupam com a fome ao nível planetário se opõem á globalização? A única tentativa séria que foi feita luta contra a fome.
    Transcende-me…

    Rui Silva

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.