Manicura São Bento, arranjamos unhas no Parlamento

Já acompanhei alunos em visitas à Assembleia da República. De uma maneira geral, ficam espantados com o comportamento de alguns deputados que, enquanto alguém está a discursar, passeiam pelas bancadas, lêem o jornal ou conversam em pequenos grupos de costas para o púlpito. Numa dessas ocasiões, um aluno chegou a dizer-me: “Se nós fizéssemos o mesmo, o professor marcava-nos falta disciplinar.”

Na sala de aula, já, por várias vezes, fui obrigado a censurar comportamentos, o que faz parte do ofício, como é evidente. Entre outros, dei por mim espantado com uma aluna a pôr creme nas mãos de uma colega, acto que foi interrompido prontamente, ainda que com algum espanto por parte das minhas vítimas.

Isabel Moreira foi fotografada a pintar as unhas durante o debate do Orçamento. Não me parece pior do que estar a conversar enquanto outra pessoa fala. Parece-me igualmente mau. Entretanto, alguém defendeu a deputada, afirmando que há deputados que lêem o jornal no Parlamento. O problema está, evidentemente, em ter defendido o comportamento da deputada.

É demasiado fácil dizer mal dos deputados e desprezar a importância do seu trabalho – o que os torna estranhamente próximos dos professores -, mas a verdade é que estamos a falar de pessoas que foram eleitas pelo povo e que devem encarar a sua presença no Parlamento tendo em conta que são observados e que, portanto, servem de exemplo. Se um dia alguém estiver a pintar as unhas numa aula, serei obrigado a dizer qualquer coisa como “Mas já chegámos ao Parlamento?!”

Sobre o silêncio selectivo

Se há tema que leva a direita a ser mais determinada do que um cão a não largar o osso, é a situação na Venezuela e em Cuba. Trata-se de uma obsessão, comprovada pelo que se escreve sobre esses regimes e pelo constante chapar à cara da esquerda dos problemas nesses países. A tónica habitual pretende difundir este spin: “Portugueses, fujam da esquerda e, se não perceberem porquê, vejam o que se passa na Venezuela e em Cuba”.

Sem inocência alguma, essa mesma direita fica completamente muda com as décadas de governação de direita no México e os enormes problemas que trouxe ao país. Um caso típico de duplo-pensar, agora com o caso do Brasil a juntar-se ao cardápio. [Read more…]

Orçamento de Estado 2019: que formosa aparência tem a falsidade!

Santana Castilho

O título deste escrito cita Shakespeare. A formosa aparência dos 0,2% de défice é vista como uma falsidade pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO), que descobriu discrepâncias entre vários documentos referentes ao OE 2019. A mais citada resulta de haver uma diferença de 590 milhões de euros entre a proposta de lei e o relatório, o que originaria um défice de 0,5% em vez de 0,2%. A explicação radica na circunstância de os orçamentos serem sempre exercícios previsionais. Centeno pede ao Parlamento, na proposta de lei, autorização para gastar mais 590 milhões. Mas considera-os, no relatório, cativos sobre consumos intermédios. Para ele, o que importa é o 0,2% de défice. Se as receitas crescerem para além do previsto, talvez os gaste. Se não, não gasta. Mas, aprovada a proposta, já tem a despesa autorizada, porque não gosta de orçamentos rectificativos e não quer falhar os 0,2%. É por isso, e para entreter os parceiros da “geringonça”, que dá uma formosa aparência à falsidade orçamental. É assim que funciona a ditadura financeira de Centeno, visceralmente incompatível com qualquer necessidade social que ameace o défice. O OE 2019 apresenta-se, assim, apenas positivo para as finanças, inibidor para a economia e politicamente negativo.
As chamadas despesas excepcionais representam mais de 10 mil milhões de euros, de que não resultam quaisquer benefícios para o cidadão comum. Outrossim, vão directos para os grandes grupos financeiros e económicos. Aí estão inscritos 1750 milhões para os bancos, 4000 milhões para as participações de capital, 1200 milhões para a Parpública e 1518 milhões relativos a rendas de parcerias público- privadas rodoviárias, quando a UE (Eurostat) estimou que o seu valor actualizado não devia ser superior a 337 milhões. [Read more…]

Pena não ter querido controlar os apetites da EDP

Centeno tem mérito de ter gerido a Geringonça e controlado os apetites

A gestão autárquica e a descentralização

Notícia JN de 30/10/2018

No passado mês de Janeiro, a gestão da STCP – Sociedade de Transportes Colectivos do Porto, passou a estar a cargo de seis autarquias (Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Maia, Gondomar e Valongo) da área metropolitana do Porto, como culminar de um longo processo reivindicativo que uniu os autarcas em torno do objectivo de municipalizar a empresa, retirando-a da esfera do Estado central. Sabemos como a “descentralização” de competências e recursos é um tema caro a alguns líderes locais. Querem mandar. Em abstracto, é uma estratégia eleitoralista. Em concreto, diz que a STCP acabou de gastar uma fortuna em autocarros novos que, por serem demasiado altos, não passam debaixo de alguns viadutos.

Os bufos: a propósito de Ana Caroline Campagnolo

No dia em que Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo publicou a abjecção que se pode ver mais acima e que está ao nível dos delatores da Inquisição ou dos “bufos” da PIDE: o medo, a delação anónima que pode nascer de motivações pessoais, a imoralidade (mesmo que legal) de filmar às escondidas, enfim, um conjunto de circunstâncias que não podem fazer parte de uma democracia civilizada. [Read more…]

VITÓRIA!

Galp e ENI desistem de propecção de petróleo em Aljezur. Uma luta que valeu a pena.

A seiva oculta

Deputado do PSD elogia António Costa

De uma assentada, Duarte Marques, uma das musas de alguns aventadores, consegue, num único tweet, dizer que, afinal, António Costa não foi assim tão mau, que Passos Coelho estava errado quando temeu o diabo e que, portanto, Bolsonaro talvez não seja tão mau como prometeu, o que pode querer dizer que, no fundo, Costa, Passos e Bolsonaro estão todos ao mesmo nível e que há a possibilidade de que o brasileiro venha a ser melhor do Passos e Costa, sendo que o actual primeiro-ministro português leva alguma vantagem, por ter sido desdiabolizado. Bolsonaro poderá estar, assim, a caminho da desdiabolização. Para Passos Coelho é que parece não haver grande esperança, coitado. Ditosa pátria, que tais analistas políticos dá ao Twitter.

Brasil: a Santa Inquisição do séc. XXI terá início dentro de momentos

Na sua primeira aparição pública após a confirmação dos resultados, Bolsonaro montou um circo evangélico, que muito terá agradado aos fundamentalistas religiosos que o financiaram. O Brasil é um Estado laico? A ver vamos. A julgar pelo início auspicioso, quem sabe se amanhã não muda o nome para República Evangélica do Brasil? O homem parece ter queda para exorcismos e instrumentos medievais de tortura.

Crónicas do Rochedo XXVIII -Boa Sorte, Brasil.

brasil

Não falei nada sobre as eleições brasileiras ao longo de todos estes meses. Porquê? Não conheço a realidade brasileira para me atrever a tal. Fiquei a saber, com enorme espanto, que em Portugal existem dezenas e dezenas de especialistas em política interna do Brasil, da realidade social brasileira. Nunca me passou pela cabeça ver tanto comentador(a) a lavrar sentenças, e definitivas, sobre o Brasil. O problema é que estou desconfiado que, do Brasil, conhecem apenas os enredos das inúmeras novelas brasileiras que as nossas televisões transmitem. Pode ser que esteja equivocado.

Porém, estas eleições permitiram ficar a conhecer alguns pormenores: que no Brasil foram assassinadas mais de 60 mil pessoas no último ano. Que a justiça brasileira colocou na cadeia inúmeros políticos e empresários brasileiros que foram condenados por corrupção (e não com pena suspensa). Nos últimos dias, com a aproximação do dia das eleições, fiquei a saber que em Portugal existe um estranho sentimento racista. O racismo que leva algumas “personalidades” da vida pública portuguesa a afirmar que os brasileiros que votaram no candidato Bolsonaro devem ser recambiados para a sua terra pois Portugal é uma democracia. Fiquei a saber que o Brasil, pelos vistos, não é uma democracia. É preciso ter lata.

O país que está perante o processo Marquês, o escândalo BES, sem esquecer o BPN e o BPP, a escandaleira que são as rendas vitalícias da EDP ou as famigeradas PPP, que deixa morrer o seu povo em incêndios florestais fruto de descoordenação e de um sistema de emergência que não funciona em emergências mas que custou e custa uma fortuna. O país cujos principais responsáveis políticos fecharam os olhos aos desmandos do ditador angolano Eduardo dos Santos e sua família, que patrocinou a entrada de uma ditadura na CPLP. A sério? A sério que conseguem criticar o Brasil sem se rir?

Os brasileiros fizeram a sua escolha. Em democracia. Os brasileiros que vivem em Portugal fizeram o mesmo. Em liberdade. A nós, que não somos brasileiros, resta-nos desejar boa sorte. E recordar que são muito bem vindos a Portugal. Aproveitando para lhes dizer que é profunda a vergonha que tenho por aquelas reacções de alguns, poucos, portugueses anteriormente referidas.

Boa sorte.

São mentiras, senhores

Sobretudo entre jornalistas, tenho reparado na argumentação defendendo que “fake news / “notícias falsas” não deveriam ser chamadas notícias porque não são notícias. E por isso, possivelmente, tenho encontrado a expressão “informações falsas” (aqui e aqui) ao se referirem ao fenómeno.

Mas também não são informações, senhores. São mentiras e boatos. Não tem de quê.

Um excendente de pobrezinhos na Comporta

Fotografia: Joaquim Norte Sousa@Expresso

Um excedente de 1,3 mil milhões nas contas do terceiro trimestre da Administração Pública é o mais recente conseguimento do CR7 do Eurogrupo, Mário Centeno. O resultado, revela o Expresso, é fruto de um crescimento de 5,4% da receita (que é como quem diz os nossos impostos mais umas taxinhas), superior aos 2,2% registados do lado da despesa (parcialmente cativada). Mas um tipo olha para aquilo e pensa “Porra, para quem está habituado e ver tudo no vermelho, um excedentezinho não é nada mau!”.

O que sucede? [Read more…]

Jair Bolsonaro fashion

Um retrato da nossa sociedade…

Vamo metralhar o clima, car****!

Imagem via Change.org

E estas alterações nada vertiginosas de temperatura, que tal? Ontem estava ameno, de manhã roçou o polar, durante a tarde esteve ameno outra vez e, se tudo correr como esperado, voltará ao polar dentro de minutos.

Mas está tudo bem, não há nada de anormal. Aliás, recebi há minutos uma mensagem num grupo do Whatsapp, ao qual fui adicionado por um empresário brasileiro, onde um pastor da IURD me garantiu que as alterações climáticas não existem, e se existem a culpa é das mulheres, dos homossexuais, das feministas, dos negros e de tudo o que mexe à esquerda.

Se ao menos pudéssemos comprar armas semiautomáticas no supermercado, para enfiar dois balázios no ambiente, vocês logo viam se o planeta não arrefecia sem piar. Ai arrefecia, arrefecia.

Cesar Sayoc e a alvorada do terrorismo liberal-fascista

Fotografia via New York Magazine

Chama-se Cesar Sayoc, tem 56 anos e um extenso registo criminal (esteve preso em 2015), e, avança a imprensa nacional e internacional, é o principal suspeito pelo envio de engenhos explosivos para a casa de várias figuras do Partido Democrata. Sayoc é também membro do Partido Republicano e apoiante entusiástico de Donald Trump, daqueles que se dedicam, com afinco, a destilar ódio e a partilhar propaganda e conspirações do Breitbart nas redes sociais. Um dos muitos mujahedines produzidos na fábrica de androides fascistas do trumpismo.

Cesar Sayoc, a confirmarem-se as suspeitas da justiça norte-americana, conspirou para assassinar várias pessoas, por motivos ideológicos. Uma consequência directa desta nova narrativa de divisão e ódio, alimentada diariamente por um presidente bélico, que destrata os aliados da NATO com a mesma convicção com que declara o seu amor por Kim Jong-un. Com a mesma determinação com que procurou amparar o cliente saudita, após o brutal (e encomendado) homicídio de Jamal Khashoggi. Com a mesma paz de espírito com que desvaloriza a violência racial. [Read more…]

Enternecedor

O texto de David Dinis aos seus “amigos do Observador (e à Assunção Cristas)” é um exercício de caridade estratégica. Sem rejeitar que dirigiu um instrumento da direita radical (“projecto”, nas palavras dele), deixa uns recados à trupe de lá.

«Explicar “porque os brasileiros votam em Bolsonaro” [João Marques de Almeida], como tenho visto por aí insistentemente, é normalizar um candidato que é um evidente candidato a ditador. Dar voz a quem diz que “Bolso não é besta” [Filipe Samuel Nunes], argumentar que o problema está na agonia da esquerda brasileira [José Augusto Filho], atirar que há “ódio a quem os desmascara” [José Mendonça da Cruz], irritarem-se contra o “fascistródomo” [Helena Matos] e gritar “Vocês Também Não!” [Rui Ramos], com hashtag e sem espaços, é dar um empurrão ao que Bolsonaro fez na campanha: espalhar o ódio, fazendo uma apologia constante da violência – como fizeram os maiores ditadores da história do século XX, aqueles que vocês tão bem sempre denunciaram nos livros da história.» [David Dinis]

É enternecedor ver David Dinis explicar a João Marques de Almeida, Filipe Samuel Nunes, José Augusto Filho, José Mendonça da Cruz, Helena Matos e a Rui Ramos coisas simples da democracia. Com um recadinho directo a Assunção Cristas, explicado-lhe coisas ainda mais simples.

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Olha quem fala

O valor da fala ou do texto político são inseparáveis de quem o produz. Não faltam, por estes tempos, as críticas de esquerda ao Governo. Elas têm origem nas pessoas e forças que pertencem ou apoiam os partidos da solução governamental. Percebe-se a insatisfação quanto aos investimentos públicos, designadamente em áreas especialmente sensíveis a caras à esquerda – saúde, ensino, segurança social, direitos laborais, transportes e obras públicas e tudo o mais. Elas entendem-se e são, na sua maioria, justas.
Mas ouvir críticas semelhantes vindas de quem toda a vida combateu o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social e todas as áreas em que as suas propostas não passaram de tentativas de destruição e privatização do serviço e património públicos e empobrecimento de quem trabalha, quando não é cómico, é revoltante. A direita portuguesa tem-se desdobrado em piedosas lágrimas pela situação do SNS que sempre odiou e, quando foi governo, quase destruiu. O mesmo acontece no que respeita a todas esferas de obrigação social do Estado, as quais deixou exangues.
Mas agora há mais. [Read more…]

Democracia a votos…

Quando os chamados partidos do sistema não dão respostas aos problemas e aspirações das pessoas, estas acabam nos braços da demagogia e do populismo. Jair Bolsonaro, apesar dos anos que já leva em eleições, é um fenómeno político recente, que está a aproveitar o desgaste dos principais partidos por se terem deixado cair nas teias da corrupção. Também a falta de resposta ao flagelo da criminalidade, preocupam os cidadãos que clamam por segurança. [Read more…]

A extrema-direita a meter o focinho de fora

Jaime Nogueira Pinto votaria em Bolsonaro. Afirma que as declarações do facho são uns meros “excessos retóricos” e que a esquerda apenas anda a tecer um “processo de intenções”. Face ao que o facho brasileiro tem dito sobre a intenção de silenciar os seus opositores políticos e dado o apoio sem reticências do Nogueira Pinto a este candidato, é a altura certa para pedir uma actualização de posições quanto ao tema “ai jesus que calaram o Jaime”. Chamam-se a recepção os excitados Mário Amorim Lopes, Rui Carmo, ente outros, incluindo toda a redação do Observador.

Entre rodriguinhos, Luís Nobre Guedes diz que iria votar no Bolsonaro, caso fosse brasileiro, por causa da corrupção do PT. Vejamos, este é um destacado membro do partido onde o Jacinto Leite Capelo Rego doou um milhão de euros ao CDS em notinhas. Foi o ex-ministro do ambiente que assinou o despacho que deu origem ao caso Portucale. Pertence ao partido onde os submarinos comprados por Portas tiveram condenados por corrupção na Alemanha, sem que ninguém tenha sido condenado em Portugal.

Por fim, há Cristas e o seu apoio dissimulado. Mais virão, ou não tivesse uma multidão passado de salazaristas a democratas num espaço de horas em 1974.

Greve

de

Em direcção ao precipício

 

A estratégia de ódio, desinformação e mentira, desta perigosíssima extrema-direita reeditada, mas igualmente violenta e intolerante, alimentada por Trump e respectivos apóstolos, começa a dar frutos.

Na Quarta-feira, vários engenhos explosivos foram encontrados nas residências de figuras de relevo do Partido Democrata, como Barack Obama e Hillary Clinton, e na redacção da CNN, os “inimigos do povo”, como o troglodita americano gosta de lhes chamar. Ontem foi a vez de Robert de Niro, que não é politico, mas que não poupa nas críticas a Trump. [Read more…]

Já compraste vaselina, Brasil?

Capa do Inimigo Público desta semana.

Onde a UE é musculada

Vacilante e mal segura como anda a UE (Brexit, refugiados, o populismo de extrema-direita, a “too big to fail” Itália, prenúncios de nova crise do Euro…), há uma área em que, pela calada, dá firmes passos de gigante: a política comercial e de investimento. Ao contrário do seu antecessor – o irritadiço belga Karel De Gucht que devido à sua incompetência foi posto a ridículo pelo robusto movimento europeu anti-TTIP – a Comissária Cecilia Malmström é uma extremamente hábil, resoluta e entretanto também experiente negociadora que, um após o outro, leva a bom porto os seus intentos. Com pezinhos de lã, e muito ao invés do que vem sendo prometido pela UE sobre transparência para os cidadãos, é todo um ramalhete de acordos de comércio e investimento que atam – e inexplicavelmente não há vozes políticas a bradar aos céus – a capacidade de legislar dos governos (mecanismos arbitrais) e põem em risco padrões ambientais e sociais (cooperação regulatória).

O CETA (UE/Canadá), já está em aplicação provisória desde há um ano, embora mais de metade dos estados-membros não o tenham ratificado e alguns (Holanda e Áustria) estejam ainda a aguardar a decisão do Tribunal Europeu sobre a compatibilidade do sistema de arbitragem para investidores, previsto no acordo, com o Direito europeu; em Portugal, a AR e Marcelo já, alegremente, deram luz-verde. [Read more…]

Antes Cristas que Bolsonaro

O título deste texto é inspirado num comentário escrito no facebook por um amigo meu que é comunista dos sete costados, numa polémica em que desafia um centrista a pronunciar-se sobre a opinião de Assunção Cristas.

A líder do CDS, instada a escolher entre Bolsonaro e Haddad, numa hipotética situação em que seria eleitora brasileira, declarou que votaria em branco (na verdade, declarou que não votaria), colocando ambos os candidatos no mesmo nível, quando se sabe que Bolsonaro defende abertamente a ditadura, com direito a tortura, censura e outros mimos, elogiando, pelo meio, Brilhante Ustra. Haddad, independentemente de todos os defeitos ou erros do PT, faz parte do campo democrático, tal como Assunção Cristas, por muito medíocre que seja ou por muito má que tenha sido a sua passagem pelo governo.

O argumento usado para não votar em Haddad é extraordinário: “A corrupção leva à ditadura. Destrói, mina a democracia e leva à ditadura.” É extraordinário porque admite que ainda não se chegou à ditadura. Entre um que não admite senão a ditadura e outro que ainda não chegou à ditadura, Cristas encolhe os ombros.

Entretanto, não defendendo a corrupção, o salto que chega daí à ditadura é um vazio argumentativo. Por outro lado, tenta deixar, implicitamente, a ideia de que a corrupção, no Brasil, é toda de esquerda.

Na verdade, Assunção Cristas, ao colocar ao mesmo nível dois candidatos tão diversos, põe-se ao lado da ditadura, mas terá vergonha de o confessar. As redes sociais, no entanto, estão cheias de gente declaradamente saudosa de Salazar e que suspira por bolsonaros, gentinha perigosa que mina a democracia muito mais do que a corrupção.

 

Põe os olhinhos, Portugal

Fotografia: Javier Soriano/AFP@El País

Aqui ao lado, na vizinha Espanha, o antigo ministro da Economia de Jose Maria Aznar, Rodrigo Rato, foi condenado a uma pena de prisão efectiva de 4 anos e meio por corrupção, encontrando-se já encarcerado.

Por cá, corrupto que é corrupto safa-se com penas suspensas e férias em domiciliária, onde pode alegremente usufruir do fruto dos seus crimes, que em momento oportuno colocou em nome da mulher e dos filhos.

Por cá, corrupto que é corrupto raramente é incomodado pela justiça, o que motiva o sector a apostar, ano após ano, na mesma prática de sempre, com resultados comprovados. [Read more…]

Tão pouquinho?

Reino Unido multa Facebook em 560 mil euros após escândalo da Cambridge Analytica

Em relação a um volume de negócios de 41 mil milhões de USD em 2017, isto nem chega a peanuts. Mas ao menos isso. A Alemanha deixou prescrever o prazo. E Portugal?

Ao cuidado dos profetas que anteciparam o fim da Autoeuropa

Então a Autoeuropa não estava à beira da deslocalização? Foi essa a sensação com que fiquei, quando li e ouvi os habituais profetas da desgraça estalinista, que se abateu sobre o nosso país de brandos costumes, quando os trabalhadores da empresa iniciaram um protesto, há coisa de um ano. Ora, segundo o Expresso, esse antro de comunistas, não só não há deslocalização como há mesmo um pré-acordo entre a administração e os trabalhadores, pré-acordo esse que prevê um aumento salarial na casa dos 2,9%. O Dr. Belzebu não brinca em serviço.

Saudades do 24 de Abril

Se Cristas votasse no Brasil, não votaria nem em Haddad nem em Bolsonaro. Abstinha-se.

Entre um democrata declarado e um ditador em potência, a senhora Assunção prefere não escolher. Sendo que escolhe na mesma – escolhe não contrariar o favorito, que é o mesmo que votar no fachosolnaro.

O resto é paleio de encher. Clarinho que nem água é que, para a senhora Cristas, o mal menor não é repudiar o sujeito que ameaça aniquilar os opositores, que defende a tortura e a polícia que atire a matar, que classifica as mulheres como seres humanos de segunda e os homossexuais como uma aberração e que os pobres devem ser capados para que não tenham filhos.

Estará esta cartilha fachista em linha com o seu credo cristão? E com o seu desejo de evitar o populismo? Onde é que encaixa aqui o Centro Democrático Social / Partido Popular?

Mais do que as palavras, os actos definem as pessoas. E esta senhora, se votasse no Brasil, ficava em casa. Tal como no dia 24 de Abril.

Resistir

Por Daniel Resende

As eleições em 2018 já deixaram claro o quanto fomos claramente manipulados e divididos em bolhas.

Ficamos surdos com o barulho do eco dentro da bolha e nos perdemos em causas indentitárias (justíssimas, aliás), mas que nos afastaram de grande parte da sociedade.

O discurso reacionário, violento, opressor e cheio de ódio de Jair Bolsonaro encontrou abrigo em uma sociedade neo-pentecostal, egoísta, rancorosa, abalada pela crise econômica e assustada com a violência.

Não falo apenas dos ricos ou da classe média tão bem definida por Marilena Chauí. “A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”, disse em 2013.

Essa turma se acha elite enquanto observa um horizonte de prédios medíocres sentada na varanda (área gourmet para ser mais chic) e ajusta a bússola da essência na busca por encontrar no Norte um SUV branco.

Estão sempre a serviço dos verdadeiros ricos. São os sabujos da engrenagem social. Bajulam o andar de cima, pois temem que o elevador chegue com outras pessoas no andar que estão.

Se destacam nessa fauna os burocratas do judiciário e ministério público com gravatas e camisas pretas (que coisa brega!), os chefinhos de merda das redações, os militares que fedem naftalina, os médicos sem humanidade entre outros que exercem grande influência no debate público e arrastam a reboque a opinião pública.

Contra isso só há um discurso capaz de reduzir as imensas desigualdades de um país vítima da colonização e escravidão:

Luta de classes.

É o que une a ativista transexual e a fiel da Universal no mesmo campo.

Por isso, a fala do Mano Brown na terça-feira, em evento do PT no RJ, foi sensacional: “Deixou de entender o povão já era. Se somos o Partido dos Trabalhadores tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar entender. As minhas ideias são essas. Fechou”.

Vamos virar e se não virar vamos resistir.

Mas vamos resistir pra caralho!

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