“Já lhe parti o focinho!”

Santana Castilho*

“Um aluno de 12 anos agrediu a pontapé e a soco um professor de 63, depois de este o admoestar por estar a brincar com uma bola dentro da sala de aula”, podia ler-se numa peça recente deste jornal. No desenvolvimento do texto, ficava-se a saber que o pequeno marginal tinha proferido a bazófia que “puxei” para título desta crónica. O tema foi objecto de múltiplas referências em jornais e televisões mas, 12 dias passados, está arquivado no limbo do esquecimento, para onde são remetidos os sucessivos episódios que documentam o mais grave problema da escola pública: a indisciplina. Com efeito, entre tantos outros, quem se lembra do caso de um aluno de 11 anos, violado por um colega no interior de uma escola de Montemor-o-Novo, do Leandro, 12 anos de vida, que se suicidou nas águas do Tua para fugir ao bullying dos colegas, ou do Luís, professor de música, que se atirou da Ponte 25 de Abril, “empurrado” por pequenos marginais que não o deixavam dar as suas aulas?

Voltando à agressão, já que da boca do ministro da Educação não se ouviu uma palavra e o Presidente não fez selfie com o professor agredido, arrisco eu a fotografia breve da situação que explica a cena.

Por vias e com motivações diversas (algumas perversas), tem-se imposto um conceito pedagógico que associa a defesa da disciplina a pulsões autoritárias de quem não consegue afirmar-se por outros meios (supostamente paradisíacos). Paulatinamente, tem-se imposto na escola uma ideologia protectora do aluno mal comportado, ao qual só assistem direitos.

Dizer que não há dois alunos iguais é um lugar-comum. Mas mais comum se tornou tratar em modo de esquecimento a maioria. Refiro-me aos alunos que não causam problemas de comportamento e que são permanentemente prejudicados pelos pequenos marginais, que não deixam as aulas funcionar. A pouca diferenciação que se aplica nas escolas está adulterada por um modo afunilado de interpretar o conceito de inclusão, que atira todos os apoios para cima dos pequenos marginais e termina excluindo os que se portam bem, sem resolver o problema daqueles. Esta situação tem vítimas: os alunos cumpridores, os professores que lutam pela reconquista da disciplina e a escola pública amputada de um meio central de eficácia.

Sejamos claros: se uma vertente nuclear da educação for (e é) tornar o ser moralmente responsável pelos seus actos, perante a sua consciência e perante os outros, resulta evidente que não o podemos deixar entregue à sua natureza instintiva. Outrossim, temos de o orientar num processo que o leve a admitir que a sua liberdade tem limites e que a entrada na sociedade supõe a aceitação de um conjunto de normas e de regras (disciplina) a que terá de obedecer. Assim sendo, o acto de educar supõe uma vertente disciplinar, que não dispensa a coerção necessária para substituir instintos (animais) por virtudes (humanas).

Não entender isto tornou-se politicamente correcto, mas denunciar isto vale o risco de ser queimado na fogueira inquisitória dos “pedabobos”. A autonomia que sempre tenho defendido para as escolas não serve se for entregue a (ir)responsáveis que escondem que a indisciplina é o maior problema das instituições que dirigem.

Dir-se-ia que a indisciplina se normalizou, assumindo-se como coisa inevitável. Dir-se-ia que a obsessão pelos cuidados a prestar às crianças e aos adolescentes obliterou a obrigação de os responsabilizar. É tempo de os responsáveis encararem a dureza da realidade que negam: a manifestação da crueldade de muitos pré-adolescentes e adolescentes, vinda da incompetência ou da demissão parental, não pode ser aceite na escola com os panos quentes da pedagogia romântica. Muito menos com as artes demagogicamente inclusivas, branqueadoras e flexíveis, dos tempos que correm. Os problemas maiores das escolas não são gerados na sala de aula. São trazidos para a sala de aula, anulam a aula e não são resolvidos depois da aula. É um ciclo vicioso que vai minando a escola pública e violentando a maioria que nela labuta: alunos, professores e funcionários. A impotência face aos agressores é uma razão de peso para o desespero e para a ausência de esperança que domina parte dela. Erram os que identificam disciplina com repressão, sem lhe reconhecer a capacidade transformadora de um ser bruto num ser social, ética e culturalmente válido.

*Professor do ensino superior

Comments

  1. Julio Rolo Santos says:

    A indisciplina no perímetro escolar não é de hoje mas de sempre mas agravou-se com a revolução em que os alunos foram imcentivados a tomarem conta das escolas e os mais indisciplinados a fazerem dos professores “totós” os seus alvos preferidos e então tudo lhes continua a ser permitido porque os próprios sindicatos dos professores elegeram outras prioridades de luta sindical abandonando os seus colegas numa luta inglória contra a indisciplina na sala de aulas onde são vítimas. O sindicato dos professores sabe dizer alguma coisa sobre a situação do caso em que o aluno não se coibiu de usar a expressão “já lhe parti o focinho’ referindo-se ao professor que tinha acabado de agredir?

  2. Carlos Portugal says:

    Quem dera que os ministros da educação, actual e futuros, tivessem sobre este assunto a opinião do Prof. Santana Castilho. Lamentavelmente o “sistema” facilita ao aluno “delinquente” o papel de colete amarelo das escolas públicas.
    Carlos Portugal

    • Maria says:

      Mais do que foi dito, aos professores e à própria escola tem sido progressivamente dificultada a aplicação de normas disciplinares . A burocracia que envolve ter uma atitude disciplinadora ou uma sanção imediata dos actos de indisciplina demove muitas vezes das acções necessárias. Longe vai o tempo em que um aluno perturbador era chamado à reitoria para ser admoestado ou suspenso, dependendo da gravidade do seu comportamento. Era imediato e sem apelo! Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, mas devemos estar alertados para que as mudanças não nos conduzam, por caminhos que não nos interessa trilhar. Vivamos a liberdade que nos foi dada pelo 25 de Abril com bom senso e sem exageros!

  3. Nasciemnto says:

    Muito bem. Aproveitar para dar umas alfinetadas no sindicalismo fica sempre bem. Não é? Pois. Por mero acaso, estou certo, ninguém refere ( esquecimento?) o simples facto de que a “porcaria” ter-se agudizado desde o dia ( apos a Revolução) em que os Paizinhos ENTRARAM NAS ESCOLAS !
    E são” parceiros”… recebem umas ajudinhas do Estado e tudo! Lindo…não é?Pois.

  4. whale project says:

    Pois, o problema é que os professores estão-se pura e simplesmente borrifando, para usar outra expressão politicamente incorrecta, quando a violência estala entre alunos. “São coisas de miúdos”. Fartei-me de ouvir essa conversa de m**** na sequência de insultos, agressões e outros mimos sofridos até muitos se convencerem mesmo de que era verdade o insulto que me dirigiam muitas vezes: que era nazi a sério e mesmo capaz de matar um, como um dia ameacei mesmo fazer.
    Em resumo, sempre tive de ser eu a defender-me contra agressões e insultos porque, no meu tempo, ter nascido na Alemanha dava direito a isso tudo. Ninguém foi suspenso, ninguém foi repreendido, só eu é que tive de ter a força para continuar a levantar-me da cama, dia após dia, para mais uma sessão daquilo. Um dia teve de lá ir o meu pai fazer justiça com as próprias mãos ante um meliante desses que, em cima daquilo tudo, ainda queria começar a extorquir-me um dinheiro que eu não tinha. Resultou.
    Os professores agredidos fizeram a cama onde se deitaram quando, ao longo de gerações, fecharam os olhos às agressões entre os alunos, aquela gente a quem não ligavam nenhuma, a não ser na hora de corrigir os testes e dar negativas. Mas eu até sempre estive entre os melhores, o que não me livrou de que se estivessem a borrifar para mim, na hora dos insultos e agressões.
    Por isso, temos pena, agora quem se borrifa para eles sou eu.

  5. Eu mesma says:

    O artigo está bem feito, mas deixou alguns aspectos por focar. Por exemplo, como mencionou e bem “whale project”, os professores ( e sei disso à minha custa porque também sofri bullying à força toda), no geral, estavam-se a borrifar. Lá está, dá trabalho, não dá dinheiro. Ainda hoje quando tenho de passar pela escola preparatória onde fui o alvo de filhos de drogados, alcoólicos e delinquentes, os típicos revoltadinhos porque moravam em bairros degradados e os pais ou se drogavam, ou roubavam, ou traficavam e depois iam chorar a fazer de vítimas-da-sociedade-que-os-obrigou-a-fazer-aquilo, ferve-se-me o sangue. Porque até os directores da escola se estavam nas tintas. Porque nem o facto da minha mãe se esfolar a trabalhar e não poder fazer nada os comovia. Porque nem a polícia tinha os ditos no sítio para meter os malandros na ordem. Aliás, um deles foi mentir ao pai, agente da PSP, que me foi ameaçar à escola e humilhar à frente de toda a gente. Outra pêgazinha armada em filha de gente rica usou o facto da mãe ser professora para me fazer a vida num inferno. E mais tarde noutra escola foi a vez de vários cancrozinhos chamados de betinhos. Os professores, seja por via das más políticas do Ministério da Educação, seja porque os sindicatos querem é “panriar”, demitiram-se das suas obrigações, pelo que, peço desculpa, mas na maioria das vezes, não concordo com as suas reivindicações.
    Outro aspecto: a criminosa demissão por parte dos pais da obrigação de educarem os filhos. Só sabem fazê-los, e venha a nós o abono de família-o-RSI-e-sucedâneos-que-tais e que se lixe ensiná-los a distinguir o bem do mal, e ai que não se pode tocar nas meninas e nos meninos; isto sucede desde há pelo menos duas décadas em qualquer classe social. Os resultados estão à vista de todos. Não fui nem metade do mau carácter de criança como se vê hoje em dia elas serem, levei porrada de criar bicho, passei privações que esta rapaziada nem imagina, e estou viva. Até quando vai continuar esta lavagem de imagem dos bullies? Até quando esta complacência absurda, cobarde, comatosa, contra criminosos que não valem o ar que respiram? O rapazola que agrediu o professor devia era ter os ossos todos partidos. Ele e os pais que o fizeram e não o educaram.
    Mas a sociedade também tem a culpa porque, lá está, desculpabilizam tudo aos criminosos e apontam o dedo à vitima, que como todos sabemos, é também o modus operandi dos tribunais.
    Uma dessas “actrizes-modelos” das telenovelas da TVI disse há uns tempos numa entrevista que tinha sido bullie na escola porque também lhe tinham feito bullying. Não sei se ria da cretinice do argumento, não sei se chore de raiva por ela não ter sido ainda mais agredida.