Se houvesse Correios em Caria, mandava esta carta para Belém

por Fernando Camilo Ferreira

Sr. Presidente,

Escrevo-lhe de Caria, vila de mais ou menos 800 habitantes, no Concelho de Belmonte, à beira da Serra da Estrela. A vida aqui é boa. Aqui, tudo o que a terra dá é bom. O resto, nem por isso.

Anunciaram-nos há pouco que a GNR vai passar a funcionar apenas das 9 às 5, para assuntos administrativos. A mim parece-me mal. Por um lado porque, se é para tarefas administrativas, não precisamos da GNR: Temos alguns rapazes e algumas raparigas que ainda não foram para a Suíça, sequer para Lisboa, nem mesmo para a Covilhã. Sabem mexer num computador e, por um salário modesto, podem cumprir as tarefas administrativas que a GNR vai cumprir. É só poupança para o Estado. Só em fardas, bote-lhe a conta. E em pistolas, que ainda por cima escusam de ser roubadas, que é uma coisa que acontece, nem se fala. Para não falarmos no quartel que, só em luz, deve custar para cima de um dinheirão. Tenho a certeza de que a Junta arranja lá uma salinha para os pequenos, como já fez para instalar uma espécie de Correios que é o que temos desde que fecharam os verdadeiros.

Aqui tudo fecha. Quer ver? Temos um Centro de Saúde, com um médico dedicado, competente e paciente, que é o que se quer. Ele farta-se de dizer, como na televisão, que temos de nos vacinar contra a gripe. Mas no Centro não há enfermeiro e, portanto, não há quem dê a injecção. Quer dizer, não há sempre, que à Terça-feira vem cá uma senhora colher sangue para as análises que o Doutor manda fazer e acho que também dá injecções. A senhora enfermeira, acho que é enfermeira, trabalha para uma empresa muito grande, a quem o Governo paga para fazer o que o Governo não quer, ou não pode fazer por nós. Dizem que sai mais barato, mas eu duvido. E, quando tínhamos enfermeiro no posto, ele dava as injecções, fazia curativos, ajudava os mais velhos e evitava um grande gasto em ambulâncias para ir às urgências à Covilhã de cada vez que alguém escorregava na calçada. Se calhar, se fizessem as continhas todas, ia-se ver e até saía mais em conta.

Como já disse, também fecharam os Correios. E, agora, também fecharam os de Belmonte. Agora, se quisermos ir ao correio, temos de ir à Covilhã. São 13 km. O que não há é transportes. Há tempos, fecharam a linha do comboio da Beira Baixa, e perdemos o transporte que tínhamos para a Covilhã ou para a Guarda. Um taxi para a Covilhã custa para cima de 17€, 34€ com a volta. E, ainda por cima, temos de ajudar a pagar os transportes lá de Lisboa e do Porto, uma coisa que eles lá têm, passe social ou lá o que é. Veja o Senhor que, dantes, quando os Correios pertenciam a todos e davam lucro, uma carta era deitada no correio num dia e, no dia seguinte, estava aqui na caixa de cada um. Agora, a conta da água, para vir de Belmonte a Caria, 7 quilometrozitos de coisa nenhuma, demorou, em Outubro, 11 dias e toda a gente, que por aqui é quase sempre de boas contas, passou pela vergonha de pagar fora do prazo.

A GNR aqui faz-nos muita falta. Os soldados já não são como eram dantes, assim macambúzios e barrigudos. Coitados, não sabiam mais. Não senhor. Agora são assim uns rapazes bem apessoados (e raparigas também, já mo afiançaram, mas aqui nunca apareceu nenhuma, mas eu cá acho bem), de boas falas, muito amigos de ajudar quem precisa. E, com aqueles carros a dar a volta à vila, com a pistola no cinto, sempre metem respeito.

E depois há outra coisa. Nós precisamos de muita coisa, nestas terras. Mas aquilo de que mais precisamos são pessoas. Gente nova. Os Correios, a GNR, um enfermeiro, um ou dois professores. Porque precisamos de que a menina dos correios se embeice por um soldado da GNR, que o enfermeiro engrace com uma das professoras, e que se volte a namorar na nossa terra. Disso é que precisamos.

É por isso que lhe escrevo. Para lhe pedir um favor. Aí em Lisboa há muitos soldados da GNR. Se precisarem de mais soldados noutro sítio, mandem os que aí estão. Eu também gosto de ver a fanfarra da GNR a desfilar à frente do carro do Sr. Presidente. Mas, em tempo de necessidade, vão-se os anéis e fiquem os dedos. E os anéis são os seus tocadores de charamelas e timbales. Os dedos são os nossos soldados, que são hoje a única recordação que temos de que aqui também é Portugal.

Posto da GNR de Caria (foto via Jornal do Fundão)

Comments

  1. Ricardo Pinto says:

    Já sei.
    Como agora já recuperamos a nossa TAP, é fazer aí uma pista de aterragem e os aviões da TAP que são de todos nós , passam por aí a transportar o pessoal.
    Ou então quando ICA subsidiar os filmes que ninguém vê a não ser os jurados que lhes atribuem prémios, pode por a condição que sejam rodados em Caria ou Peraboa ou Escarigo ou Ferro ou Teixoso etc.
    Ou então falem com a Graça Fonseca e quando ela entregar a “massa” ás companhias de Teatro, que seja na condição de apresentarem aí as peças que encenarem etc etc.
    Ah, já me esquecia, achei o máximo aquela do médicos hoje em dia não poderem dar uma injecção, tem que estar dependente de uma enfermeira, deve ser por causa das cláusulas do contrato colectivo de trabalho.

    Ricardo Pinto

    • ZE LOPES says:

      Pinto! Pinto!Pinto! Acaso és Carlos? Andas lá pelas Alianças na Beira Interior e coiso?

      Ou estás apenas a coiso?

      Ate agora nada diceste! Es um nescio! Os assentos que sa lichem e a gente c’adivinhe, ó Pinto!

    • Nascimento says:

      Ouve lá ó meu monte de merda e se fosses lamber a sanita?Qual a falsidade que postado acima fez?Nenhuma. Mas, tu meu montinho de esterco, disparas para todo o lado, e inté vais buscar a cultura para tentares justificares o teu raciocínio alarve!És realmente doente da cabeçorra. LARGUEZA!

  2. ZE LOPES says:

    Rymas Elegyacas em Omenagem ao Passos Dictas por Genctes do Incterior :

    Passos, quando enfim partiste,
    Deixaste saudades mil.
    Se por aí ‘inda houver CTT
    manda um bilhete postil.


  3. E os anéis são os seus tocadores de charamelas e timbales.

    Aqui em Lisboa, o que mais há são tocadores de “timbales”… se me faço entender!

  4. Luís Lavoura says:

    Conclusão: aí em Caria, da GNR, não precisam dar fardas, não precisam das pistolas, e não precisam dos dedos para bater nos teclados. A única coisa que precisam na GNR é das pilas, para cobrirem as moças que ainda há em Caria e fazerem com que nasça gente em Caria.
    Portanto sr primeiro-ministro, mande valentes soldados da GNR para Caria, todos eles com boas pilas e bem prontos a fazerem aumentar a população da vila.

    • Ricardo Pinto says:

      Desculpe, mas não use linguagem machista. porque é que o Costa ( homem progressista) não pode mandar fufas e laridas e transgenero. Tem alguma coisa contra estes ?

      Ricardo pinto

      • Nascimento says:

        ó pintinho Palhaço. Vá ,vai lá escarrar para o espelho que produz a tua merdosa imagem.

    • João Soares says:

      Este abestunto lavoura,anda obcecado por pilas .

      • Nascimento says:

        Obsessões,obsessões…cada um é como cada qual.O La -Boura , só viu/ resumiu pilinhas no artigo …o que é que se pode dizer mais..

    • ZE LOPES says:

      Eu, por acaso, até tive intenção de responder. Mas acobardei-me, por desconhecimento.

      V. Exa revela ser um verdadeiro entendido em pilas, particularmente as da GNR. Contra factos, não há argumentos! Especialista é especialista!

      P.S. – V. Exa, sugiro, contacte o Ricardo Pinto. Creio que o que ele pretende é o que V. Exa. obteve! Vá lá! Dê-lhe uma ajudinha!

    • Paulo Marques says:

      Pois, mas as pilas não parece que estejam a dar conta do recado dos incêndios.

  5. ZE LOPES says:

    Ora bem! Caria? Conheço! Porquê? Ora essa!

    Saibam todos que entre Covilhã e Caria está um troço dos mais modernos da linha férrea nacional, preparado para, sem obras, “migrar” para a bitola europeia. O problema é que…não passam lá comboios!

    O autor: o governo de…José sócrates! Olhem que o rapaz deixou “obra” cá pela zona! Deixou, sim!

    Enfim, parece que os comboios voltarão a passar em breve, e elétricos!. Talvez para o ano. Vamos ver…

    Porque um dos sérios problemas de Caria e Belmonte são os transportes coletivos. Não só para Lisboa e Porto (aliás, esses existem). Para a Covilhã e Guarda, por exemplo. Não existem, ou pouco mais que isso. E há equipamentos coletivos (lares, etc.) onde são colocadas pessoas que, se não de transporte privado, não são visitáveis! Isto acontece em todo o Interior, onde cresceu uma constelação de equipamentos de apoio que não têm acessos por transportes coletivos.

  6. ZE LOPES says:

    Só uma coisinha: em 2011 Caria votou…à Direita!:

    A soma dos votos Passos + Portas foi de 45,44%!

    E Passos/Portas agradeceram…privatizando os CTT! Com os votos de…Caria!

    Estou a ser “mauzinho”? Perdoem-me! Sim, eu sei que tudo “acordou”! Passados quatro anos, os PassPor ficaram reduzidos a…30%!

    Como dizia a “outra” “‘brigado! ‘brigado!”

    O problema é que…:

  7. Maria Alice Gonçalves says:

    Está fantástica. Não há correios, mas esta deveria mesmo, ser entregue pessoalmente. É Caria mas não só. Isto é um retrato do nosso país…


  8. Quer apostar em como nas próximas eleições se lembram de ir aí?

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.